• Crise econômica? *

    A análise da cobertura feita pela grande mídia do tema da economia mostra uma acentuada preponderância de notícias negativas. No artigo que segue, o professor de economia da UFRJ, Carlos Pinkusfeld, foi instado a refletir se a economia brasileira está de fato em crise.

    O velho dito popular afirma que a verdade é a primeira vítima de uma guerra. Na “batalha eleitoral” a discussão não escapa desta máxima. Não tanto pela apresentação de dados enganosos, mas por meio de interpretações propositalmente confusas e previsões catastrofistas. Não deve ser fácil ao eleitor entender porque a esquerda radical critica os governos do PT por não terem mudado nada na política macroeconômica do PSDB enquanto o candidato deste partido lamenta que o mesmo PT tenha abandonado a herança virtuosa de FHC. Também não é muito razoável explicar como a comandante de uma economia supostamente “à beira do caos” mantém um sólido percentual de intenções de votos.

    A despeito do baixo crescimento agregado da economia, aqui há claramente uma divergência entre o crescimento do produto, o emprego e salário. Se, de fato, o crescimento do produto agregado, o PIB, tem sido decepcionante, o comportamento dessas duas variáveis, emprego e salário, que afetam diretamente a vida da grande maioria da população, não. A taxa de desemprego nas regiões metropolitanas foi 4,9% em abril de 2014 (contra 10,5% do último mês de governo Tucano em 2002) e, apesar de um comportamento de retração no primeiro trimestre de 2014, o salário real nestas mesmas regiões metropolitanas ainda é quase 4,5% superior àquele do mesmo período do ano anterior.

    Esse aparente “descasamento” não significa que tais variáveis macroeconômicas não se relacionem, ou que não existam implicações importantes e mútuas entre elas. Em termos de criação de empregos, o mercado de trabalho acaba sofrendo o impacto, ainda que com defasagens, de um pior desempenho do PIB e, sem dúvida, este é um desafio para o próximo governo: como fazer para estimular a economia garantindo que seu crescimento se torne mais robusto e permitindo que variáveis sociais relevantes, como o salário mínimo, continuem a crescer de forma consistente.

    Nunca é demais lembrar que a lei do salário mínimo, alvo de tão continuado ataque por parte de economistas da oposição, associa o crescimento real do salário ao crescimento per capita do PIB. Baixo crescimento representa não só um mercado de trabalho fraco, com impacto direto sobre o emprego e indireto sobre o poder de barganha dos trabalhadores, como também baixo crescimento ou estagnação do salário mínimo.

    Mas é justamente na questão da retomada do crescimento que as “contradições” da oposição e da mídia se tornam mais graves. Ao mesmo tempo em que criticam o baixo crescimento também criticam a inflação, supostamente excessiva, que por sua vez seria reflexo de um excesso de demanda, tendo um suposto descontrole fiscal como seu componente central. Consistentemente, propõe-se um ajuste fiscal por corte de gastos, uma vez que a carga tributária já estaria alta demais.

    Ora, pode-se discutir a validade dessa interpretação ortodoxa para a economia brasileira, mas se for adotada, por relação de causalidade, políticas econômicas decorrem diretamente. E elas sinalizam para menos e não mais crescimento; para menor, e não maior, emprego, e certamente, dadas as críticas contumazes ao salário mínimo, para uma retração da massa salarial. O governo, ao menos seguindo a lógica do argumento ortodoxo, não pode ser simultaneamente culpado por inflação, supostamente elevada, e baixo crescimento. Os candidatos da oposição, críticos da política econômica do governo, não podem prometer, ao mesmo tempo, o céu da aceleração do crescimento e o céu da queda da inflação. Se querem ser honestos, alguma passagem pelo inferno tem que estar prevista e anunciada.

    Entretanto, este é apenas um exercício de exploração da lógica retórica, ou a falta dela, dos candidatos da oposição. Não é uma alternativa inelutável de política econômica. Para que não seja, há que se reconhecer que a inflação é basicamente de salários e relativamente baixa. Isto é, por ser em grande medida causada pela própria elevação de salários em setores como o de serviços, é um preço a ser pago pelo avanço de uma sociedade mais justa no Brasil — processo sócio econômico, aliás, pelo qual já passaram países ricos e com melhor distribuição de renda como Japão e Suécia.

    O problema é: como levar adiante esse processo frente a um complô da oposição, partidária ou não, em transformar o fantasma da “inflação fora de controle” na sua grande bandeira? Infelizmente, o próprio Governo Dilma caiu nessa armadilha e abortou, com uma política fiscal contracionista, o momento de forte crescimento que herdou do governo de Lula em 2011. Se é verdade que, por um lado, uma política de aceleração do crescimento associada a outras políticas distributivas e sociais progressistas certamente fortalece a posição de barganha dos trabalhadores, por outro, cria um espaço, através de maiores ganhos de produtividade, para uma acomodação de demandas conflitantes das distintas classes sociais.

    Ademais, se não é para elevar o nível de vida das massas trabalhadoras, gerar mais emprego e melhorar a distribuição de renda, a que se propõe um governo de esquerda e trabalhista?

    Se a retórica da oposição é claramente eleitoreira e logicamente pouco consistente, a do governo não deve ser defensiva. A flexibilização informal, na prática, da política de metas, ou seja, uma aceitação tácita de se ter uma inflação que oscila próxima ao teto da meta é a tradução em economês da frase do ex-presidente Lula “não queremos combater a inflação com desemprego”.

    A falta de consistência e rigor empírico parecem dominar a agenda econômica da oposição, partidária ou não, sob o peso quase marcial de uma aparente competência técnica e “impecável” eficiência gerencial. O que é no mínimo curioso, pois quando pela última vez no poder essa mesma “competência”, embalada pela empáfia tradicional das elites periféricas, e temperada com altas doses de cálculo eleitoreiro, nos brindou com uma crise cambial na qual perdemos a bagatela de US$ 35 bilhões em reservas cambiais, entre setembro de 1998 e janeiro de 1999. No mesmo ano de 1999, a inflação chegou a cerca de 9%. Isso sem falar da deterioração dos serviços públicos, preços exorbitantes dos serviços privatizados, o infausto apagão de 2001, entre tantos outros problemas.

    Parece, como mencionado anteriormente, que uma parcela expressiva do eleitor tem seu voto influenciado mais por variáveis macroeconômicas que afetam diretamente seu dia a dia, somado à comparação da evolução destas com um passado nem tão distante, do que por manchetes da grande imprensa ou (não)debates (afinal todos concordam) tediosos das TVs fechadas.

    Desta forma, a crise econômica é mais slogan de campanha do que fato. Isto não quer dizer que a economia brasileira cruza, em velocidade acelerada, um céu de brigadeiro. Ao contrário. Há desafios no front externo e interno cuja solução é complexa, tanto do ponto de vista técnico quanto das tensões sociais que envolvem. O que um eventual futuro governo do PT precisa é não se deixar levar pela retórica conservadora da agenda imposta pela mídia, sob pena de jogar pelo ralo o legado de inclusão e crescimento com mais equidade social que marcou até hoje sua gestão. Que o partido reflita sobre a irrelevância eleitoral, para sermos gentis, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na campanha atual, na qual sua reaparição é mais sinal de falta de ideias novas do que um trunfo para transferência de votos.

    * Uma primeira versão desse texto fui publicada no site Brasil Debate (http://www.brasildebate.com.br/)

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