• Janelas fechadas para regulação da mídia

    Por Giovana Teodoro

    A sessão “Tendências e Debates” do jornal Folha de S. Paulo do último dia 23 publicou o artigo “A janela não responde pela paisagem”, escrito por Pierre Manigault, presidente do jornal norte-americano The Post and Courier. Para Manigault, as críticas à performance da mídia brasileira nos últimos tempos são uma grande injustiça – são críticas cujo único fundamento seria o inconformismo com o “livre exercício do jornalismo profissional”. O texto vai além, e ataca diretamente iniciativas de regulação da mídia no continente latino-americano como a Lei de Meios argentina – segundo Manigault, a Lei de Meios seria um exemplo de líderes latino-americanos atuando com o “desejo de intimidar e controlar a mídia independente”.

    Esta não foi a primeira vez que a Lei de Meios argentina foi citada nas páginas da Folha de S. Paulo. No final de 2014, em rara ocasião na qual o jornal incluiu a discussão sobre regulação econômica do mercado de mídia em sua pauta, o texto “Países têm limites para concentração” publicado na sessão “Poder” citou o marco regulatório argentino. A matéria descreveu a Lei de Meios como uma empreitada essencialmente política, “com o objetivo principal de atingir economicamente o grupo Clarín, que faz oposição ao governo da presidente Cristina Kirchner”. Ao final do texto, lia-se que a Lei de Meios foi considerada inconstitucional pela Justiça argentina – informação extremamente relevante para o assunto e totalmente incorreta. Após ter circulado para todos os “leitores de domingo” do jornal, o erro foi corrigido por uma pequena nota publicada três dias depois – o “Erramos” da edição do dia 10/12/2014, quarta-feira, informou: “Diferentemente do publicado na reportagem ‘Países têm limites para concentração’, a Lei de Meios foi considerada constitucional pela Corte Suprema da Argentina”.

    Passemos para a televisão: no último dia 14, conforme noticiado no blog do Coletivo Intervozes mantido no site da revista Carta Capital, a novela A Lei do Amor, transmitida no horário das 21h pela Rede Globo, levou ao ar uma cena na qual o diálogo entre personagens do folhetim estabelece uma relação direta entre “regulamentação da mídia” e a ameaça à liberdade de imprensa. Na cena, em reação à atitude da vilã da novela para silenciar um jornalista investigativo, um personagem da trama exclama: “Então quer dizer que a regulamentação da mídia foi aprovada e eu nem tô sabendo?”. Segundo os dados do Ibope, naquela sexta-feira, dia 14 de outubro de 2016, a audiência da novela das 21h atingiu a marca de 8,084 milhões de domicílios – um número certamente superior à quantidade de pessoas que teve a oportunidade de ler os esclarecimentos sobre o que de fato é a proposta de regulação da mídia no blog do Intervozes.

    Com o objetivo de, quem sabe, expandir um pouco mais o alcance das informações divulgadas pelo Intervozes no último dia 21 e reforçar o contraponto à relação enganosa e irresponsável que a novela global estabeleceu entre regulação dos meios de comunicação e censura jornalística, esclareço: a demanda por regulação da mídia não tem como objetivo “calar” a imprensa. Justamente o contrário: uma das principais pautas no debate pela regulação da mídia é a democratização dos meios de comunicação social, ampliando a diversidade de vozes e de meios. Uma das ferramentas jurídicas para atingir esse fim seria, por exemplo, regulamentar o artigo 220 da Constituição Federal que, em seu parágrafo 5º, estabelece o veto a qualquer forma de oligopólio ou monopólio sobre os meios de comunicação social – proibição claramente desrespeitada pelo Grupo Globo, notável oligopolista da mídia brasileira.

    O mesmo Grupo Globo, no dia 29 de setembro, recebeu o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) para adquirir todas as ações da empresa Valor Econômico, que edita o jornal Valor Econômico. Antes da aquisição, o controle da empresa era dividido entre o Grupo Folha e o Grupo Globo, cada um com 50% de participação. Aprovada em rito sumário pelo órgão de defesa da concorrência, a análise do caso foi estritamente econômica: como o jornal Valor Econômico foi considerado um veículo de público específico, não estaria no mesmo mercado dos demais jornais já detidos pelo Grupo Globo (O Globo, Extra e Expresso), de modo que não haveria, no mercado de “jornais de negócios”, quaisquer efeitos anticompetitivos decorrentes da operação.

    Consumada a aquisição da totalidade da participação do Valor Econômico pela Infopar, holding pertencente ao Grupo Globo, foi publicada uma nota, assinada pelos irmãos Marinho, na capa da edição do jornal Valor Econômico do último dia 24 de outubro. Sob o título de “Compromisso” em letras garrafais, o texto bradou o comprometimento do Grupo Globo com a “busca incessante pela isenção e pela correção”. Para Roberto Irineu Marinho e seus irmãos magnatas (devidamente incluídos na lista de bilionários da revista Forbes), esses “princípios do bom jornalismo” são fundamentais para defesa dos pilares que, segundo os próprios irmãos Marinho, “sustentam uma sociedade que se quer saudável e justa”. Quais são esses pilares? Para a família Marinho, “a democracia, a república, a livre expressão e o livre mercado”.

    Qual o real impacto dessas “mudanças acionárias” que, segundo a declaração do Grupo Globo, “podem acontecer sem prejuízo para a qualidade de uma empresa ou abalo em suas crenças?” O controle acionário de um jornal não exerce qualquer tipo de influência sobre sua linha editorial? Há algum mecanismo que garanta essa total separação entre propriedade dos meios e a voz que ele representa? A nota publicada pelos irmãos Marinho é obscura a esse respeito, afirmando que o Valor Econômico “seguirá sua jornada sem mudanças em suas crenças e qualidade”. O que isso significa? Quais crenças? Qual a medida de qualidade?

    Em meio a tantos questionamentos, alguns dados do monitoramento realizado pelo Manchetômetro nos ajudam a refletir sobre o tema de forma mais objetiva. Os gráficos a seguir indicam o número de textos positivos, negativos e neutros em relação à economia nas capas do dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo ao longo das últimas doze semanas:

    Gráfico 1 – Temática “Economia” nas capas do jornal Folha de São Paulo

    grafico 1 giovanna

    Fonte: Manchetômetro. Dados colhidos no dia 31 de Outubro de 2016.

    Gráfico 2 – Temática “Economia” nas capas do jornal O Globo

    gráfico 2 giovanna

    Fonte: Manchetômetro. Dados colhidos no dia 31 de Outubro de 2016.

    Ora, em uma comparação “a olho nu” dos gráficos, é possível identificar que há diferenças significativas entre as tendências observadas. Note-se, por exemplo, que na semana entre os dias 04 e 10 de setembro, enquanto O Globo atingiu um de seus picos de textos negativos na capa do jornal (seis no total), as capas da Folha apresentaram um único texto sobre a temática econômica – e este texto era positivo (no caso, uma manchete acerca dos valores arrecadados com a repatriação). Por outro lado, na semana do dia 09 a 15 de outubro, quando a Folha atingiu seu pico de textos negativos (quatro no total), este foi justamente o período no qual as capas d’O Globo não apresentaram chamadas ou manchetes negativas sobre a economia do País.

    Independentemente de qualquer julgamento quanto às escolhas editoriais de cada um dos jornais em relação a suas pautas de economia que ocupam a primeira página, é necessário reconhecer, diante dos dados acima, que há linhas editoriais distintas, vozes diferentes em jogo. Como a composição entre essas duas perspectivas de cobertura da economia se refletiam na cobertura econômica verificada no Valor Econômico? Sob controle integral do Grupo Globo, a tendência de cobertura da economia do jornal Valor poderia se alinhar mais àquela do jornal O Globo?

    Há estudos empíricos robustos sobre os efeitos da concentração econômica no mercado de mídia – em artigo publicado há alguns anos na Stanford Law Review, professores norte-americanos identificaram que quanto mais se levar a sério os aspectos de independência editorial na análise de operações concentracionistas no mercado de mídia, menor tende a ser o impacto da concentração econômica sobre a diversidade de conteúdo. A conclusão é resultado de um extenso estudo das fusões e aquisições que ocorreram na mídia impressa norte-americana nos últimos 20 anos.

    Embora relevantes, questões concernentes à independência editorial do jornal Valor Econômico não foram debatidas no contexto da análise concorrencial. Aliás, sem um marco regulatório para o mercado de mídia, talvez o CADE não tenha sequer instrumentos para atuar nesse sentido e provavelmente seria repreendido por fazer qualquer tipo de análise que ultrapassasse as “questões de mercado” envolvidas. Daí a relevância de debatermos soluções regulatórias específicas para os meios de comunicação de massa, pensar nos desenhos institucionais necessários para garantir a democratização da mídia e reforçar o papel das instituições que já atuam no setor, como a EBC e a Anatel.

    A luta por uma mídia mais plural e democrática não é pauta na grande mídia brasileira. Na realidade, quando discussão nesse sentido é suscitada nos principais veículos de mídia do país, o viés é claramente contrário a qualquer forma de intervenção regulatória e pautado por uma relação totalmente equivocada entre regulação e censura. Infelizmente, quando se trata de discutir a regulação da mídia no Brasil, a janela está sempre fechada – não há, sequer, paisagem a ser vista.

  • Prioridades que falam por si: enquadrando a violência à mulher no Jornal Nacional

    Por Marcia Rangel Candido, João Feres Júnior e Luna Sassara

    Rio de Janeiro - A ONG Rio de Paz promove, na Praia de Copacabana, ato público contra o abuso sofrido pelas mulheres. Durante a manifestação, 420 calcinhas estendidas na areia, representam a quantidade de mulheres estupradas a cada 72 horas no Brasil. (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

    (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

    Nascido[1] em pleno período de recrudescimento da ditadura militar no Brasil, o Jornal Nacional tenta passar, historicamente, uma imagem de neutralidade e transparência. Faz isso a partir de sucessivas declarações de comprometimento com a informação gerada ao público, nas quais destaca sua função de estabelecer a “cobertura das principais notícias no Brasil e no mundo. Pautado pela credibilidade, isenção e ética”[2]. Tendo em vista que as edições do JN têm menos de uma hora de duração, e que, portanto, a seleção de casos é algo inescapável, seria possível ainda assim manter qualquer tipo de isenção durante o processo de escolha das “principais notícias” do país? Quem participa desse processo? De qual ética estamos falando? Por exemplo, de que modo as mulheres, que são mais da metade da população do país, são contempladas nesta mídia?

    Em geral, os grandes meios de comunicação não primam pela paridade de participação entre homens e mulheres. Segundo estudo realizado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa em parceria com o Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública, ambos do IESP-UERJ, o gênero feminino não chega a 30% de participação entre os colunistas dos jornais O Globo, Folha de São Paulo e Estadão. Quando a variável raça é adicionada, as mulheres negras aparecem como o grupo menos contemplado nos espaços de opinião destes grandes jornais. No Jornal Nacional, as funções de maior notoriedade (editor-chefe/apresentador e diretor responsável) pertencem a homens, respectivamente, William Bonner e Ali Kamel. Do total da equipe, 61% são do gênero masculino e 39% são do gênero feminino[3]. Isso significa que as pautas apresentadas diariamente à população são formatadas prioritariamente por homens. As mulheres têm pouca possibilidade de expor suas experiências cotidianas. Ainda que a presença desse grupo não traga necessariamente pontos de vista diferenciados, sua ausência inibe qualquer chance de que isso ocorra.

    O escopo habitual das “principais notícias” do país neste programa televisivo compreende, sobretudo, a política institucional e o cenário econômico. Há algum tempo, o Manchetômetro tem mostrado que isenção e ética são atributos raramente praticados pela cobertura do Jornal Nacional. A escolha dos temas mencionados, bem como a sua abordagem, varia significativamente de acordo com o partido político ou personagem noticiado.

    Contudo, ao observarmos a cobertura das questões de gênero, esses dois problemas – seleção e abordagem – se manifestam de maneira específica. Destaca-se a escassa atenção dedicada ao tema da violência à mulher. Apesar da proliferação de novos veículos de comunicação que priorizam a denúncia do machismo, esse comportamento ainda não se reproduz nas mídias de maior audiência. Salvo algumas exceções, como o caso do estupro coletivo ocorrido recentemente no Rio de Janeiro[4], que alcançou grande notoriedade na mídia nacional de um modo geral, os relatos diários de violência e, especialmente, os inúmeros episódios de feminicídio que ocorrem em nosso país não conformam objeto relevante de análise aos olhos dos editores e redatores do JN. Tampouco quando as vítimas são mulheres negras, ainda que essas sejam as vítimas preferenciais desse tipo de crime.

    Segundo o relatório da FLACSO, Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil [5], publicado ano passado, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54% de 2003 a 2013. Em um ranking com 83 países, baseado em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil ocupa a quinta posição em taxa de homicídios de mulheres. Só no ano de 2013, por exemplo, em média 13 mulheres foram assassinadas por dia, sendo 50,3% desses crimes cometidos por familiares e 32,2% pelo parceiro atual ou ex.

    Silenciando o Feminicídio

    São Paulo 08/06/2016 2º ato Por Todas Elas na Avenida Paulista, contra o estupro. Foto Paulo Pinto/AGPT http://fotospublicas.com/ato-por-todas-elas-reune-mulheres-na-avenida-paulista-para-mais-um-protesto-contra-o-estupro/

    (Foto: Paulo Pinto/AGPT)

    Não bastassem as raras notícias dirigidas ao tema, quando elas ocorrem, há problemas de abordagem. No dia 15 de julho de 2016 o Jornal Nacional cobriu um suposto caso de assalto seguido de morte de uma mulher no Rio de Janeiro[6]. O sofrimento da filha e da família da vítima e a crueldade do crime foram aspectos centrais na narrativa da reportagem. Entretanto, no dia 18 de julho de 2016 a história sofreu uma reviravolta[7]. A Polícia Civil, a quem a reportagem dá voz, reformula o ocorrido em termos de violência perpetrada contra a mulher. O executor do crime, já com passagem na polícia, seria, na verdade, ex-companheiro da vítima, e teria cometido o assassinato por não se conformar com o término do relacionamento. A família, por sua vez, negou a versão da polícia e disse que a vítima só conhecia seu algoz por ele ser um trabalhador da região.

    O fato da dona de casa Cristiane de Souza Andrade – a vítima — conhecer Rogelson Santos Batista – o responsável pelo crime — ganha protagonismo na notícia. Isso ocorre não só pela afirmação da polícia e a negação da família, mas também pela declaração do âncora William Bonner, que assume a postura de defender a atuação policial, utilizando a relação entre a vítima e o criminoso para atenuar qualquer possível responsabilização da polícia pela falha no provimento de segurança. Em 163 segundos de notícia, os 67 finais são reservados à opinião de Bonner, que afirma:

    “Nesses dias em que tem aumentado o efetivo de segurança no Rio de Janeiro para a Olimpíada, a primeira suspeita de tentativa de roubo seguida de morte provocou imediatamente uma discussão sobre a necessidade de proteção que os cariocas têm o tempo todo, não só durante os jogos. Em todas as áreas da cidade, não só nos locais de prova. É uma discussão absolutamente legítima e necessária, mas com a identificação do criminoso, especificamente neste caso, não é justo ligar esses dois assuntos, porque o assassino, que apareceu nas imagens caminhando ao lado da vítima, era no mínimo conhecido dela e de vizinhos, e seria um desafio imenso pra (sic) polícia inibir uma ação covarde e rápida como essa, de uma pessoa de quem ninguém pudesse suspeitar. Infelizmente nunca se saberá se Rogelson teria feito o que fez se houvesse mais policiamento por perto e se tivesse sido punido exemplarmente na primeira vez em que sacou uma faca pra ameaçar uma mulher”.

    É mais do que escancarada a ausência de neutralidade na descrição do ocorrido. Alguns pontos na fala do apresentador do Jornal Nacional saltam à vista: a despeito da atenção concedida à relação da vítima com o agressor, em momento algum fala-se sobre feminicídio. O debate suscitado pela ocorrência do crime fica restrito, no enquadramento dado pelo jornalista, à discussão da segurança dos “cariocas”. Sancionada ano passado pela então presidenta Dilma Rousseff, a lei do feminicídio institui punições mais severas a crimes baseados na condição de mulher e à violência doméstica[8].

    Ao editorializar a notícia dando sua própria versão do fato para o telespectador, coisa que raramente acontece, Bonner tem como principal objetivo a defesa da atuação da polícia do Rio de Janeiro, a mais letal do país[9]. Ademais, ele deixa de mencionar a lei federal, mas apresenta a punição como solução preventiva (“se tivesse sido punido exemplarmente”), sem qualquer problematização mais aprofundada acerca da natureza da violência em nossa sociedade.

    Em suma, ao passo que escondeu a natureza de gênero da violência ocorrida, protegendo, ao mesmo tempo, a Polícia Carioca de eventuais críticas, o Jornal Nacional, na voz de seu dileto âncora, passou uma concepção law and order de justiça e segurança pública: quanto mais rápida e exemplar vier a punição, melhor! E assim, a grande mídia brasileira educa sua audiência para a cidadania.

     

    [1] O primeiro episódio do Jornal Nacional foi ao ar em setembro de 1969. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/telejornais/jornal-nacional/evolucao.htm

    [2] Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/telejornais/jornal-nacional/formato.htm

    [3] Percentual calculado com base nas informações disponíveis em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2010/04/redacao.html

    [4] Por exemplo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/06/policia-do-rio-indicia-7-por-estupro-coletivo-de-jovem-de-16-anos.html

    [5] Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil. Flacso, 2015. Disponível em: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

    [6] Mulher morre a facadas em um assalto na Zona Norte do Rio, 15 de julho de 2016. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/5167909/

    [7] Dona de casa esfaqueada no Rio conhecia assassino, diz polícia, 18 de julho de 2016. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/5173017/

    [8] Lei do Feminicídio (Lei nº 11.340/06). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/lei/L13104.htm

    [9] Rio de Janeiro tem a polícia mais letal do país, Uol, 2015. http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/12/01/rio-de-janeiro-tem-policia-mais-letal-do-pais.htm

  • Novas molduras, velhas imagens

    Por Eduardo Barbabela, João Feres Júnior e Marcia Rangel Candido

    Nos últimos dias uma polêmica explodiu nas redes sociais e nas páginas do jornal Folha de São Paulo. Em sua edição do dia 17 de julho de 2016 o periódico paulista estampou em sua manchete os resultados de uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha que apresentava o crescimento do otimismo na sociedade quanto ao futuro do quadro econômico. Entretanto, o trabalho de investigação de jornalistas da blogosfera revelou que o jornal havia manipulado dos dados, escondendo o crescimento da insatisfação da sociedade quanto à possível manutenção do governo Temer. Posteriormente o jornal admitiria parcialmente o erro. Mas será que isso basta? Ou melhor, será que essa proteção ao governo Temer foi um episódio pontual ou haveria uma tendência da cobertura do jornal paulista de agir de tal forma?

    Desde a abertura do processo de impeachment em maio, a Folha de São Paulo fez clara sua posição editorial acerca da conjuntura brasileira: o impeachment não era a escolha ideal, porém era processo constitucional que, caso consumado, deveria ser respeitado. O tom e o discurso adotados pelo periódico com o advento da nova administração foi então se revestindo de otimismo, particularmente com relação ao futuro da economia brasileira.

    Se voltarmos para 6 de março de 2016[1], quando Dilma ainda ocupava a Presidência da República, o editorial sobre economia adotava tom de grande pessimismo com o futuro do país. O panorama apresentado era de terra arrasada: falta de liderança política, falta de confiança do mercado, PIB em potencial queda de 3,8% no ano. O jornal afirmava não haver nenhuma solução para a crise econômica que se fazia presente caso a crise política se mantivesse. O Brasil apresentado pela Folha caminhava para o fundo do poço.

    Entretanto, a partir de maio tudo ficou diferente. A transformação ocorreu principalmente a partir da nomeação de Henrique Meirelles, apresentado como a esperança de um novo futuro. O primeiro editorial do dia 2 de junho é um exemplo do novo tratamento[2]. No texto, o jornal comentava o resultado trimestral do PIB, que era queda de 0,3% no primeiro trimestre. Apesar de negativo, o editorial considerou este resultado bom pois mostrava recuperação da economia em relação aos índices de 2015, criando esperança de melhoras futuras, desde que a crise política fosse contornada. Segundo essa interpretação, agora poderíamos sonhar com o retorno do crescimento do PIB em 2017, algo que alguns meses antes era impensável.

    Estes são exemplos do tratamento distinto dado pelos editores da Folha a Temer e Dilma no tema da economia. Mas será que esse comportamento se repetiu na posição geral da editoria do jornal em relação a esses governos? O que os dados do Manchetômetro nos dizem sobre os editoriais da Folha de São Paulo?

    Gráfico 1 – Percentual das valências em textos em que o governo federal é citado nos Editoriais da Folha em 2016

    Gráfico

    (Fonte: Manchetômetro/LEMEP)

    Como podemos ver claramente, a discrepância no tratamento dispensado aos dois governos pelos editoriais da Folha de S. Paulo não se restringe ao tema da economia. Durante o ano de 2016, o padrão do tratamento de Dilma nos editoriais foi de 8 textos negativos para cada dez publicados. Já Temer é visto de modo bem mais equilibrado, com 1/3 de textos negativos, 1/5 de favoráveis e a maior parte neutros. Ou seja, a proporção de negativos que ela recebia era mais que o dobro da que ele recebe. Ademais, é notável a presença de vários editoriais favoráveis ao governo do presidente interino, privilégio que foi negado à Dilma.

    Resta-nos saber se essa posição editorial do jornal se reflete também na valência da cobertura como um todo, que inclui reportagens e demais texto de opinião. O advento do Governo Temer serve para testar novamente a tese de que a mídia comporta-se como defensora do interesse público e, portanto, é sempre crítica ao poder instituído — conhecida também como tese do “cão de guarda”.

    O Manchetômetro já fez isso comparando a cobertura de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso concorreu à reeleição, com a eleição de 2014, que tinha Dilma em situação similar. O resultado foi a evidente falsificação da tese. Apesar de ser governo, FHC foi tratado de maneira extremamente favorável pelos jornais Folha, Estado e O Globo, ao passo que seus adversários receberam cobertura predominantemente negativa. Some-se a isso o fato de que os índices da economia ao final de seu primeiro governo eram péssimos, fato que revela a motivação política clara dos jornais ao dispensar este tratamento favorável. Será que a grande mídia vai assumir uma postura de cão de guarda ou continuará a funcionar como suporte da direita política em nosso país?
    Julgando pelos resultados desse breve estudo e pela atuação pregressa dessas empresas, podemos esperar o pior.

    [1] “Está no preço”. Folha de São Paulo, 06 de março de 2016.

    [2] “Questão de Perspectiva”. Folha de São Paulo, 02 de junho de 2016.

  • Dois pesos, duas medidas (ou quantas forem necessárias)

    Por Giovana Teodoro

    Dois pesos, duas medidas (ou quantas forem necessárias)

    O primeiro dia do segundo mandato do governo Dilma e o primeiro dia do governo interino de Michel Temer foram datas carregadas de diagnósticos e expectativas. Como já é de costume, a grande mídia brasileira não somente reportou esse cenário como também reafirmou seu já reiterado papel de arauto dos “rumos da economia” do País. O jornal O Globo publicou, no dia 1º de janeiro de 2015, o editorial “Margem de erro para Dilma ficou estreita” e, no dia 13 de maio de 2016, o editorial, quando da posse de Temer, “Otimismo com o novo tom do Planalto”.

    Se o posicionamento do jornal fica evidente a partir da mera oposição dos termos escolhidos para o título de cada um dos editoriais, associando “margem de erro estreita” ao governo Dilma e “otimismo” ao governo Temer, a análise dos textos demonstra a opção deliberada d’O Globo por termos que estabelecem, de um lado, a tempestade para as perspectivas do cenário econômico no segundo mandato de Dilma e, de outro, a bonança para um governo Temer que, já nas suas primeiras semanas, contrariou tais expectativas. No editorial de janeiro de 2015, o jornal enfatiza que a economia do país teria entrado “em coma” antes mesmo do novo mandato de Dilma, indicando que já haveria um “cerco montado ao segundo governo Dilma por erros dela mesma”. Já o editorial de maio de 2016 apresenta o interino como homem de muitos “predicados”, sendo seu “trânsito no Congresso” apenas uma de tantas outras qualidades, além de destacar a opinião de que o primeiro dia de seu governo foi marcado por uma mudança no discurso “e para melhor”.

    Reforçando o viés político do editorial, não faltaram referências a termos pejorativos como “lulopetismo” e “hostes petistas”. O editor ousou até mesmo escrever que quanto menos presente a cor vermelha no Planalto, mais este seria “condizente com os ares de um palácio de governo”.

    O texto dos editoriais desnuda, ainda, a opção do jornal por políticas econômicas específicas, alinhadas com o que a economista Laura Carvalho define como “agenda Fiesp”, que atende melhor aos interesses do empresariado e do mercado financeiro ao priorizar medidas como desvalorização do câmbio,  redução de impostos e ajuste fiscal. Note-se, nesse sentido, a ênfase dada pelo editorial de 2015 ao “esgotamento do ciclo de incentivo preferencial ao consumo” (política econômica que marcou os dois governos Lula e alavancou o crescimento econômico do país no período) e o destaque do editorial de 2016 à fala de Temer sobre a “necessidade de se melhorar o ambiente de negócios no País”.

    Ocorre que, ao apresentar dados do Relatório Focus, o editorial do jornal O Globo sobre o início do segundo mandato de Dilma deixa de informar o leitor que esses números decorrem da própria tentativa da presidenta de atender às demandas da agenda Fiesp, já nos primeiros anos de seu governo. Exemplo disso é a notória contração fiscal observada entre os anos 2011 e 2015 (conforme apresentado em estudo do Ibre/FGV de dezembro de 2015) e as consequências preocupantes para as contas da União da concessão de benefícios fiscais a empresas. Além disso, a própria utilização do Relatório Focus como fonte primária de dados para definir os “rumos da economia” do país deve ser questionada. Trata-se de um conjunto de expectativas geradas pelo mercado financeiro e para o mercado financeiro, sem falar que o próprio Banco Central, nos documentos publicados por seu Departamento de Relacionamento com Investidores e Estudos Especiais (Gerin), destaca que os dados apresentados pelo Focus não restringem as ações de política monetária e cambial do BC.

    Devemos atentar, contudo, para o desequilíbrio das abordagens em cada caso. Enquanto que para diagnosticar e prognosticar o desastre do novo governo Dilma sobram números, a análise das perspectivas para o “novo tom do Planalto” sob Temer se limita a interpretar as boas intenções no discurso do interino. As críticas à administração de Dilma são contumazes mesmo quando se trata de um ato da Presidenta alinhado com a posição do editorial. A nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, por exemplo, que poderia representar uma boa escolha de Dilma de acordo com aquilo que O Globo considera como política econômica ideal, é logo ponderada pelo editorial em face do caos econômico desenhado ao longo do texto – “foi um alento, mas não significa que se espere um ano fácil”.

    Em nenhum momento esse tipo de ponderação aparece em relação às perspectivas para o governo Temer. O editorial de maio parece deixar muito claro que o presidente em exercício estaria plenamente apto à missão honrosa de “pacificar e unificar o Brasil”, superando as dificuldades políticas e econômicas deixadas pela administração petista e tendo como único obstáculo a “guerra” que Dilma e o lulopetismo prometem fazer contra seu governo. Tamanha é a aposta no sucesso do novo governo que, em contraste com a ideia defendida em 2015 de que “nenhuma política social sobrevive a uma crise com as características e nas dimensões da que está emergindo no Brasil”, o editorial do último mês de maio enalteceu o aparente compromisso de Temer em manter os programas sociais de seus antecessores. Sem qualquer crítica à uma proposta que o jornal havia atribuído às “hostes petistas” no ano passado, o editorial “Otimismo com o novo tom do Planalto” destaca, em contraponto às supostas ambições de Dilma e do lulopetismo de guerrear contra o governo Temer, que o presidente interino “foi direto ao garantir a manutenção dos programas sociais”. Ora, o que mudou em pouco mais de um ano? A capacidade do país de sustentar programas sociais em meio a crise ou simplesmente a voz que os anuncia no Planalto?

    Entre dois pesos e tantas medidas para legitimar a “solução Temer”, os editoriais d’O Globo não surpreendem ao sacrificar a coerência para sustentar um viés velado, pouco transparente perante o leitor. Se o otimismo com o projeto de política econômica de Temer vem assentado no que seria a capacidade do presidente interino de restabelecer a tão sonhada “confiança do mercado”, cabe ao leitor desconfiar daqueles que anunciam que tudo vai “mudar para melhor” quando o que se vê de fato é apenas uma mudança: um Presidente não eleito substituindo uma Presidenta afastada por um processo de impeachment que se torna mais questionável a cada dia.

  • Privatizações: crise e velhas respostas

    Por Marcia Rangel Candido e João Feres Júnior

    As grandes empresas de comunicação têm o hábito de reivindicar para si neutralidade e equilíbrio de opiniões. Apresentam-se como alheias a disputas políticas e a interesses. Não é muito difícil verificar a falácia de tal pretensão se tomarmos a prática cotidiana dos principais jornais no Brasil. Desde que assumiu interinamente a presidência, Michel Temer executou um programa de governo fundamentado em medidas impopulares, mas que tem recebido tratamento parcial nos grandes meios de comunicação. O discurso da retomada do desenvolvimento econômico abriu caminho, por exemplo, para a defesa da flexibilização das leis trabalhistas e o corte nos gastos públicos, sobretudo no que se refere aos programas sociais.
    Há alguns dias, o Jornal Nacional veiculou uma notícia que exemplifica o viés presente na cobertura midiática em determinados temas caros aos interesses dos grandes grupos privados. Com 208 segundos de duração, a notícia “Moreira Franco quer acelerar concessões para atrair investimentos”[1] abordou a privatização de serviços públicos e mostrou ao público quatro perspectivas sobre a questão: (1) a do próprio Jornal Nacional, (2) o ponto de vista do governo, (3) o argumento contrário da oposição e (4) a análise de um especialista. Vamos ver onde está o equilíbrio dos pontos de vista.
    Na notícia é possível constatar a disparidade na atenção dada aos aspectos em discussão, tanto pelo tempo dedicado à cada um dos lados, como pela caracterização do cenário político e econômico atual. Do total, apenas 27 segundos são reservados à manifestação de um ponto de vista crítico. O deputado Rubens Júnior (PCdoB), membro da oposição ao governo Temer, é entrevistado na matéria e tem 19 segundos de tempo de fala. Ainda assim, aparece na argumentação do político apenas a contrariedade em relação ao modo como as concessões à iniciativa privada estão sendo realizadas. Nenhum argumento claramente antagônico às privatizações em si é esboçado por ele. A colocação do ponto de vista crítico no conjunto da matéria, entre o depoimento de Moreira Franco e a chancela final de um especialista francamente favorável às privatizações, também revela a clara intenção de editorializar a opinião.
    O anúncio da queda na arrecadação e da falta de dinheiro para investimentos dão início à notícia, que segue sinalizando que “o Brasil tem pressa para gerar empregos”, mas não tem como fazê-lo sem recorrer ao caminho das privatizações. O apelo à geração de empregos e à execução de obras fundamentais para o desenvolvimento do país, tal como em aeroportos, rodovias, ferrovias e portos, faz coro à defesa das concessões à iniciativa privada como único caminho possível à retomada do desenvolvimento, bem como do mercado como parâmetro para a definição dos termos a serem adotados. Outro fator sinalizado pelo jornal confere baixo prestígio à gestão pública das obras de infraestrutura, ao afirmar que a ferrovia Norte-Sul consome dinheiro público há três décadas.
    Moreira Franco (32 segundos de tempo de fala, mais 31 segundos de introdução do jornalista) e o economista Otto Nogami (25 segundos de tempo de fala, mais 11 segundos de introdução do jornalista) ficam com os mais longos tempos de fala da notícia e ratificam o ponto de vista estabelecido pelo Jornal Nacional. Moreira Franco argumenta que é necessário acelerar os processos de concessão com a retirada das travas que os impossibilitam. Atração aos investidores, transparência e estabelecimento de regras claras dão o tom, tanto da introdução do jornalista responsável pela entrevista, como do secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) da Presidência da República. Franco ressalta que essas medidas são investimentos de longo prazo em infraestrutura e que objetivam mostrar aos investidores que o Brasil é um país sério. Na mesma direção, Otto Nogami relaciona a eficiência na gestão pública com a presença do governo apenas em áreas essenciais, tal qual a educação, a saúde e a mobilidade urbana. Nogami trabalha no INSPER, instituição de recorte fortemente neoliberal, e tem dado várias declarações públicas de apoio à equipe econômica do governo Temer. O bem-estar da sociedade aparece na fala do especialista como justificativa para que todos os outros serviços sejam transferidos à iniciativa privada. Não há espaço para neutralidade, nem mesmo para a ambivalência, com o veículo se posicionando em um lado do debate.
    A privatização dos serviços públicos não é assunto recente no Brasil. Ela começou no governo Collor e ganhou força no período em que o PSDB esteve na presidência, quando muitas empresas estatais de grande porte foram vendidas. Desde então essa prática é objeto de opiniões controversas. Mobilizar minimamente os argumentos contrários e favoráveis a um assunto tão importante é o que devíamos esperar de uma mídia verdadeiramente democrática. Mas parece não ser esse o caminho escolhido pela grande mídia brasileira, aqui representada pelo programa de notícia de maior audiência na TV do país, o Jornal Nacional, da Rede Globo.

    [1]Jornal Nacional, 17 de junho de 2016. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/5102559/

  • Sobre vazamentos e enquadramentos

    No dia 23 de maio de 2016, o jornal Folha de São Paulo publicou trechos de conversas do então ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer, Romero Jucá, com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e ex-senador pelo PMDB. Nelas, os dois discutiam a possibilidade de deter o avanço da Operação Lava Jato caso a presidente Dilma Rousseff sofresse impeachment.
    O vazamento do grampo de um ministro de Estado não é exclusividade do governo Temer. Em 15 de março de 2016, ainda no governo Dilma Rousseff, o site da revista VEJA divulgou conversas do então ministro da Educação Aloísio Mercadante com um assessor do senador cassado Delcídio do Amaral, na qual o ministro teria supostamente oferecido ajuda ao senador em troca de seu silêncio.
    Ambos os episódios foram apresentados pela mídia, no dia do vazamento e no dia seguinte, como tentativas de obstruir o andamento da Operação Lava Jato. A cobertura, entretanto, foi bastante dissimilar, principalmente no que toca o tratamento da relação dos ministros com os respectivos presidentes da República, tal qual veremos a seguir.
    No dia 15 de março de 2016, o site da revista VEJA divulgou conversas entre um assessor do senador cassado Delcídio do Amaral com o então ministro da Educação, Aloísio Mercadante, na qual os dois negociavam um possível apoio do ministro ao senador. No dia seguinte, Mercadante e Delcídio estavam presentes nas capas dos jornais.
    As manchetes dos três jornais, Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo, destacavam em alguma medida a homologação da delação de Delcídio, de perspectivas distintas: do PGR, do STF e da própria Lava Jato. Mesmo competindo com dois outros temas importantes à época – o conteúdo da delação de Delcídio e a nomeação de Lula como ministro – o caso de Mercadante ainda obteve espaço relevante nas capas.
    Ao analisarmos os textos que acompanham as manchetes podemos notar uma característica comum nas coberturas: a insistência em ressaltar que o ministro da Educação era próximo à Presidenta da República. Este fato foi, inclusive, utilizado por articulistas para contradizer a justificativa de “ação pessoal” apresentada por Aloísio Mercadante quanto à oferta de ajuda a Delcídio. Assim, os jornais associaram o escândalo diretamente a Dilma Rousseff, mesmo que ela tivesse desmentido tal ilação.
    Seria essa atitude agressiva em relação ao ministro e à presidenta, que faz inclusive uso de ilações sem comprovação concreta, uma característica geral do comportamento dos jornais em relação ao poder estabelecido ou um tratamento especial reservado a Dilma e ao governo do PT?
    Para responder a essa pergunta é necessário avançarmos no tempo até 23 de maio. Michel Temer completava seu 10º dia como Presidente da República interino, quando a primeira grande crise de sua administração eclodiu. Segundo denúncia do jornal Folha de S. Paulo, Romero Jucá, então ministro do Planejamento, mantivera conversas com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e ligado ao PMDB, sobre a possibilidade “um pacto para deter a Operação Lava Jato” em um futuro governo Temer.
    No dia seguinte ao vazamento, os três jornais – Folha de São Paulo, Estadão e O Globo – estampavam a queda de Romero Jucá, causada pelo vazamento da gravação. Nos textos que acompanhavam as manchetes, o foco esteve no peemedebista, sem mencionar a proximidade entre Jucá e Temer. Por sua vez, o presidente interino foi citado apenas em três oportunidades: como alguém que era desafiado pela situação, que elogiara Romero Jucá em sua saída e também que fora chamado por petistas de golpista em sua visita ao Senado Federal.
    Mesmo que Jucá e Michel Temer fossem aliados próximos, como os jornais em diversas oportunidades reforçaram, não houve em nenhum momento a tentativa de associar o conteúdo da delação com o presidente interino, ainda que existissem falas do próprio Jucá que associavam o governo Temer à possibilidade de influenciar o andamento das investigações da Operação Lava Jato. Além disso, o afastamento do então ministro do Planejamento foi apresentado como uma ação positiva do governo Temer contra a prática da corrupção, mesmo que se lembrasse o fato que o próprio Romero Jucá já era investigado na Operação Lava Jato antes de assumir o cargo.
    Assim podemos notar que os dois ministros são representados de forma negativa, dotados da mesma intenção: impedir os avanços da Operação Lava Jato. No entanto, as perspectivas apresentadas são distintas: Aloísio Mercadante é apresentado tal qual um fantoche a serviço do Governo Federal e de Dilma Rousseff, mas que assume todo o ônus de sua ação como forma de protegê-los, enquanto Romero Jucá é representado como o político que age sem o apoio ou conhecimento de Michel Temer, mesmo que seu objetivo explícito fosse conduzir o último ao poder.
    Em suma, o tratamento dado a Dilma e a Temer pela grande mídia foi bastante distinto. Uma sendo alvo de ilações e o outro sendo poupado de qualquer associação aos malfeitos de seu comandado e aliado. Esse comportamento se verificou nos três jornais, de maneira similar. Resta saber até quando permanecerá esse estado de coisas.

    Por Eduardo Barbabela e João Feres Júnior

  • slider_1600x400

    “Uma imagem vale mais…”: O impeachment nas capas do Estadão

    A equipe do Manchetômetro produz análises diárias da cobertura da política e da economia nacional desde 2014. Em nosso site, disponibilizamos gráficos e artigos que utilizam como fonte extensa base de dados sobre o conteúdo publicado pela grande mídia brasileira. Nossas pesquisas, no entanto, levam em consideração apenas os elementos textuais das páginas de jornal. No caso das capas, levamos em conta somente manchetes, lides e textos-chamada. Há um importante elemento constitutivo das capas que acaba por ficar de fora: as imagens. Neste boletim adotamos metodologia distinta. Integramos à análise a consideração de aspectos não verbais presentes nas capas das edições do jornal O Estado de São Paulo, em especial as que dizem respeito ao processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff e ao governo do presidente interino Michel Temer.

    A capa de 12 de maio do jornal O Estado de São Paulo, dia que sucedeu a votação da admissibilidade do processo de impeachment no Senado e consequente afastamento provisório da presidente Dilma Rousseff até o julgamento do processo, é inteiramente ocupada por uma imagem em preto e branco de Michel Temer. Na foto, tirada no gabinete da Vice-Presidência, Temer aparece sentado com as mãos sobre a mesa, olhando para a câmera com um sorriso discreto e ares de nobreza. A edição especial teve 40 páginas dedicadas ao assunto. A manchete, não surpreendente, diz “A chance de Temer”. É o lide que impressiona: “Vice de Dilma assume a Presidência da República com o desafio de superar uma crise histórica e encerrar a era do PT no poder”.

    A opção de leiaute de colocar uma só foto ocupando todo o espaço da capa, claramente com intenção de alto impacto no leitorado, é muito raramente empregada pelo Estadão. Foi utilizada pela última vez em 14/03/2016, para mostrar as manifestações que pediram o impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Naquela ocasião, abaixo do cabeçalho, havia apenas uma imagem do alto mostrando a Avenida Paulista tomada por manifestantes. É possível ver com destaque dois bonecos infláveis de Lula e Dilma, uma faixa verde e amarela com a palavra impeachment e um pato inflável da campanha contra o aumento de impostos encabeçada pela Fiesp cujo nome é “Não vou pagar o pato”. O jornal marca com essa opção estética dois eventos fundamentais para o processo de impeachment da presidente — a passeata de março de 2015 e a posse de Temer como presidente interino – e imprime a eles um tom de comemoração. O uso da expressão “encerrar a era do PT”, como um desafio que o presidente interino terá a chance de superar, parece mais um desejo da editoria do jornal do que um argumento jornalístico baseado em evidências concretas, ou talvez alguma inside information que o jornal não se digna a tornar pública.

    Abaixo da grande imagem, há três textos-chamada. “A votação no Senado e o novo governo” é o tema das páginas A4 a A22. “Da euforia à crise, os 13 anos da era PT” convida o leitor a visitar as páginas A25 a A43. O mais impressionante deles é o texto-chamada para o editorial do dia: “Retorno à irrelevância”. Dado que o sujeito da frase não está explícito, e levando em consideração o contexto no qual aparece, o título parece fazer referência ao Partido dos Trabalhadores. Bom, o PT forma a terceira maior bancada na Câmara dos Deputados estando atrás somente dos blocos PP/PTB/PSC e PMDB/PEN, é o terceiro partido com o maior número de senadores, e o segundo maior em número de filiados. Ou seja, tal irrelevância revela novamente muito mais o desejo dos editores do que a realidade. No mais, o implícito prognóstico acerca do afastamento parece bastante antecipado, tendo em vista que, mesmo fora do governo, Dilma Rousseff continua a ser a presidenta eleita pelo menos até que seja definitivamente julgada pelo Senado, o que ocorrerá nos próximos meses. Se levarmos em consideração que a mudança de voto de 2 senadores é suficiente para mantê-la na presidência até 2018, concluímos ser no mínimo temerário para um jornal que preza a qualidade profissional de seu trabalho apostar tão firmemente no alijamento definitivo do PT do governo.

    No texto do editorial, contudo, fica explícito que a irrelevância diz respeito a Dilma e a Lula: “[…] Dilma só se tornou importante por ter arruinado o País. Começa a voltar, agora, para sua irrelevância. O mesmo ainda acontece com Lula […]”. Devido à ausência de pesquisas de popularidade de Dilma – as últimas remontam a abril passado -, seria muito difícil avaliar a opinião da população no que diz respeito a seu futuro político, ainda que a série histórica permita uma posição cética. Já em relação a Lula a realidade é bem diversa. Pesquisa realizada pela CNT/MDA divulgada no dia 8 de junho aponta que o ex-presidente venceria o 1º turno das eleições presidenciais de 2018 em todos os cenários[1]. Mais uma vez, não há base empírica para apontar a irrelevância, há somente o desejo do jornal.

    No dia seguinte à posse do interino, 13 de maio, a manchete e seu lide trataram do primeiro pronunciamento de Temer como presidente: “Ao assumir governo, Temer prega união e ‘democracia da eficiência’” e “Em pronunciamento, presidente em exercício declara respeito institucional a Dilma e afirma que Lava Jato ‘não será enfraquecida’”. Abaixo, uma grande foto com a seguinte legenda, bastante descritiva: “Nova equipe. Aécio Neves, Romero Jucá, José Serra, Michel Temer, Henrique Meirelles e Mendonça Filho, após cerimônia de posse de ministros”. Temer aparece no centro, em primeiro plano, e os outros personagens encontram-se de um lado e de outro. Logo abaixo, em imagem cujo tamanho corresponde a um quarto da primeira, vê-se Dilma em seu discurso de saída, falando ao microfone, de olhos cerrados e cenho franzido, com uma expressão – e aqui peço licença para fazer uso de um coloquialismo – típica de quem acabou de bater o dedinho do pé na quina da mesa. Atrás, Lula em segundo plano, de olhos fechados e cabisbaixo, apoia o rosto em uma das mãos.

    O leitor mais crítico poderá, com razão, argumentar: oras! É natural que Lula e Dilma sejam representados como “perdedores”, tendo em vista que acabaram de sofrer uma derrota política. Pois bem. Façamos, então, um exercício comparativo consultando as capas dos dias que se seguiram ao resultado definitivo das duas últimas eleições presidenciais, com especial atenção à representação dos candidatos derrotados.

    A manchete do dia 1º de novembro de 2010, dia seguinte à vitória de Dilma Rousseff, foi ilustrada com uma foto de Dilma sorrindo e fazendo um sinal de positivo, com o polegar para cima de uma das mãos, ocupando metade da página. A manchete, no entanto, diz: “Vitória de Lula”. Na legenda, lê-se: “Com 55% dos votos, Dilma Rousseff (PT) é eleita a primeira mulher presidente do Brasil; Serra diz que batalha foi desigual”.

    Aparentemente, a vitória da primeira mulher presidente do Brasil não foi um evento suficientemente relevante para ocupar a primeira página inteira do jornal. Mas a posse de um presidente interino, produto de um processo de impeachment escandaloso, dirigido por políticos acusados de alta corrupção, só para ficar nos presidentes das casas legislativas, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, sim. Tampouco mereceu a primeira mulher eleita presidente que seu nome estivesse escrito na manchete. José Serra, o candidato derrotado, aparece em uma imagem pequena abaixo, acenando e sorrindo, apesar da expressão cansada. Na legenda, a descrição da imagem: “Hora H. Serra chega para votar: candidato levou os netos para a cabine”. Do lado esquerdo da imagem, o texto-chamada diz “O derrotado. Serra afirma que ‘alternância de poder faria bem'” e do lado direito, “A oposição. PSDB e DEM ampliam força nos Estados”.

    Em 27 de outubro de 2014, após a reeleição de Dilma Rousseff, uma grande foto de Dilma e Lula abraçados e sorridentes ilustra a manchete “Reeleita com 51,6%, Dilma propõe plebiscito para reforma política”. Abaixo, uma foto menor mostra Aécio Neves, o candidato derrotado, em frente à bandeira do Brasil, sorrindo e com as mãos unidas em sinal de agradecimento. Ao seu lado, vê-se sua esposa Letícia Weber em segundo plano. A legenda diz: “Discurso. ‘Combati o bom combate'”. Do lado direito da tela, o texto-chamada diz “Fortalecido no PSDB, Aécio pede união do País”.
    Como podemos ver, ao contrário de Dilma e Lula no dia que se seguiu à aceitação do impeachment pelo Senado, os derrotados nas últimas eleições foram apresentados de maneira bastante respeitosa e digna, até mesmo benevolente.

    Antecipando mais uma vez a crítica de nossos leitores, vamos nos adiantar e reconhecer a imperfeição do evento escolhido para a comparação, já que o processo de impeachment impõe, por si, desgaste maior à figura pública que o sofre que uma derrota eleitoral. Pois bem, façamos, então, uma comparação com o afastamento provisório de Fernando Collor de Mello, que foi retirado da presidência pelo mesmo dispositivo constitucional.

    No dia 2 de outubro, dia em que ocorreu a votação de admissibilidade do processo no Senado, a manchete do Estadão revela que Itamar assumirá naquele dia sem o PMDB. Na foto, Itamar e seus ministros. Em matérias secundárias, uma foto de Maluf ilustra notícia sobre as eleições municipais; em outra, Lula e Quércia, lado a lado, ilustram matéria declarando que PT e PMDB estarão fora do governo Itamar. No dia 3 de outubro, dia seguinte ao afastamento, duas imagens ilustram a manchete “Ministério de Itamar decepciona”: em uma delas, Collor, impávido, olha para seu relógio de pulso ao saber que será afastado; na outra, Itamar é abraçado pelo senador Dirceu Carneiro, de quem recebeu o cargo de presidente interino. A comparação revela dois aspectos diferentes das duas abordagens: Itamar Franco definitivamente não foi recebido com o mesmo entusiasmo que Temer, e, como já havíamos descoberto nos exemplos acima, os derrotados não costumam ser representados de maneira humilhante ou depreciativa, a não ser que eles sejam Dilma, Lula ou do PT.

    Neste breve exame, alguns aspectos importantes da cobertura política feita pelo jornal O Estado de São Paulo ficam salientes. Em primeiro lugar, o vistoso entusiasmo com que o governo de Michel Temer foi recebido. Em segundo, algo que já está muito claro para quem acompanha seus editoriais, o absoluto desprezo que o jornal nutre pela figura de Dilma Rousseff, e o ódio que propaga pelo ex-presidente Lula e seu partido, o PT, não se restringe apenas aos textos de opinião: uma leitura mais atenta deixa esses sentimentos bastante explícitos já nas capas.

    [1] Pesquisa disponível em: http://cms.cnt.org.br/Imagens%20CNT/PDFs%20CNT/Pesquisa%20CNT%20MDA/relatorio%20sintese%20cntmda131.pdf

    Por Luna de Oliveira Sassara e João Feres Júnior

  • Colunistas e o Impeachment

    O Manchetômetro acaba de produzir seu primeiro infográfico!
    Nele, podemos observar a maneira como os colunistas dos jornais O Globo, Estadão e Folha de São Paulo cobriram o processo de afastamento de Dilma Rousseff. A questão que tentamos responder é: há espaço para a divergência nos grandes jornais?
    É importante esclarecer que só foram contabilizadas as colunas publicadas especificamente nas páginas de opinião dos jornais (página A2 na Folha e no Estadão e antepenúltima e última páginas do primeiro caderno de O Globo) e somente os textos assinados por colunistas fixos, estando excluídos, portanto, os convidados eventuais.

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  • Crack, Haddad e o jornalismo multimídia da Folha de S. Paulo

    Infelizmente, a campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo já começou, pelo menos nas páginas da Folha de S. Paulo. O tratamento intensamente desfavorável do Governo, de Dilma Rousseff e do PT continuam depois da eleição, como revelam as análises do período pós-eleitoral recentemente publicadas pelo MANCHETÔMETRO (http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/). Mas o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, provável candidato à reeleição pelo PT, vai se tornando alvo preferencial de práticas jornalísticas para lá de questionáveis por parte da Folha.

    “4 em cada 10 desistem de ação anticrack de Haddad”. Esta é a manchete do caderno Cotidiano do jornal paulista de 17/05/2015. Ela foi publicada tanto na versão impressa do jornal quando na virtual, e também contou com divulgação na página oficial da Folha no Facebook. Analisamos aqui de maneira comparativa o conjunto de textos publicados pela Folha nessas três mídias.

    Facebook
    Comecemos pelas redes sociais. O post que aparece na página do jornal no Facebook é muito econômico: um título, uma foto e uma legenda para a foto. O título é ligeiramente diferente daquele do jornal impresso e traz o nome do prefeito: Em SP, 4 em cada 10 desistem de ação anticrack de Haddad. A imagem escolhida para ilustrar o post é bastante comovente: um close-up do rosto consternado de um homem negro, suposto usuário da droga, de olhar perturbado e marejado. Na legenda lê-se: “’Tem que falar pro prefeito resolver essa ‘fita’ aí, senhor’. Olhos baixos, Paulo (nome fictício), 31, reclama”.
    Essa peça econômica de comunicação tenta perpetrar duas ações: mostrar que o programa Braços Abertos da prefeitura de São Paulo é um fracasso e que o prefeito deve ser responsabilizado por esse resultado. Ademais, o discurso direto, a citação, sugere que a frase foi dita pelo homem anônimo da foto.

    Versão digital
    O post do Facebook contém um link que direciona o usuário para a matéria na versão online do jornal, de autoria de Giba Bergamim Jr. e Emilio Sant’Anna. O título é o mesmo da chamada do Facebook. A notícia começa com a frase citada acima. Logo em seguida, o texto informa que Paulo é um dos usuários que deixou o programa devido a problemas de saúde que o impedem de realizar o trabalho de varredor de ruas, que é a contrapartida pelo auxílio financeiro. A reportagem também informa que Paulo revelou ter diminuído o consumo de crack de dez para duas pedras diariamente. Tendo em vista que o programa Braços Abertos se baseia na redução de danos, em que o dependente diminui o consumo gradativamente, conforme revela a própria matéria, seria possível dizer que houve fracasso nesse caso?
    Informa a Folha que, de acordo com a prefeitura, “aqueles que abandonaram a ação migraram para outros tipos de acolhimento ou voltaram para suas famílias. Não se sabe, porém, quantos deles já voltaram às ruas. Especialistas ouvidos pela Folha dizem que o índice de desistência segue o padrão dos demais tratamentos”. Permanece a dúvida, contudo: seria adequado tratar os casos de migração ou de reaproximação familiar como “desistência”? Mas os autores do texto não estão interessados em esclarecer questão tão importante, preferindo retratar todos os casos como abandono.
    A reportagem apresenta então o posicionamento do coordenador de treinamento de agentes da prefeitura, o psiquiatra Dartiu Xavier, em defesa do programa Braços Abertos, que cita programas similares de sucesso em outras metrópoles mundiais. Em contraposição, expõe também a fala do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador do projeto de recuperação oferecido pelo governo estadual, o Recomeço. Tal programa proporciona tratamento antagônico ao programa da prefeitura, priorizando a abstinência e utilizando como um de seus métodos a polêmica internação compulsória, prática condenada pela OMS.
    É interessante notar que apesar de possibilitar que o representante do Governo Estadual apresente sua crítica ao Braços Abertos, os repórteres não exibem dados sobre a eficácia do Recomeço, o que possibilitaria uma comparação mais completa por parte do leitor, ou pelo menos um tratamento mais honesto por parte do jornal.
    A matéria continua a dar detalhes sobre o programa Braços Abertos: segundo a prefeitura, 41 dos dependentes desistentes voltaram para suas famílias e 65 foram afastados em razão de problemas de saúde ou licença maternidade. Ou seja, deixaram o programa mas, a princípio, não se encontram na situação de desamparo em que estavam anteriormente. Se retirarmos esses usuários da lista de “desistentes”, a taxa de abandono do programa cai para 30%; ou, vista de maneira oposta à da Folha: a taxa de eficácia aumenta para 70%. Há ainda outros dados impressionantes que a matéria cita a partir de documento da Prefeitura de São Paulo: algo entre 70% e 80% dos participantes relataram ter reduzido o consumo da droga e a aglomeração de dependentes na Cracolândia diminuiu 80%.
    É interessante notar que na versão digital da reportagem o título ferino acaba se contrastando com o corpo do texto. Enquanto ele repete a dupla acusação de fracasso e culpabilidade de Haddad, o texto em si acaba apontando vários dados da política que podem muito bem ser interpretados de maneira favorável por um leitor de boa vontade. O título declara que o copo está 40% vazio, mas o texto mostra que ele pode estar até 70% cheio, e que o programa está fazendo uma diferença substantiva no tratamento de um problema social de alta complexidade como o consumo de crack.

    Jornal Impresso
    A cobertura no jornal impresso é mais ampla, ocupa a capa do caderno Cotidiano e mais duas páginas internas, B3 e B4. Na capa do caderno a matéria começa em tom bem mais enviesado contra Haddad. A manchete é idêntica à da notícia do site, que cita o nome do prefeito. Logo abaixo lê-se o subtítulo “Desde janeiro do ano passado, 344 de 798 viciados deixaram o Braços Abertos”. Ao lado da manchete, a mesma foto dramática do usuário usada no site e no Facebook. Mas agora a foto traz uma legenda explicativa identificando a pessoa, informação ausente nas outras mídias: “Eduardo Gonzaga, de 34 anos, que tenta abandonar o vício do crack”.
    Mas foquemos ao jogo dos títulos. Se não bastasse a estratégia de apresentação “copo 40% vazio” do título repetido, o subtítulo reprisa a mesma informação, só que com números absolutos “344 de 798”. O autor dessa façanha jornalística, editor ou repórter, deve imaginar que os leitores da Folha não sabem calcular porcentagens. A estratégia de reiteração da retórica “copo 40% vazio”, como que para inculcar pela repetição, é explícita. Abaixo desse conjunto de títulos ainda há um segundo subtítulo, no topo do corpo do texto: “Projeto da prefeitura prevê renda e moradia a usuários; gestão afirma que há migração para outros programas”. Essas seriam informações mais despidas de viés político, mas ao se combinarem à overture que acabamos de descrever elas assumem outra feição. Ora, os dois títulos redundantes e a fotografia dão a entender claramente que o programa não funciona bem e que a culpa é de Haddad. A informação de que os usuários recebem renda e moradia, nesse contexto, adquire o sentido velado de que se trata de um benefício inútil e injusto para pessoas que não merecem; no mínimo um desperdício de dinheiro público.
    O corpo do texto abre com a frase de Paulo, apresentado também como dependente, que vimos no Facebook: “Tem que falar para o prefeito resolver essa fita aí”. Mais uma alusão ao prefeito que acabou de ser citado no título da matéria, o que mostra a insistência no método reiterativo. Há outro detalhe que apreendemos ao comparar as versões da notícia nas diferentes mídias do Grupo Folha, coisa que os leitores raramente fazem. É só na reportagem do jornal que podemos constar que a frase “Tem que falar para o prefeito resolver essa fita aí” não é de autoria do homem da foto, como o post do Facebook faz crer. Apenas aqui fica claro que o homem apresentado na foto não é Paulo, aquele que pede que o prefeito “resolva essa fita”, mas outra pessoa de nome Eduardo Gonzaga, de 34 anos.
    Depois da frase de Paulo, a notícia segue relatando que ele abandonou o programa devido a duas hérnias que não lhe permitiam fazer o trabalho público que é a contrapartida para a ajuda financeira oferecida pelo programa. Em seguida o leitor é informado novamente da taxa e do número absoluto de desistências, mais uma reiteração do enquadramento “40% do copo vazio”. De passagem o texto declara que a prefeitura não tem controle sobre o número de desistentes que “voltaram às ruas”, mais um ponto negativo para o programa.
    A matéria então apresenta o projeto do Governo do Estado, Recomeço, cuja abordagem ao tratamento inclui isolamento em hospitais e comunidades terapêuticas, como antagônico ao Braços Abertos. Para finalizar, à semelhança da matéria do site, o texto da capa do caderno Cotidiano apresenta declarações do coordenador de treinamento de agentes do programa da prefeitura e, logo em seguida, fecha a matéria com as palavras de Ronaldo Laranjeira, coordenador do projeto estadual. Laranjeira diz que o programa da prefeitura não “entende o que é dependência” e que o usuário que permanece nas ruas continua no vício. Assim, diferentemente do texto da internet, que começa com um viés forte contra o prefeito do PT no título e fotografia mas evolui para uma reportagem mais equilibrada sobre o programa, o texto do jornal é enviesado do começo ao fim, começando com ataques e alusões negativas contra Haddad e o programa e fechando com a palavra de um antagonista, nas palavras do próprio jornal, um agente político do PSDB.
    Na página B3 do caderno a notícia toma todo o espaço de texto jornalístico, que ali compete com um enorme anúncio das casas Bahia. A tônica aqui é reportar o que a administração municipal tem a dizer do programa, intenção que se explicita na própria manchete: “Ação na Cracolândia é complexa, diz gestão”. A essa imagem de complexidade, de sabor inegavelmente cético, o subtítulo informa: “Prefeitura afirma que não considera índices de desistência como critério para medir a efetividade do Braços Abertos”. Há aqui o estabelecimento de uma tensão entre as duas páginas, capa e B3. A capa insiste em retratar o índice e o número absoluto de desistências como algo digno de nota, de notícia, para dizer o mínimo, mas este subtítulo informa que a prefeitura pensa diferente.
    No topo da página temos infográficos com os números do Braços Abertos e um mapa da Cracolândia, e o resto da notícia tem tom descritivo e dá espaço para os dados do programa fornecidos pela prefeitura e declarações de seus agentes, ressalva feita ao único subtítulo do texto, no topo dos três parágrafos finais contendo declarações de Dartiu Xavier: “Utopia”. Ao lermos as declarações do psiquiatra, contudo, concluímos que tal subtítulo só pode ser produto de uma interpretação incompetente ou de má fé. Ele declara: “É utópico pensar que vai acabar a Cracolândia. O que podemos é ter medidas para dar a essa população algum alívio para não viver uma situação de tanta miséria e exclusão”. Ou seja, seu argumento é rigorosamente anti-utópico, assim como a filosofia do programa. Onde estaria, portanto, a “Utopia”, grafada entre aspas, em suas declarações?
    Na página B4 o enfoque é outro. Os três quartos superiores da página são tomados por uma grande reportagem com várias fotos intitulada: Cracolândia, 20. Trata-se de uma história da Cracolândia de São Paulo recheada de narrativas de vida individuais de usuários onde a tônica é a marginalidade e a destituição. São crianças e adultos, mães de doze filhos, presidiários, prostitutas, etc.; todos viciados. E nas fotos ilustrativas, todos negros. Trabalhos acadêmicos no Brasil e no exterior já mostraram que a associação do crack com a pobreza não é demograficamente verificável, mas alguns desses trabalhos também relevam que o noticiário na grande mídia tende a privilegiar essa associação. Medir o efeito que notícias desse tipo têm sobre o leitorado majoritariamente branco, de classe média e politicamente conservador da Folha de S. Paulo seria tarefa de um estudo muito interessante de recepção. Como não podemos fazer isso agora, só nos resta imaginar. De qualquer maneira, no que toca a questão política o viés dessas notícias, nos três meios estudados, é claramente contrário à prefeitura de Fernando Haddad.

    Por João Feres Júnior e Luna de Oliveira Sassara

  • É a economia, estúpido, ou não? A cobertura do Estadão nos pleitos de 1998 e 2014

    No dia 10 de setembro, o Manchetômetro apresentou análises que comparavam a cobertura da mídia durante o período oficial de campanha da eleição de 1998, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pleiteava a reeleição, e durante a campanha deste ano, em que a presidenta Dilma Rousseff (PT) persegue o mesmo objetivo. A intenção do estudo comparativo é testar a tese do contrapoder, muito comumente aventada em debates sobre o papel da mídia. Segundo tal tese, a mídia cumpriria a função de se opor ao poder constituído, no caso, o candidato e partido que ocupa a presidência e pleiteia a reeleição, mantendo-o sob constante escrutínio. A comparação do Manchetômetro refuta a tese, contudo. Agregando os dados dos jornais Folha, Estadão e O Globo, FHC teve uma proporção de notícias negativas para neutras menor do que 1 para 5, mais especificamente, de 19%. Dilma alcança até agora a marca de 80%, ou seja, de 4 negativas para cada 5 neutras. Assim, a grande imprensa é quatro vezes mais “contrapoder” no caso da candidatura do PT do que foi para a do PSDB em 1998. FHC também recebeu um número alto de matérias positivas, o que é algo raro nas coberturas de todas as eleições. Se comparadas às matérias neutras, as positivas recebidas por FHC chegam a 35%: 2 para 5. Na cobertura de 2014, Dilma teve somente 4 notícias positivas durante o período de campanha até o primeiro turno; pífios 2% de seu total de neutras. Ou seja, a grande mídia não só não foi contrapoder na eleição de 1998, mas foi francamente situacionista.

    Mas é sempre possível argumentar, e algumas pessoas de fato o fazem, que essa diferença gritante nas coberturas se deve não a um viés da grande mídia, mas ao contexto econômico de cada eleição. Ora, não precisamos apelar para o chavão “It’s the economy, stupid!”, cunhado pelo assessor de Bill Clinton, James Carville, para reforçar o argumento de que a economia é assunto de máxima relevância eleitoral. Pois bem, nesse artigo testamos a hipótese econômica: o tratamento favorável dado a FHC em 1998 se deveu ao contexto econômico favorável, enquanto que, inversamente, o tratamento muito desfavorável recebido por Dilma no ano corrente é produto de ambiente econômico comparativamente pior. Digo comparativamente, pois não há sentido pensarmos em termos absolutos, já que o objetivo é poder avaliar os motivos por trás do comportamento da grande mídia.

    Vamos nos restringir aqui ao enquadramento do tema economia no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1998, foram publicadas 50 chamadas de capa positivas, 76 negativas e 17 neutras sobre o tema durante o período eleitoral. Este ano foram 9 notícias positivas, 127 negativas e 23 neutras. Como se vê, os números de notícias negativas nas capas do Estadão sugerem que o desempenho econômico do Brasil naquela época fora consideravelmente melhor daquele alcançado este ano. A melhor maneira de comprovar a verossimilhança desta interpretação é estabelecer uma comparação entre os dois períodos baseada em alguns dos fatores mais relevantes do noticiário econômico, e que frequentam a fala dos economistas e jornalistas econômicos de plantão: inflação, desemprego, crescimento, taxa de juros e salário mínimo.

    Comecemos pela inflação. Os índices inflacionários de 1998 foram os mais baixos de uma série de quedas constantes que teve início com a implantação do Plano Real: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano em 1,65 [1] e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), em 2,49. Na época, o governo federal ainda não adotava metas para inflação de modo que não se pode identificar se os números estavam dentro das expectativas para o ano, mas ainda assim, a inflação foi baixíssima. Ela foi tema de apenas uma chamada de capa durante a campanha de 1998, a manchete do dia 19/07: “Bird aconselha Brasil a manter inflação baixa”. Em 1999, o Banco Central passou a estabelecer metas para a inflação anual.

    A meta de 2014, estabelecida já em 2012 [2], é de 4,5% com margem de dois pontos para mais ou para menos. Esse ano, a inflação tem sido o tema de maior destaque na cobertura econômica, estando presente em 9 textos de capa entre manchetes e chamadas, sendo sempre enquadrada como problema gravíssimo sobre o qual o governo federal parece não ter controle. O acumulado do IPCA até o mês de agosto está em 4,02 e o INPC em 4,11. Conforme informou o Estadão no dia 29/09, o Banco Central previu que a inflação de 2014 deve ficar em 6,3%, próxima, portanto, do teto da meta. No entanto, a manchete da edição do dia 12/09, “Ata do BC vê inflação perto da meta só em 2016” – assim como o texto que a acompanha – não cita que a meta citada se trata, na verdade, do centro da meta. Também em outras edições, como o editorial “Inflação real e fantasia oficial” do dia 21/09, para citar apenas um exemplo, tratam a inflação como problema sobre o que o governo federal não consegue solucionar.

    Um segundo tema importante no noticiário econômico é o desemprego, sobretudo durante esta campanha. O “avanço do desemprego”, segundo análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) na capa do dia 19/09, é classificado como um “sinal alarmante”, reflexo da “grave crise da indústria”. A Pnad divulgada na véspera indicara um aumento no índice de desemprego de 6,1 para 6,5%, o segundo menor desde 2002. Na campanha de 1998, o tema desemprego aparece somente em duas chamadas de capa. Uma delas o aponta como tema das eleições estaduais, a outra noticia o menor índice em seis meses. A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) indica que, curiosamente, em 1998 a taxa de desemprego nas áreas metropolitanas correspondia a 18,6% da PEA, enquanto em 2014, a taxa verificada no mês de junho foi de 10,8% [3]. Ou seja, o desemprego naquela época era quase o dobro do que é agora, mas, segundo a ótica editorial do Estadão, agora ele é problema e naquela época não era.

    A questão do crescimento econômico é também muito relevante no noticiário. No ano de 1998, a variação do Produto Interno Bruto, ou seja, o crescimento da economia foi de 0,00%, um cenário de estagnação [4]. A palavra estagnação, no entanto, não foi usada nas capas do Estadão para definir o estado da economia. Já a palavra crescimento aparece 4 vezes: chamada aponta que o Ipea diminuiu a previsão de crescimento da economia; outra chamada identifica que o déficit impede o crescimento; a terceira relaciona estabilidade e crescimento; e a última identifica que o crescimento e o emprego constituem a “próxima etapa” da economia brasileira. Em 2014, a última previsão de crescimento do PIB de 2014, divulgada pelo governo no dia 22/09, foi de 0,9%. A palavra estagnação já apareceu três vezes nas capas do Estadão ligada a outras palavras como recessão, inadimplência e inflação. Outros adjetivos são também utilizados para definir a economia do país: travada, freada, mau humorada, para citar alguns. Já a palavra crescimento aparece uma vez: “O que dificulta o crescimento” (10/08/2014). O jornal parece adotar dois pesos e duas medidas aqui também, pois só vê estagnação agora enquanto não a via em 1998, quando o PIB literalmente não crescia.

    Agora, tratemos da taxa de juros. Em 1998, duas taxas de juros eram estabelecidas pelo Comitê de Política Monetária: a Taxa Básica do Banco Central (TBC), espécie de piso da taxa, e a Taxa de Assistência do Banco Central (TBAN), equivalente ao teto. Durante o período eleitoral de 1998 ocorreram três reuniões do Copom [5], a primeira no dia 29/07, diminuiu a TBC e a TBAN de 21,00% para 19,75% e de 28,00% para 25,75%, respectivamente. No dia seguinte, não houve nenhuma notícia na capa sobre a alteração: a manchete do dia 30 foi um elogio ao leilão de privatização da Telebrás que ocorrera na véspera. O editorial intitulado “A grande vitória do governo” tratou da mesma questão. A segunda reunião ocorreu no dia 02/09. A TBC caiu para 19,00% e a TBAN aumentou para 25,49%. No dia seguinte, chamada de capa anuncia: “Juro cai pela 7ª vez no ano”. O texto abaixo da chamada esclarece, porém, que apesar do piso ter sido reduzido, o teto sofreu elevação. A elevação em questão não foi pouco significativa – 4 pontos – mas foi totalmente ignorada na chamada.

    No dia 10/09, em sessão extraordinária, o Copom manteve o piso da taxa em 19,00%, mas aumentou o teto para 49,75%. O aumento emergencial da taxa após o “mais dramático dia para o Brasil desde o início da crise mundial”, marcado por queda de 15,83% na Bolsa de São Paulo foi o tema da manchete do dia 11: “Fuga de divisas cresce e juros vão a 49,7%”. Segundo o texto sob a manchete, para conter a fuga de divisas, a única alternativa ao aumento de juros seria a desvalorização do real, mas o governo teria optado pela estabilidade da moeda. A mesma notícia informa que o presidente Fernando Henrique havia dito que, por ele, os juros não aumentariam. Lê-se também que as principais bolsas do mundo também caíram. O editorial intitulado “O papel do Congresso na crise” chama os congressistas a assumir responsabilidade sobre a situação: “Há uma crise mundial, o Brasil é parte do mundo e o Congresso brasileiro é parte de quê?”

    A TBAN foi extinta em 04/03/99, e a TBC substituída pelo Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, a taxa Selic. Durante o período eleitoral de 2014 houve duas reuniões do Copom. A primeira delas foi no dia 16/07, e a taxa foi mantida em 11,00%. No dia seguinte, análise apresentada na capa do Estadão indica que “elevar juros, no momento, é ação com potencial para conduzir a uma recessão”. A segunda reunião foi no dia 03/09 e a taxa foi, novamente, mantida. No dia 4, chamada de capa apenas informa sobre a decisão do Comitê.

    O tema salário mínimo não esteve presente em nenhuma chamada de capa, nem no período eleitoral de 1998 nem de 2014. Mas, por se tratar de variante crucial para a compreensão da situação econômica do país, analisemos brevemente o tema. Em agosto 1998, o valor do salário mínimo nominal era R$130,00 quando o salário mínimo necessário para manter uma família de 4 pessoas (dois adultos e duas crianças), de acordo com o cálculo do DIEESE, era R$852,12. Ou seja, para atingir a renda necessária, o trabalhador precisaria ganhar aproximadamente 6,5 salários. Em agosto de 2014, o valor nominal é R$724,00 e o necessário R$ 2.861,55, ou seja, o salário mínimo necessário corresponde a 3,9 vezes o salário nominal.

    Finalmente, se faz necessário um comentário especial sobre a cobertura do que foi, provavelmente, o dia mais importante para a economia brasileira no ano de 1998. No dia 23 de setembro, em um pronunciamento no Palácio do Itamaraty, o então presidente Fernando Henrique anunciou medidas econômicas drásticas que poderiam incluir aumento de impostos, diminuição de gastos, baixo crescimento econômico e um novo acordo com o FMI. No dia seguinte, a manchete: “FHC convoca nação para ajuste fiscal”. Nesta situação de crise extrema, com juros já altíssimos e a iminência de um novo empréstimo com o FMI, a capa do jornal o Estado de São Paulo expõe o apelo do presidente à nação e aos estados, municípios, bem como aos Poderes Legislativo e Judiciário para a solução da crise. Também o editorial do dia elogia a atitude do presidente que “assumiu o comando político do programa de combate à crise”, ainda que com atraso devido ao seu envolvimento na campanha eleitoral.

    A análise apresentada até aqui demonstra que, com exceção da inflação, outros aspectos da economia de 1998 eram bem menos favoráveis que os de 2014. Como explicar, então, a cobertura tão negativa da economia brasileira na campanha atual? Uma coisa é certa, ela está de acordo com o viés anti-PT e anti-Dilma que a análise do MANCHETÔMETRO detecta na cobertura do Estado de S. Paulo, dos outros dois jornais impressos e do Jornal Nacional. A escolha discricionária de matérias (agendamento) e a interpretação tendenciosa de fatos (enquadramento) caracterizam a cobertura da economia no Estadão, espelhando o viés que identificamos na cobertura política.

    [1] Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/ipca-inpc_201408caderno.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [2] Resolução nº 4.095, de 28 de junho de 2012. Disponível em: http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/res/2012/pdf/res_4095_v1_O.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [3] Disponível em: http://www.dieese.org.br/analiseped/2014/201406pedmet.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [4] Disponível em: http://www.mme.gov.br/sgm/galerias/arquivos/plano_duo_decenal/estudos_economia_setor_mineral/P01_RT02_Perspectivas_de_evoluxo_macroeconxmica_setorial_da_economia_mundial_a_longo_prazo_-_Cxpia.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [5] Disponível em: http://www.bcb.gov.br/Pec/Copom/Port/taxaSelic.asp – Acesso em 29/09/2014.