• Janelas fechadas para regulação da mídia

    Por Giovana Teodoro

    A sessão “Tendências e Debates” do jornal Folha de S. Paulo do último dia 23 publicou o artigo “A janela não responde pela paisagem”, escrito por Pierre Manigault, presidente do jornal norte-americano The Post and Courier. Para Manigault, as críticas à performance da mídia brasileira nos últimos tempos são uma grande injustiça – são críticas cujo único fundamento seria o inconformismo com o “livre exercício do jornalismo profissional”. O texto vai além, e ataca diretamente iniciativas de regulação da mídia no continente latino-americano como a Lei de Meios argentina – segundo Manigault, a Lei de Meios seria um exemplo de líderes latino-americanos atuando com o “desejo de intimidar e controlar a mídia independente”.

    Esta não foi a primeira vez que a Lei de Meios argentina foi citada nas páginas da Folha de S. Paulo. No final de 2014, em rara ocasião na qual o jornal incluiu a discussão sobre regulação econômica do mercado de mídia em sua pauta, o texto “Países têm limites para concentração” publicado na sessão “Poder” citou o marco regulatório argentino. A matéria descreveu a Lei de Meios como uma empreitada essencialmente política, “com o objetivo principal de atingir economicamente o grupo Clarín, que faz oposição ao governo da presidente Cristina Kirchner”. Ao final do texto, lia-se que a Lei de Meios foi considerada inconstitucional pela Justiça argentina – informação extremamente relevante para o assunto e totalmente incorreta. Após ter circulado para todos os “leitores de domingo” do jornal, o erro foi corrigido por uma pequena nota publicada três dias depois – o “Erramos” da edição do dia 10/12/2014, quarta-feira, informou: “Diferentemente do publicado na reportagem ‘Países têm limites para concentração’, a Lei de Meios foi considerada constitucional pela Corte Suprema da Argentina”.

    Passemos para a televisão: no último dia 14, conforme noticiado no blog do Coletivo Intervozes mantido no site da revista Carta Capital, a novela A Lei do Amor, transmitida no horário das 21h pela Rede Globo, levou ao ar uma cena na qual o diálogo entre personagens do folhetim estabelece uma relação direta entre “regulamentação da mídia” e a ameaça à liberdade de imprensa. Na cena, em reação à atitude da vilã da novela para silenciar um jornalista investigativo, um personagem da trama exclama: “Então quer dizer que a regulamentação da mídia foi aprovada e eu nem tô sabendo?”. Segundo os dados do Ibope, naquela sexta-feira, dia 14 de outubro de 2016, a audiência da novela das 21h atingiu a marca de 8,084 milhões de domicílios – um número certamente superior à quantidade de pessoas que teve a oportunidade de ler os esclarecimentos sobre o que de fato é a proposta de regulação da mídia no blog do Intervozes.

    Com o objetivo de, quem sabe, expandir um pouco mais o alcance das informações divulgadas pelo Intervozes no último dia 21 e reforçar o contraponto à relação enganosa e irresponsável que a novela global estabeleceu entre regulação dos meios de comunicação e censura jornalística, esclareço: a demanda por regulação da mídia não tem como objetivo “calar” a imprensa. Justamente o contrário: uma das principais pautas no debate pela regulação da mídia é a democratização dos meios de comunicação social, ampliando a diversidade de vozes e de meios. Uma das ferramentas jurídicas para atingir esse fim seria, por exemplo, regulamentar o artigo 220 da Constituição Federal que, em seu parágrafo 5º, estabelece o veto a qualquer forma de oligopólio ou monopólio sobre os meios de comunicação social – proibição claramente desrespeitada pelo Grupo Globo, notável oligopolista da mídia brasileira.

    O mesmo Grupo Globo, no dia 29 de setembro, recebeu o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) para adquirir todas as ações da empresa Valor Econômico, que edita o jornal Valor Econômico. Antes da aquisição, o controle da empresa era dividido entre o Grupo Folha e o Grupo Globo, cada um com 50% de participação. Aprovada em rito sumário pelo órgão de defesa da concorrência, a análise do caso foi estritamente econômica: como o jornal Valor Econômico foi considerado um veículo de público específico, não estaria no mesmo mercado dos demais jornais já detidos pelo Grupo Globo (O Globo, Extra e Expresso), de modo que não haveria, no mercado de “jornais de negócios”, quaisquer efeitos anticompetitivos decorrentes da operação.

    Consumada a aquisição da totalidade da participação do Valor Econômico pela Infopar, holding pertencente ao Grupo Globo, foi publicada uma nota, assinada pelos irmãos Marinho, na capa da edição do jornal Valor Econômico do último dia 24 de outubro. Sob o título de “Compromisso” em letras garrafais, o texto bradou o comprometimento do Grupo Globo com a “busca incessante pela isenção e pela correção”. Para Roberto Irineu Marinho e seus irmãos magnatas (devidamente incluídos na lista de bilionários da revista Forbes), esses “princípios do bom jornalismo” são fundamentais para defesa dos pilares que, segundo os próprios irmãos Marinho, “sustentam uma sociedade que se quer saudável e justa”. Quais são esses pilares? Para a família Marinho, “a democracia, a república, a livre expressão e o livre mercado”.

    Qual o real impacto dessas “mudanças acionárias” que, segundo a declaração do Grupo Globo, “podem acontecer sem prejuízo para a qualidade de uma empresa ou abalo em suas crenças?” O controle acionário de um jornal não exerce qualquer tipo de influência sobre sua linha editorial? Há algum mecanismo que garanta essa total separação entre propriedade dos meios e a voz que ele representa? A nota publicada pelos irmãos Marinho é obscura a esse respeito, afirmando que o Valor Econômico “seguirá sua jornada sem mudanças em suas crenças e qualidade”. O que isso significa? Quais crenças? Qual a medida de qualidade?

    Em meio a tantos questionamentos, alguns dados do monitoramento realizado pelo Manchetômetro nos ajudam a refletir sobre o tema de forma mais objetiva. Os gráficos a seguir indicam o número de textos positivos, negativos e neutros em relação à economia nas capas do dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo ao longo das últimas doze semanas:

    Gráfico 1 – Temática “Economia” nas capas do jornal Folha de São Paulo

    grafico 1 giovanna

    Fonte: Manchetômetro. Dados colhidos no dia 31 de Outubro de 2016.

    Gráfico 2 – Temática “Economia” nas capas do jornal O Globo

    gráfico 2 giovanna

    Fonte: Manchetômetro. Dados colhidos no dia 31 de Outubro de 2016.

    Ora, em uma comparação “a olho nu” dos gráficos, é possível identificar que há diferenças significativas entre as tendências observadas. Note-se, por exemplo, que na semana entre os dias 04 e 10 de setembro, enquanto O Globo atingiu um de seus picos de textos negativos na capa do jornal (seis no total), as capas da Folha apresentaram um único texto sobre a temática econômica – e este texto era positivo (no caso, uma manchete acerca dos valores arrecadados com a repatriação). Por outro lado, na semana do dia 09 a 15 de outubro, quando a Folha atingiu seu pico de textos negativos (quatro no total), este foi justamente o período no qual as capas d’O Globo não apresentaram chamadas ou manchetes negativas sobre a economia do País.

    Independentemente de qualquer julgamento quanto às escolhas editoriais de cada um dos jornais em relação a suas pautas de economia que ocupam a primeira página, é necessário reconhecer, diante dos dados acima, que há linhas editoriais distintas, vozes diferentes em jogo. Como a composição entre essas duas perspectivas de cobertura da economia se refletiam na cobertura econômica verificada no Valor Econômico? Sob controle integral do Grupo Globo, a tendência de cobertura da economia do jornal Valor poderia se alinhar mais àquela do jornal O Globo?

    Há estudos empíricos robustos sobre os efeitos da concentração econômica no mercado de mídia – em artigo publicado há alguns anos na Stanford Law Review, professores norte-americanos identificaram que quanto mais se levar a sério os aspectos de independência editorial na análise de operações concentracionistas no mercado de mídia, menor tende a ser o impacto da concentração econômica sobre a diversidade de conteúdo. A conclusão é resultado de um extenso estudo das fusões e aquisições que ocorreram na mídia impressa norte-americana nos últimos 20 anos.

    Embora relevantes, questões concernentes à independência editorial do jornal Valor Econômico não foram debatidas no contexto da análise concorrencial. Aliás, sem um marco regulatório para o mercado de mídia, talvez o CADE não tenha sequer instrumentos para atuar nesse sentido e provavelmente seria repreendido por fazer qualquer tipo de análise que ultrapassasse as “questões de mercado” envolvidas. Daí a relevância de debatermos soluções regulatórias específicas para os meios de comunicação de massa, pensar nos desenhos institucionais necessários para garantir a democratização da mídia e reforçar o papel das instituições que já atuam no setor, como a EBC e a Anatel.

    A luta por uma mídia mais plural e democrática não é pauta na grande mídia brasileira. Na realidade, quando discussão nesse sentido é suscitada nos principais veículos de mídia do país, o viés é claramente contrário a qualquer forma de intervenção regulatória e pautado por uma relação totalmente equivocada entre regulação e censura. Infelizmente, quando se trata de discutir a regulação da mídia no Brasil, a janela está sempre fechada – não há, sequer, paisagem a ser vista.

  • Novas molduras, velhas imagens

    Por Eduardo Barbabela, João Feres Júnior e Marcia Rangel Candido

    Nos últimos dias uma polêmica explodiu nas redes sociais e nas páginas do jornal Folha de São Paulo. Em sua edição do dia 17 de julho de 2016 o periódico paulista estampou em sua manchete os resultados de uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha que apresentava o crescimento do otimismo na sociedade quanto ao futuro do quadro econômico. Entretanto, o trabalho de investigação de jornalistas da blogosfera revelou que o jornal havia manipulado dos dados, escondendo o crescimento da insatisfação da sociedade quanto à possível manutenção do governo Temer. Posteriormente o jornal admitiria parcialmente o erro. Mas será que isso basta? Ou melhor, será que essa proteção ao governo Temer foi um episódio pontual ou haveria uma tendência da cobertura do jornal paulista de agir de tal forma?

    Desde a abertura do processo de impeachment em maio, a Folha de São Paulo fez clara sua posição editorial acerca da conjuntura brasileira: o impeachment não era a escolha ideal, porém era processo constitucional que, caso consumado, deveria ser respeitado. O tom e o discurso adotados pelo periódico com o advento da nova administração foi então se revestindo de otimismo, particularmente com relação ao futuro da economia brasileira.

    Se voltarmos para 6 de março de 2016[1], quando Dilma ainda ocupava a Presidência da República, o editorial sobre economia adotava tom de grande pessimismo com o futuro do país. O panorama apresentado era de terra arrasada: falta de liderança política, falta de confiança do mercado, PIB em potencial queda de 3,8% no ano. O jornal afirmava não haver nenhuma solução para a crise econômica que se fazia presente caso a crise política se mantivesse. O Brasil apresentado pela Folha caminhava para o fundo do poço.

    Entretanto, a partir de maio tudo ficou diferente. A transformação ocorreu principalmente a partir da nomeação de Henrique Meirelles, apresentado como a esperança de um novo futuro. O primeiro editorial do dia 2 de junho é um exemplo do novo tratamento[2]. No texto, o jornal comentava o resultado trimestral do PIB, que era queda de 0,3% no primeiro trimestre. Apesar de negativo, o editorial considerou este resultado bom pois mostrava recuperação da economia em relação aos índices de 2015, criando esperança de melhoras futuras, desde que a crise política fosse contornada. Segundo essa interpretação, agora poderíamos sonhar com o retorno do crescimento do PIB em 2017, algo que alguns meses antes era impensável.

    Estes são exemplos do tratamento distinto dado pelos editores da Folha a Temer e Dilma no tema da economia. Mas será que esse comportamento se repetiu na posição geral da editoria do jornal em relação a esses governos? O que os dados do Manchetômetro nos dizem sobre os editoriais da Folha de São Paulo?

    Gráfico 1 – Percentual das valências em textos em que o governo federal é citado nos Editoriais da Folha em 2016

    Gráfico

    (Fonte: Manchetômetro/LEMEP)

    Como podemos ver claramente, a discrepância no tratamento dispensado aos dois governos pelos editoriais da Folha de S. Paulo não se restringe ao tema da economia. Durante o ano de 2016, o padrão do tratamento de Dilma nos editoriais foi de 8 textos negativos para cada dez publicados. Já Temer é visto de modo bem mais equilibrado, com 1/3 de textos negativos, 1/5 de favoráveis e a maior parte neutros. Ou seja, a proporção de negativos que ela recebia era mais que o dobro da que ele recebe. Ademais, é notável a presença de vários editoriais favoráveis ao governo do presidente interino, privilégio que foi negado à Dilma.

    Resta-nos saber se essa posição editorial do jornal se reflete também na valência da cobertura como um todo, que inclui reportagens e demais texto de opinião. O advento do Governo Temer serve para testar novamente a tese de que a mídia comporta-se como defensora do interesse público e, portanto, é sempre crítica ao poder instituído — conhecida também como tese do “cão de guarda”.

    O Manchetômetro já fez isso comparando a cobertura de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso concorreu à reeleição, com a eleição de 2014, que tinha Dilma em situação similar. O resultado foi a evidente falsificação da tese. Apesar de ser governo, FHC foi tratado de maneira extremamente favorável pelos jornais Folha, Estado e O Globo, ao passo que seus adversários receberam cobertura predominantemente negativa. Some-se a isso o fato de que os índices da economia ao final de seu primeiro governo eram péssimos, fato que revela a motivação política clara dos jornais ao dispensar este tratamento favorável. Será que a grande mídia vai assumir uma postura de cão de guarda ou continuará a funcionar como suporte da direita política em nosso país?
    Julgando pelos resultados desse breve estudo e pela atuação pregressa dessas empresas, podemos esperar o pior.

    [1] “Está no preço”. Folha de São Paulo, 06 de março de 2016.

    [2] “Questão de Perspectiva”. Folha de São Paulo, 02 de junho de 2016.

  • Privatizações: crise e velhas respostas

    Por Marcia Rangel Candido e João Feres Júnior

    As grandes empresas de comunicação têm o hábito de reivindicar para si neutralidade e equilíbrio de opiniões. Apresentam-se como alheias a disputas políticas e a interesses. Não é muito difícil verificar a falácia de tal pretensão se tomarmos a prática cotidiana dos principais jornais no Brasil. Desde que assumiu interinamente a presidência, Michel Temer executou um programa de governo fundamentado em medidas impopulares, mas que tem recebido tratamento parcial nos grandes meios de comunicação. O discurso da retomada do desenvolvimento econômico abriu caminho, por exemplo, para a defesa da flexibilização das leis trabalhistas e o corte nos gastos públicos, sobretudo no que se refere aos programas sociais.
    Há alguns dias, o Jornal Nacional veiculou uma notícia que exemplifica o viés presente na cobertura midiática em determinados temas caros aos interesses dos grandes grupos privados. Com 208 segundos de duração, a notícia “Moreira Franco quer acelerar concessões para atrair investimentos”[1] abordou a privatização de serviços públicos e mostrou ao público quatro perspectivas sobre a questão: (1) a do próprio Jornal Nacional, (2) o ponto de vista do governo, (3) o argumento contrário da oposição e (4) a análise de um especialista. Vamos ver onde está o equilíbrio dos pontos de vista.
    Na notícia é possível constatar a disparidade na atenção dada aos aspectos em discussão, tanto pelo tempo dedicado à cada um dos lados, como pela caracterização do cenário político e econômico atual. Do total, apenas 27 segundos são reservados à manifestação de um ponto de vista crítico. O deputado Rubens Júnior (PCdoB), membro da oposição ao governo Temer, é entrevistado na matéria e tem 19 segundos de tempo de fala. Ainda assim, aparece na argumentação do político apenas a contrariedade em relação ao modo como as concessões à iniciativa privada estão sendo realizadas. Nenhum argumento claramente antagônico às privatizações em si é esboçado por ele. A colocação do ponto de vista crítico no conjunto da matéria, entre o depoimento de Moreira Franco e a chancela final de um especialista francamente favorável às privatizações, também revela a clara intenção de editorializar a opinião.
    O anúncio da queda na arrecadação e da falta de dinheiro para investimentos dão início à notícia, que segue sinalizando que “o Brasil tem pressa para gerar empregos”, mas não tem como fazê-lo sem recorrer ao caminho das privatizações. O apelo à geração de empregos e à execução de obras fundamentais para o desenvolvimento do país, tal como em aeroportos, rodovias, ferrovias e portos, faz coro à defesa das concessões à iniciativa privada como único caminho possível à retomada do desenvolvimento, bem como do mercado como parâmetro para a definição dos termos a serem adotados. Outro fator sinalizado pelo jornal confere baixo prestígio à gestão pública das obras de infraestrutura, ao afirmar que a ferrovia Norte-Sul consome dinheiro público há três décadas.
    Moreira Franco (32 segundos de tempo de fala, mais 31 segundos de introdução do jornalista) e o economista Otto Nogami (25 segundos de tempo de fala, mais 11 segundos de introdução do jornalista) ficam com os mais longos tempos de fala da notícia e ratificam o ponto de vista estabelecido pelo Jornal Nacional. Moreira Franco argumenta que é necessário acelerar os processos de concessão com a retirada das travas que os impossibilitam. Atração aos investidores, transparência e estabelecimento de regras claras dão o tom, tanto da introdução do jornalista responsável pela entrevista, como do secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) da Presidência da República. Franco ressalta que essas medidas são investimentos de longo prazo em infraestrutura e que objetivam mostrar aos investidores que o Brasil é um país sério. Na mesma direção, Otto Nogami relaciona a eficiência na gestão pública com a presença do governo apenas em áreas essenciais, tal qual a educação, a saúde e a mobilidade urbana. Nogami trabalha no INSPER, instituição de recorte fortemente neoliberal, e tem dado várias declarações públicas de apoio à equipe econômica do governo Temer. O bem-estar da sociedade aparece na fala do especialista como justificativa para que todos os outros serviços sejam transferidos à iniciativa privada. Não há espaço para neutralidade, nem mesmo para a ambivalência, com o veículo se posicionando em um lado do debate.
    A privatização dos serviços públicos não é assunto recente no Brasil. Ela começou no governo Collor e ganhou força no período em que o PSDB esteve na presidência, quando muitas empresas estatais de grande porte foram vendidas. Desde então essa prática é objeto de opiniões controversas. Mobilizar minimamente os argumentos contrários e favoráveis a um assunto tão importante é o que devíamos esperar de uma mídia verdadeiramente democrática. Mas parece não ser esse o caminho escolhido pela grande mídia brasileira, aqui representada pelo programa de notícia de maior audiência na TV do país, o Jornal Nacional, da Rede Globo.

    [1]Jornal Nacional, 17 de junho de 2016. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/5102559/

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    “Uma imagem vale mais…”: O impeachment nas capas do Estadão

    A equipe do Manchetômetro produz análises diárias da cobertura da política e da economia nacional desde 2014. Em nosso site, disponibilizamos gráficos e artigos que utilizam como fonte extensa base de dados sobre o conteúdo publicado pela grande mídia brasileira. Nossas pesquisas, no entanto, levam em consideração apenas os elementos textuais das páginas de jornal. No caso das capas, levamos em conta somente manchetes, lides e textos-chamada. Há um importante elemento constitutivo das capas que acaba por ficar de fora: as imagens. Neste boletim adotamos metodologia distinta. Integramos à análise a consideração de aspectos não verbais presentes nas capas das edições do jornal O Estado de São Paulo, em especial as que dizem respeito ao processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff e ao governo do presidente interino Michel Temer.

    A capa de 12 de maio do jornal O Estado de São Paulo, dia que sucedeu a votação da admissibilidade do processo de impeachment no Senado e consequente afastamento provisório da presidente Dilma Rousseff até o julgamento do processo, é inteiramente ocupada por uma imagem em preto e branco de Michel Temer. Na foto, tirada no gabinete da Vice-Presidência, Temer aparece sentado com as mãos sobre a mesa, olhando para a câmera com um sorriso discreto e ares de nobreza. A edição especial teve 40 páginas dedicadas ao assunto. A manchete, não surpreendente, diz “A chance de Temer”. É o lide que impressiona: “Vice de Dilma assume a Presidência da República com o desafio de superar uma crise histórica e encerrar a era do PT no poder”.

    A opção de leiaute de colocar uma só foto ocupando todo o espaço da capa, claramente com intenção de alto impacto no leitorado, é muito raramente empregada pelo Estadão. Foi utilizada pela última vez em 14/03/2016, para mostrar as manifestações que pediram o impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Naquela ocasião, abaixo do cabeçalho, havia apenas uma imagem do alto mostrando a Avenida Paulista tomada por manifestantes. É possível ver com destaque dois bonecos infláveis de Lula e Dilma, uma faixa verde e amarela com a palavra impeachment e um pato inflável da campanha contra o aumento de impostos encabeçada pela Fiesp cujo nome é “Não vou pagar o pato”. O jornal marca com essa opção estética dois eventos fundamentais para o processo de impeachment da presidente — a passeata de março de 2015 e a posse de Temer como presidente interino – e imprime a eles um tom de comemoração. O uso da expressão “encerrar a era do PT”, como um desafio que o presidente interino terá a chance de superar, parece mais um desejo da editoria do jornal do que um argumento jornalístico baseado em evidências concretas, ou talvez alguma inside information que o jornal não se digna a tornar pública.

    Abaixo da grande imagem, há três textos-chamada. “A votação no Senado e o novo governo” é o tema das páginas A4 a A22. “Da euforia à crise, os 13 anos da era PT” convida o leitor a visitar as páginas A25 a A43. O mais impressionante deles é o texto-chamada para o editorial do dia: “Retorno à irrelevância”. Dado que o sujeito da frase não está explícito, e levando em consideração o contexto no qual aparece, o título parece fazer referência ao Partido dos Trabalhadores. Bom, o PT forma a terceira maior bancada na Câmara dos Deputados estando atrás somente dos blocos PP/PTB/PSC e PMDB/PEN, é o terceiro partido com o maior número de senadores, e o segundo maior em número de filiados. Ou seja, tal irrelevância revela novamente muito mais o desejo dos editores do que a realidade. No mais, o implícito prognóstico acerca do afastamento parece bastante antecipado, tendo em vista que, mesmo fora do governo, Dilma Rousseff continua a ser a presidenta eleita pelo menos até que seja definitivamente julgada pelo Senado, o que ocorrerá nos próximos meses. Se levarmos em consideração que a mudança de voto de 2 senadores é suficiente para mantê-la na presidência até 2018, concluímos ser no mínimo temerário para um jornal que preza a qualidade profissional de seu trabalho apostar tão firmemente no alijamento definitivo do PT do governo.

    No texto do editorial, contudo, fica explícito que a irrelevância diz respeito a Dilma e a Lula: “[…] Dilma só se tornou importante por ter arruinado o País. Começa a voltar, agora, para sua irrelevância. O mesmo ainda acontece com Lula […]”. Devido à ausência de pesquisas de popularidade de Dilma – as últimas remontam a abril passado -, seria muito difícil avaliar a opinião da população no que diz respeito a seu futuro político, ainda que a série histórica permita uma posição cética. Já em relação a Lula a realidade é bem diversa. Pesquisa realizada pela CNT/MDA divulgada no dia 8 de junho aponta que o ex-presidente venceria o 1º turno das eleições presidenciais de 2018 em todos os cenários[1]. Mais uma vez, não há base empírica para apontar a irrelevância, há somente o desejo do jornal.

    No dia seguinte à posse do interino, 13 de maio, a manchete e seu lide trataram do primeiro pronunciamento de Temer como presidente: “Ao assumir governo, Temer prega união e ‘democracia da eficiência’” e “Em pronunciamento, presidente em exercício declara respeito institucional a Dilma e afirma que Lava Jato ‘não será enfraquecida’”. Abaixo, uma grande foto com a seguinte legenda, bastante descritiva: “Nova equipe. Aécio Neves, Romero Jucá, José Serra, Michel Temer, Henrique Meirelles e Mendonça Filho, após cerimônia de posse de ministros”. Temer aparece no centro, em primeiro plano, e os outros personagens encontram-se de um lado e de outro. Logo abaixo, em imagem cujo tamanho corresponde a um quarto da primeira, vê-se Dilma em seu discurso de saída, falando ao microfone, de olhos cerrados e cenho franzido, com uma expressão – e aqui peço licença para fazer uso de um coloquialismo – típica de quem acabou de bater o dedinho do pé na quina da mesa. Atrás, Lula em segundo plano, de olhos fechados e cabisbaixo, apoia o rosto em uma das mãos.

    O leitor mais crítico poderá, com razão, argumentar: oras! É natural que Lula e Dilma sejam representados como “perdedores”, tendo em vista que acabaram de sofrer uma derrota política. Pois bem. Façamos, então, um exercício comparativo consultando as capas dos dias que se seguiram ao resultado definitivo das duas últimas eleições presidenciais, com especial atenção à representação dos candidatos derrotados.

    A manchete do dia 1º de novembro de 2010, dia seguinte à vitória de Dilma Rousseff, foi ilustrada com uma foto de Dilma sorrindo e fazendo um sinal de positivo, com o polegar para cima de uma das mãos, ocupando metade da página. A manchete, no entanto, diz: “Vitória de Lula”. Na legenda, lê-se: “Com 55% dos votos, Dilma Rousseff (PT) é eleita a primeira mulher presidente do Brasil; Serra diz que batalha foi desigual”.

    Aparentemente, a vitória da primeira mulher presidente do Brasil não foi um evento suficientemente relevante para ocupar a primeira página inteira do jornal. Mas a posse de um presidente interino, produto de um processo de impeachment escandaloso, dirigido por políticos acusados de alta corrupção, só para ficar nos presidentes das casas legislativas, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, sim. Tampouco mereceu a primeira mulher eleita presidente que seu nome estivesse escrito na manchete. José Serra, o candidato derrotado, aparece em uma imagem pequena abaixo, acenando e sorrindo, apesar da expressão cansada. Na legenda, a descrição da imagem: “Hora H. Serra chega para votar: candidato levou os netos para a cabine”. Do lado esquerdo da imagem, o texto-chamada diz “O derrotado. Serra afirma que ‘alternância de poder faria bem'” e do lado direito, “A oposição. PSDB e DEM ampliam força nos Estados”.

    Em 27 de outubro de 2014, após a reeleição de Dilma Rousseff, uma grande foto de Dilma e Lula abraçados e sorridentes ilustra a manchete “Reeleita com 51,6%, Dilma propõe plebiscito para reforma política”. Abaixo, uma foto menor mostra Aécio Neves, o candidato derrotado, em frente à bandeira do Brasil, sorrindo e com as mãos unidas em sinal de agradecimento. Ao seu lado, vê-se sua esposa Letícia Weber em segundo plano. A legenda diz: “Discurso. ‘Combati o bom combate'”. Do lado direito da tela, o texto-chamada diz “Fortalecido no PSDB, Aécio pede união do País”.
    Como podemos ver, ao contrário de Dilma e Lula no dia que se seguiu à aceitação do impeachment pelo Senado, os derrotados nas últimas eleições foram apresentados de maneira bastante respeitosa e digna, até mesmo benevolente.

    Antecipando mais uma vez a crítica de nossos leitores, vamos nos adiantar e reconhecer a imperfeição do evento escolhido para a comparação, já que o processo de impeachment impõe, por si, desgaste maior à figura pública que o sofre que uma derrota eleitoral. Pois bem, façamos, então, uma comparação com o afastamento provisório de Fernando Collor de Mello, que foi retirado da presidência pelo mesmo dispositivo constitucional.

    No dia 2 de outubro, dia em que ocorreu a votação de admissibilidade do processo no Senado, a manchete do Estadão revela que Itamar assumirá naquele dia sem o PMDB. Na foto, Itamar e seus ministros. Em matérias secundárias, uma foto de Maluf ilustra notícia sobre as eleições municipais; em outra, Lula e Quércia, lado a lado, ilustram matéria declarando que PT e PMDB estarão fora do governo Itamar. No dia 3 de outubro, dia seguinte ao afastamento, duas imagens ilustram a manchete “Ministério de Itamar decepciona”: em uma delas, Collor, impávido, olha para seu relógio de pulso ao saber que será afastado; na outra, Itamar é abraçado pelo senador Dirceu Carneiro, de quem recebeu o cargo de presidente interino. A comparação revela dois aspectos diferentes das duas abordagens: Itamar Franco definitivamente não foi recebido com o mesmo entusiasmo que Temer, e, como já havíamos descoberto nos exemplos acima, os derrotados não costumam ser representados de maneira humilhante ou depreciativa, a não ser que eles sejam Dilma, Lula ou do PT.

    Neste breve exame, alguns aspectos importantes da cobertura política feita pelo jornal O Estado de São Paulo ficam salientes. Em primeiro lugar, o vistoso entusiasmo com que o governo de Michel Temer foi recebido. Em segundo, algo que já está muito claro para quem acompanha seus editoriais, o absoluto desprezo que o jornal nutre pela figura de Dilma Rousseff, e o ódio que propaga pelo ex-presidente Lula e seu partido, o PT, não se restringe apenas aos textos de opinião: uma leitura mais atenta deixa esses sentimentos bastante explícitos já nas capas.

    [1] Pesquisa disponível em: http://cms.cnt.org.br/Imagens%20CNT/PDFs%20CNT/Pesquisa%20CNT%20MDA/relatorio%20sintese%20cntmda131.pdf

    Por Luna de Oliveira Sassara e João Feres Júnior

  • Beto quem? De onde? Partido? Que partido?

    Deu no Mossoró Hoje, “Gaeco cumpre 50 mandados de prisão na Operação Publicano no PR”. Saiu no Jornal de Londrina, edição de 11 de junho, “Quatro ex-inspetores de fiscalização são presos; Detidos ocuparam cargo na primeira gestão de Beto Richa”. Deu no Bonde News, portal de notícias do Paraná “Mais de 20 pessoas são presas em Londrina na nova fase da Operação Publicano”. Está na página do Ministério Público do Paraná notícia com o título: “Gaeco cumpre 68 mandados de prisão e 65 de busca e apreensão”, com data de 10 de junho.
    Cheguei a essa listagem de meios de comunicação digitando a expressão “Operação Publicano” na linha de busca do Google. A notícia parece ter sido publicada somente em jornais e sites do Paraná, com raras exceções que merecem destaque. Esse texto pretende cumprir a difícil tarefa de examinar o agendamento da grande mídia, ou seja, a seleção que essas empresas fazem do que é noticiado e, consequentemente, do que não o é. Como é difícil pesquisar o que não existe, quando o caso é de omissão, vamos ter que prosseguir pela comparação cuidadosa e a busca de pistas aqui e acolá.
    O fato: O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná, cumpriu ordens de prisão de mais de meia centena de pessoas, algumas delas ligadas diretamente ao governador Beto Richa, do PSDB, suspeitas de participarem em esquema de propina milionário na Receita do Paraná. A investigação que gerou essas ordens de prisão ocorre há algum tempo e foi batizada de Operação Publicano.
    Contudo, a busca do Google revela que esse fato foi noticiado quase que exclusivamente pela imprensa paranaense. A questão é: será que ele foi ignorado pela grande imprensa nacional, aquela que tem suas bases nos estados do Sudeste? Tomemos as edições do dia 11 de junho, imediatamente posterior à onda de prisões. Vamos levar em consideração aqui somente os “quality” papers também analisados pelo Manchetômetro: Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo.
    O Estadão não contém qualquer menção em sua capa às prisões da Publicano. O jornal traz uma reportagem sobre o tema, mas ela aparece na página 11. A notícia é bem negativa para o governador, seu nome vem no título “Operação prende amigo e busca parente de Richa”. O corpo da matéria nomeia Richa e identifica seu partido, o PSDB, e descreve o ocorrido, focando nas ligações de alguns dos envolvidos com o político tucano. No final os jornalistas reproduzem a versão do governador sobre os fatos, estrutura “clássica” da linguagem jornalística, nem sempre respeitada nos dias que correm, de se ouvir as diferentes versões das partes envolvidas.
    A capa da Folha de S. Paulo não é muito diferente da do Estadão. O fato é inteiramente ignorado. Também como seu par paulista, a Folha reserva uma matéria para o assunto nas profundezas de seu caderno de política, página 10. Richa agora é mencionado não no título, mas no subtítulo da notícia: seu primo, Luiz Abi Antoun, não foi localizado pela polícia. O nome do governador vem logo antes da identificação partidária: PSDB. Em seguida descrição do ocorrido, com foco nas conexões com o governador e coluna à direita da matéria com a versão de Richa. As semelhanças entre os dois jornais — falta de menção na capa, colocação da notícia na rabeira do caderno e a estrutura da matéria — são impressionantes.
    O jornal O Globo segue seus pares paulistas no que toca a cobertura de capa: inteiramente silente em relação ao caso. Mas o periódico da família Marinho não se prende aos padrões adotados pelos outros e inova ao também ignorar solenemente o “escândalo” nas páginas internas da edição do dia 11 de junho. Na verdade, o nome de Richa não está ausente nessa edição. A página 6 do primeiro caderno traz seu nome no título de uma matéria: “Professores do PR encerram greve; Richa diz esperar a paz”. A matéria narra que os professores resolveram terminar a greve mesmo não conseguindo o aumento almejado. Cita os confrontos violentos que ocorreram entre grevistas e forças de segurança do estado, com saldo de 200 feridos e diz que, ao Globo, Richa admitiu que a crise provocou “arranhões” em sua imagem. O texto termina com uma citação do governador: “sou contra a violência… considero esse episódio encerrado”. Em suma, nada de operação Publicano nas páginas do Globo. A única coisa que temos é um texto anunciando o encerramento de outra crise do governo Richa, que permite que ele tenha a última palavra.
    Estendendo a análise para a internet, ou seja, além da página escrita, é importante notar que os vastos sites noticiosos dessas mesmas empresas de mídia adotam agendamento similar. A home do UOL, pesquisada às 8h00 do dia 11 de junho, não faz qualquer menção à operação do GAECO. Sua chamada principal diz respeito à aprovação do mandato de cinco anos na Câmara e as duas manchetes seguintes focam em empresas envolvidas na Operação Lava Jato, Sete Brasil e Camargo Corrêa.
    O mesmo ocorre com o site G1, das organizações Globo, pesquisado 20 minutos após. Nenhuma menção em meio a uma miríade de notícias. Mas, diferente do jornal O Globo, completamente silente acerca do caso, o G1 tem uma notícia sobre ele enterrada nas profundezas do site. A página é na verdade da RPC (Rede Paranaense de Comunicação), concessionária da Rede Globo no Paraná, e mais, é dedicada à região Norte e Nordeste do estado, onde se localiza Londrina, cidade foco do escândalo e berço político da família Richa. Ou seja, a lógica de contenção regional da notícia funciona mesmo quando ela aparece nas páginas da Globo.
    O agendamento da mídia deve ser estudado não somente descobrindo o que os meios deixam de mostrar (O Globo) ou mostram de maneira tímida (Folha e Estadão), mas também analisando o que eles mostraram, ou seja, os assuntos que foram destaque nas suas capas e páginas.
    Começando pelo Estadão. (1) A manchete principal relata a decisão do Supremo Tribunal Federal de permitir biografias não autorizadas. Ao lado, na parte superior do jornal, (2) uma chamada para matéria sobre decisão do Congresso de aumentar o mandato de políticos para cinco anos e (3) outra anunciando “Inflação vai a 8,47% e cresce aposta na alta de juros”. Abaixo, do lado esquerdo temos (4 e 5) duas chamadas para matérias sobre o escândalo de corrupção da FIFA, uma em cima da outra, e do lado direito também duas chamadas, com letras maiores, com os seguintes títulos: (6) “CPI mira Lula e PT usa encontro para desagravo”, relatando a citação do Instituto Lula na Operação Lava Jato e (7) “Pacote ignora ferrovia em construção na BA”, dizendo que o pacote de obras de infraestrutura anunciado por Dilma omitiu trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste. Por fim temos (8) uma chamada sobre a proposta de diminuição da maioridade penal restrita a crimes hediondos, do senador Aloysio Ferreira do PSDB, juntamente com várias chamadas pequenas listadas abaixo:
    (9) TJ prevê déficit de pelo menos R$ 900 milhões
    (10) Papa cria tribunal para julgar bispo por pedofilia
    (11) JOSÉ SERRA – Democratizar a democracia
    (12) PT tentará disfarçar a crise
    Alguns assuntos são bem relevantes para os editores da capa do Estadão. Das 12 matérias, pelo menos 6 são negativas para o governo e a situação (3, 6, 7, 9, 11 e 12). Três notícias (4, 5 e 6) versam sobre corrupção, duas sobre a FIFA e uma sobre o PT. A quarta notícia, sobre o trem, alude à possibilidade de corrupção ou incompetência no governo. A Operação Publicano, apesar de ser caso de corrupção grande, não aparece, nem tampouco o governador e seu partido. Na verdade, o PSDB é sim citado, mas para mostrar o protagonismo do senador Aloysio Ferreira. O texto que vai abaixo da chamada (12) não poderia ser mais representativo da opção de agendamento do Estadão: “Carta de Salvador (do Congresso do PT) usará palavras mais para manter as aparências do que para salvar o País do buraco”. Isso é apresentado sem mediações, autoria ou qualquer referência à opinião de tal ou qual articulista. Trata-se de fato de chamada para o editorial, ou seja, opinião expressa do jornal.
    A Manchete de capa da Folha é praticamente idêntica à do Estadão, mas o resto da capa é diferente, com menos ênfase dada ao noticiário político e um conjunto de notícias sobre variedades que vão do futebol à ciência. As chamadas para matérias de política são dignas de nota, contudo. A matéria do aumento de mandato votado na Câmara está lá, mas sem tanto destaque. Também sem muito destaque, estão 3 chamadas seguidas, empilhadas: (1) Senado aprova lei que amplia e consolida os direitos do deficiente”, (2) Vitrine de Dilma, Pronatec terá 1/3 das vagas abertas em 2014 e (3) Itália autoriza a extradição de Pizzolato a partir de segunda. Assim, a despeito de a política não ser o principal assunto da capa, das quatro chamadas sobre o tema, duas são francamente negativas para a situação. Chama atenção que o jornal tenha decidido noticiar a extradição de Pizzolato, assunto frio, e tenha calado acerca do escândalo quentíssimo do tucano do Paraná. Aqueles que gostam de explicar o comportamento da grande mídia sempre pela lógica do interesse mercadológico certamente concluirão que uma gota de sangue a mais extraída do Mensalão agrada mais aos leitores de Folha do que um novo escândalo do PSDB. Essa é uma maneira pobre de raciocinar, contudo.
    Finalmente temos a capa de O Globo. Manchete garrafal sobre a decisão do STF. Abaixo um título também enorme relatando a decisão da Câmara sobre os mandatos. Há uma coluna à esquerda que corta toda a capa, de cima a baixo, com as seguintes chamadas:
    (1) Inflação nas alturas: Moradia, comida e transporte mais caros
    (2) Miriam Leitão: Com inflação tão alta, não há agenda positiva que se sustente.
    (3) Nordeste deve ter mais voos
    (4) Exclusivo: Figurante de R$ 83 milhões
    (5) Vitrine de Dilma: Pronatec perde 66% das vagas
    (6) Saúde em crise no Rio: Pacientes fazem faxina em hospital
    (7) Obama manda reforço contra EI
    Tirando a notícia sobre Obama e aquela sobre a saúde no Rio, todas as outras são negativas para o governo. (1), (2) e (5) são explícitas já no título. O texto que acompanha (3) explica que a infraestrutura de acesso aos terminais aéreos preocupa. (4) faz alusões a possível falha, incompetência ou corrupção na estatal EPL.
    Esse é, portanto, o sumário da cobertura com a qual os jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo, e seus sites noticiosos, brindaram os leitores brasileiros nesse dia 11 de junho de 2015. É importante notar a semelhança no comportamento dos três meios, nas escolhas de agendamento. A operação Publicano vira o mais novo escândalo tucano a ser esquecido ou relegado às profundezas da cobertura. Enquanto isso esses meios de comunicação continuam diuturnamente enxovalhando o Governo Federal, a situação e o PT com notícias negativas. O Estadão comete 6 matérias negativas em uma capa, O Globo, 5, e a Folha de S. Paulo, sempre mais comedida, manda 3 em seguida. O Globo consegue superar seus pares ao não somente ignorar solenemente as prisões da Publicano em toda sua edição, enquanto os outros reservam matérias nas últimas páginas do caderno, mas ao se referir a Richa somente para anunciar que a greve dos professores do Paraná acabou.
    Beto quem? De onde? Partido? Que partido? Perguntavam-se os jornalistas e editores desses jornais, enquanto o Mossoró Hoje estampava matéria principal na home do seu site.

    Por João Feres Júnior.

  • A Volta do Manchetômetro

    Na verdade o título desse artigo é um pouco dramático. O MANCHETÔMETRO nunca parou de existir como prática de pesquisa. Apenas programamos uma suspensão de duas semanas na atividade de codificação dos dados para que pudéssemos adequar os parâmetros de análise à realidade da cobertura pós eleitoral. Essa mudança foi trabalhosa, pois dentro da lógica eleitoral de polarização e competição acirrada entre candidatos era mais fácil focar as análises: candidatos e partidos são temas óbvios e principais, a cobertura de escândalos também se torna obrigatória devido à insistência da grande mídia em agendá-los, etc. A eleição também proporciona uma periodização mais fácil e simples. Há o período pré-campanha, o período da campanha até o primeiro turno e a campanha do segundo turno.

    Finda a eleição, a lógica da política muda, o conflito aberto é substituído pelos acordos potencialmente cambiantes e por uma guerra quase silenciosa de posições. Mas não muda tanto assim, ou pelo menos não mudou tanto assim no caso da reeleição de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores. Tornou-se lugar comum nas democracias mundo afora o uso da expressão “lua de mel” para denotar o período imediatamente posterior à posse de um novo governante, quando oposição, mídia e sociedade civil organizada baixam a guarda e permitem que o eleito tome suas primeiras decisões e organize seu novo governo. Dilma, contudo, não foi contemplada nem com o mais leve esboço de uma lua de mel. Pelo contrário, logo após o resultado eleitoral, a oposição, novamente ancorada pela militância dos grandes meios de comunicação, tentou pelo menos duas maneiras de inviabilizar sua posse: pedindo recontagem de votos por alegação de fraude e pressionando o TSE pela rejeição de suas contas de campanha. Não bastasse isso, o escândalo da Petrobrás que já havia servido de combustível para inúmeras denúncias contra Dilma e o PT durante a campanha — destaque para a já histórica capa da Veja às vésperas do segundo turno — tornou-se o assunto mais noticiado desde o término do período eleitoral.

    Em suma, ainda que a lógica da política necessariamente mude depois da eleição, a lógica da cobertura midiática da política (e da economia) não necessariamente segue o mesmo caminho. É o que o Manchetômetro vem descobrindo com as análises do cenário pós-eleitoral que começamos a apresentar aqui. O projeto é amplo e ambicioso, por isso decidimos lançá-lo em módulos.

    Para começar expandimos o raio de nossas análises: antes nossa base de dados era composta somente dos textos nas capas dos jornais impressos, agora analisamos não somente as capas, mas também as duas páginas de opinião no miolo dos periódicos. Isso nos permitirá não somente capturar o sentido emprestado pelos editores ao instrumento de comunicação mais efetivo do jornal, a capa, mas também ter ideia do posicionamento que o próprio jornal assume explicitamente em seus editoriais, que seus articulistas convidados e colunistas contratados expressam nessas páginas. As funções retóricas desses elementos da comunicação jornalísticas são distintas. A capa é um resumo de todo o jornal, e mistura opinião e reportagens “factuais”. Ela transmite agendamento e enquadramento de maneira sintética e compacta. Os editoriais são a voz direta do jornal, sem mediações. Já os articulistas são um time de jornalistas e publicistas cativos que cumprem uma função retórica incerta, entre a posição do jornal e a representação do público. Sua retórica é claramente aquela do jornalismo crítico e independente, mas os critérios para a formação de um time de articulistas estão longe de ser transparentes ou independentes das posições e interesses da editoria do jornal. Já os artigos de opinião de convidados têm a clara função retórica de representar o debate púbico em sua diversidade. Claro que essa diversidade é aquela que a editoria do jornal entende como apropriada ou relevante.

    Lançamos três páginas nesse primeiro módulo. A primeira é dedicada à presidenta Dilma Rousseff (http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/cobertura-2015-dilma-rousseff/). De cara, pela observação rápida dos gráficos nessa página, podemos facilmente compreender o que dissemos logo acima sobre ter sido negada a Dilma uma lua de mel. Matérias favoráveis são praticamente inexistentes. A proporção entre manchetes e chamadas contrárias e neutras é de praticamente 1:1. Os três grandes jornais juntos dedicam a Dilma já na primeira semana após o Segundo Turno um total de 19 matérias e chamadas de capa negativas, recorde para todo período. Na primeira semana de dezembro do ano passado o número atinge 18, como mostra o gráfico abaixo:

    Valências jornais impressos
    valencia_jornaisimpressos

    Assim como no período eleitoral, a cobertura do Jornal Nacional apresentou perfil similar a dos jornais impressos. As valências de suas notícias durante o período que vai da semana após o Segundo Turno até agora vai no gráfico abaixo:

    Valências Jornal Nacional
    valencia_jornalnacional

    Se nas capas a cobertura já mostra viés contrário à Dilma, quando adentramos as páginas de opinião dos jornais esse viés fica ainda mais extremo. Comecemos pelos editoriais:

    Editoriais
    editoriais

    Os editoriais dos grandes jornais constituem uma verdadeira barragem de textos contrários à Dilma. Na segunda semana de novembro de 2014 temos um pico de 14 editoriais negativos. Se temos três jornais e sete dias na semana, isso significa que, em média, a cada três dias, cada jornal publicou dois editoriais negativos em relação à presidenta. Na última semana esse recorde quase foi igualado. Tivemos 13! Ademais, é importante notar a tendência constante de produção, semana após semana, de textos contrários a Dilma, com neutros sempre bem abaixo, com exceção da terceira semana de dezembro, e favoráveis mantendo seu nível próximo a zero.

    Artigos de opinião
    opiniao

    Vejamos agora os artigos de opinião, aqueles escritos pelos articulistas contratados dos jornais. Eles seguem perfil similar ao dos editoriais, com viés extremamente negativo, inclusive coincidindo com desenho da curva similar. O pico de artigos de opinião negativos se dá também na segunda semana de novembro, 15 textos negativos, quase um por dia por jornal. E na última semana, segunda de janeiro, o número também sobe, aqui para 13. Os neutros ficam sempre bem abaixo, sem qualquer exceção e os textos favoráveis variam entre 0 e 2 e 0 e 1, semana após semana.
    Nas colunas temos um pouco mais de variação, como mostra o gráfico abaixo:

    Colunas
    colunas

    Nesses textos, escritos por convidados das editorias dos jornais, há um entrelaçamento maior entre as curvas de neutros e contrários. Ou seja, há um número similar e até um certo equilíbrio entre um e outro tipo de texto. Favoráveis, contudo, são praticamente inexistentes. Ou seja, quando os jornais são menos enviesados contra Dilma Rousseff, como nas colunas, a opinião expressa por eles varia entre o contrário e o neutro.

    Como podemos constatar nessa breve análise, Dilma continua sob fogo cerrado da cobertura da grande imprensa. O padrão de viés contrário a ela continua similar àquele do período eleitoral, já revelado em análises prévias do Manchetômetro. Nas páginas de opinião, que não foram analisadas durante o período eleitoral, descobrimos um viés ainda mais forte contra a presidente reeleita. Se somarmos editoriais e artigos de opinião chegamos a números expressivos como o de 29 textos contrários na segunda semana de novembro. Somando as seis colunas negativas publicadas nessa semana, o número vai para 35: uma média de cinco textos contrários a Dilma por dia nos três jornais.

    Também disponibilizamos para o internauta uma página com a análise da cobertura dos partidos políticos (http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/cobertura-2015-partidos/) e da Operação Lava Jato (http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/cobertura-2015-operacao-lava-jato/), as quais comentaremos em breve.

    Nossos planos incluem uma pletora de novas análises e a inclusão de outros meios de comunicação noticiosos, impressos e virtuais.

    Sejam bem vindos à nova fase do Manchetômetro.

  • Organizações Globo: o que a gente vê por aqui

    Por João Feres Júnior, Eduardo Barbabela e Marcia Rangel Candido

    “Em ato em São Paulo, Lula faz nova agressão à imprensa”. Esse é o título de matéria de O Globo publicada no dia 21 de outubro. Nela o jornal (não há crédito para autor) relata que Lula teria “atacado a imprensa”, ao dizer em comício que os jornalistas Miriam Leitão e William Bonner falavam mal de Dilma. Logo após enunciar o fato, a reportagem de O Globo vai ouvir a outra parte, a TV Globo.

    A resposta curta da emissora vale a pena ser reproduzida literalmente: “[nossos] jornalistas não falam mal de ninguém, mas apenas cumprem a sua obrigação de perguntar e noticiar fatos”.
    As Organizações Globo são a maior empresa de comunicação do Brasil. Os 45 anos de seu Jornal Nacional, o mais notório noticiário da televisão brasileira, foram comemorados este ano sob a sombra do registro de uma das mais baixas audiências de sua história. Ainda assim, o JN não perdeu seu protagonismo no gênero. O jornal impresso O Globo desempenha papel semelhante no Rio de Janeiro: a despeito da queda de sua tiragem anual, ainda representa a mídia impressa de maior circulação na cidade e ocupa o terceiro lugar no Brasil, de acordo com o ranking de 2013 da Associação Nacional de Jornalistas (ANJ).

    A concentração da propriedade dos meios de comunicações em nosso país, da qual as Organizações Globo são o maior exemplo, levanta uma série de questões de ordem teórica e política, entre elas, a da sinergia e coerência das linhas editoriais de suas várias mídias: TV Globo, Jornal O Globo, Revista Época, Globo News etc. No presente artigo, fazemos um estudo de caso comparando a cobertura das eleições de 2014 no jornal O Globo e no JN. Será que elas seguem os mesmos padrões? Será que a descrição que a TV Globo fez de seus jornalistas é verdadeira? A análise da cobertura dos candidatos em cada um desses meios, que vai abaixo, nos ajudará a responder essas perguntas. Comecemos pelos gráficos de matérias neutras para cada candidato:

    Jornal Nacional – – Candidatos (Valências neutras)
    JN_Candidatos_ValenciasNeutras

    No Jornal Nacional a presidente Dilma Rousseff manteve-se quase que o período todo acima de seus dois principais contendores no número de neutras, com exceção do curto período que se segue à semana da morte de Eduardo Campos (13/08), no qual Marina Silva a ultrapassou. Após a superexposição dada pelo Jornal Nacional a Marina Silva, nesse momento, sua curva se aproxima muito da de Aécio, a ponto de tornarem-se virtualmente idênticas. A de Dilma também tem forma bem similar, mas está acima das curvas de seus dois adversários. A superioridade de Dilma na cobertura neutra se deve certamente ao fato de ela ser Presidente da República, ou seja, continuar no exercício da função mesmo durante a campanha eleitoral. Já o formato muito similar das curvas de Aécio e Marina, e mesmo de Dilma, mostram que o jornal provavelmente controla não somente a exposição de cada candidato, mas também a valência das matérias que tratam deles.

    O Globo – Candidatos (Valências neutras)
    OGlobo_Candidatos_ValenciasNeutras

    Como o gráfico acima mostra, o comportamento da cobertura de capa do jornal O Globo é diverso do seu congênere televisivo no que toca a cobertura neutra dos candidatos. A semana da morte de Eduardo Campos inaugurou um período de superexposição de Marina Silva mais longo e intenso. Já na primeira semana ela obtém quase o dobro de neutros de Dilma (22 contra 13), fica acima da candidata-presidente até o final de agosto e, a partir daí, passa a se alternar com Dilma na liderança das menções neutras até praticamente o primeiro turno. O gráfico de neutros do jornal tem também outro aspecto de interesse. Nas últimas semanas anteriores ao primeiro turno, quando Marina começava a cair nas pesquisas de intenção de voto, o candidato do PSDB, Aécio Neves, que havia sido relegado a um terceiro plano depois da subida de Marina, começa a ter sua exposição aumentada pelo jornal, a ponto de passar Marina e passar Dilma. Na semana do primeiro turno ele obteve uma proporção de 3 neutras na capa para cada 2 de Dilma (18/13). Ou seja, tanto o crescimento de Marina e depois o de Aécio foram apoiados pela exposição do jornal, mas só o crescimento de Marina parece ter recebido tratamento similar do Jornal Nacional.

    A comparação dos gráficos de matérias e chamadas neutras nas capas do jornal com o número de matérias neutras no Jornal Nacional, como um todo, mostra que o jornal impresso manipulou bem mais a exposição dos candidatos do que seu congênere televisivo. O quadro da comparação dos gráficos de negativas, contudo, é diverso. Vejamos primeiro a cobertura do Jornal Nacional durante a campanha.

    Jornal Nacional – Candidatos (Valências contrárias)
    JN_Candidatos_ValenciasContrarias

    A imagem é tão forte que dispensa muitos comentários. O viés contra Dilma ao logo de todo o período eleitoral foi tremendo. Só para se ter um parâmetro de comparação, quando ela atingiu um pico de 23 matérias negativas na semana de 7 a 13 de setembro, Aécio teve duas e Marina uma. Esses números não levam em conta as matérias negativas do JN sobre o Governo Federal, que não citavam Dilma diretamente, sobre economia e sobre o PT, que, como as páginas dos Manchetômetro mostram, foram abundantes em toda a campanha (http://www.manchetometro.com.br/analises/). Note-se ainda que há um crescimento da cobertura negativa à medida que a campanha avança no tempo, o que denota a intensificação do combate da editoria do JN à candidatura do governo.

    O Globo – Candidatos (Valências contrárias)
    OGlobo_Candidatos_ValenciasContrarias

    O gráfico de negativas de O Globo é bem similar ao do JN: Dilma é massacrada, enquanto os outros candidatos passam quase incólumes. Mas há uma diferença importante e ela diz respeito à cobertura de Marina Silva. O jornal de fato aumentou bastante o número de negativas na capa para a candidata no período que vai da morte de Eduardo Campos até meados de setembro. Mas à medida que Marina começou a cair nas pesquisas, o número de negativas nas capas também arrefeceu. O número de negativas para Dilma é realmente expressivo, atinge picos de 28 manchetes ou chamadas por semana, ou seja, uma média de quatro por dia, somente na capa do jornal. E esse pico é alcançado duas vezes, na semana de 7 a 13 de setembro e na semana de 21 a 27 de setembro, isto é, às portas do primeiro turno.
    Como nossa análise mostrou, as Organizações Globo, tanto por meio do Jornal Nacional quanto pelo periódico O Globo, cobrem as eleições de maneira fortemente enviesada, dedicando um número desproporcional de matérias negativas à Dilma Rousseff e ao seu partido, o PT. Ao mesmo tempo, blindam os candidatos da oposição, limitando-se a noticiá-los de forma neutra. O Manchetômetro, por meio de suas análises, mostra claramente esse comportamento enviesado. Até quando os grandes meios de comunicação vão conseguir manter o discurso hipócrita da neutralidade? Isso é algo que ainda não podemos responder.

  • É a economia, estúpido, ou não? A cobertura do Estadão nos pleitos de 1998 e 2014

    No dia 10 de setembro, o Manchetômetro apresentou análises que comparavam a cobertura da mídia durante o período oficial de campanha da eleição de 1998, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pleiteava a reeleição, e durante a campanha deste ano, em que a presidenta Dilma Rousseff (PT) persegue o mesmo objetivo. A intenção do estudo comparativo é testar a tese do contrapoder, muito comumente aventada em debates sobre o papel da mídia. Segundo tal tese, a mídia cumpriria a função de se opor ao poder constituído, no caso, o candidato e partido que ocupa a presidência e pleiteia a reeleição, mantendo-o sob constante escrutínio. A comparação do Manchetômetro refuta a tese, contudo. Agregando os dados dos jornais Folha, Estadão e O Globo, FHC teve uma proporção de notícias negativas para neutras menor do que 1 para 5, mais especificamente, de 19%. Dilma alcança até agora a marca de 80%, ou seja, de 4 negativas para cada 5 neutras. Assim, a grande imprensa é quatro vezes mais “contrapoder” no caso da candidatura do PT do que foi para a do PSDB em 1998. FHC também recebeu um número alto de matérias positivas, o que é algo raro nas coberturas de todas as eleições. Se comparadas às matérias neutras, as positivas recebidas por FHC chegam a 35%: 2 para 5. Na cobertura de 2014, Dilma teve somente 4 notícias positivas durante o período de campanha até o primeiro turno; pífios 2% de seu total de neutras. Ou seja, a grande mídia não só não foi contrapoder na eleição de 1998, mas foi francamente situacionista.

    Mas é sempre possível argumentar, e algumas pessoas de fato o fazem, que essa diferença gritante nas coberturas se deve não a um viés da grande mídia, mas ao contexto econômico de cada eleição. Ora, não precisamos apelar para o chavão “It’s the economy, stupid!”, cunhado pelo assessor de Bill Clinton, James Carville, para reforçar o argumento de que a economia é assunto de máxima relevância eleitoral. Pois bem, nesse artigo testamos a hipótese econômica: o tratamento favorável dado a FHC em 1998 se deveu ao contexto econômico favorável, enquanto que, inversamente, o tratamento muito desfavorável recebido por Dilma no ano corrente é produto de ambiente econômico comparativamente pior. Digo comparativamente, pois não há sentido pensarmos em termos absolutos, já que o objetivo é poder avaliar os motivos por trás do comportamento da grande mídia.

    Vamos nos restringir aqui ao enquadramento do tema economia no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1998, foram publicadas 50 chamadas de capa positivas, 76 negativas e 17 neutras sobre o tema durante o período eleitoral. Este ano foram 9 notícias positivas, 127 negativas e 23 neutras. Como se vê, os números de notícias negativas nas capas do Estadão sugerem que o desempenho econômico do Brasil naquela época fora consideravelmente melhor daquele alcançado este ano. A melhor maneira de comprovar a verossimilhança desta interpretação é estabelecer uma comparação entre os dois períodos baseada em alguns dos fatores mais relevantes do noticiário econômico, e que frequentam a fala dos economistas e jornalistas econômicos de plantão: inflação, desemprego, crescimento, taxa de juros e salário mínimo.

    Comecemos pela inflação. Os índices inflacionários de 1998 foram os mais baixos de uma série de quedas constantes que teve início com a implantação do Plano Real: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano em 1,65 [1] e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), em 2,49. Na época, o governo federal ainda não adotava metas para inflação de modo que não se pode identificar se os números estavam dentro das expectativas para o ano, mas ainda assim, a inflação foi baixíssima. Ela foi tema de apenas uma chamada de capa durante a campanha de 1998, a manchete do dia 19/07: “Bird aconselha Brasil a manter inflação baixa”. Em 1999, o Banco Central passou a estabelecer metas para a inflação anual.

    A meta de 2014, estabelecida já em 2012 [2], é de 4,5% com margem de dois pontos para mais ou para menos. Esse ano, a inflação tem sido o tema de maior destaque na cobertura econômica, estando presente em 9 textos de capa entre manchetes e chamadas, sendo sempre enquadrada como problema gravíssimo sobre o qual o governo federal parece não ter controle. O acumulado do IPCA até o mês de agosto está em 4,02 e o INPC em 4,11. Conforme informou o Estadão no dia 29/09, o Banco Central previu que a inflação de 2014 deve ficar em 6,3%, próxima, portanto, do teto da meta. No entanto, a manchete da edição do dia 12/09, “Ata do BC vê inflação perto da meta só em 2016” – assim como o texto que a acompanha – não cita que a meta citada se trata, na verdade, do centro da meta. Também em outras edições, como o editorial “Inflação real e fantasia oficial” do dia 21/09, para citar apenas um exemplo, tratam a inflação como problema sobre o que o governo federal não consegue solucionar.

    Um segundo tema importante no noticiário econômico é o desemprego, sobretudo durante esta campanha. O “avanço do desemprego”, segundo análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) na capa do dia 19/09, é classificado como um “sinal alarmante”, reflexo da “grave crise da indústria”. A Pnad divulgada na véspera indicara um aumento no índice de desemprego de 6,1 para 6,5%, o segundo menor desde 2002. Na campanha de 1998, o tema desemprego aparece somente em duas chamadas de capa. Uma delas o aponta como tema das eleições estaduais, a outra noticia o menor índice em seis meses. A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) indica que, curiosamente, em 1998 a taxa de desemprego nas áreas metropolitanas correspondia a 18,6% da PEA, enquanto em 2014, a taxa verificada no mês de junho foi de 10,8% [3]. Ou seja, o desemprego naquela época era quase o dobro do que é agora, mas, segundo a ótica editorial do Estadão, agora ele é problema e naquela época não era.

    A questão do crescimento econômico é também muito relevante no noticiário. No ano de 1998, a variação do Produto Interno Bruto, ou seja, o crescimento da economia foi de 0,00%, um cenário de estagnação [4]. A palavra estagnação, no entanto, não foi usada nas capas do Estadão para definir o estado da economia. Já a palavra crescimento aparece 4 vezes: chamada aponta que o Ipea diminuiu a previsão de crescimento da economia; outra chamada identifica que o déficit impede o crescimento; a terceira relaciona estabilidade e crescimento; e a última identifica que o crescimento e o emprego constituem a “próxima etapa” da economia brasileira. Em 2014, a última previsão de crescimento do PIB de 2014, divulgada pelo governo no dia 22/09, foi de 0,9%. A palavra estagnação já apareceu três vezes nas capas do Estadão ligada a outras palavras como recessão, inadimplência e inflação. Outros adjetivos são também utilizados para definir a economia do país: travada, freada, mau humorada, para citar alguns. Já a palavra crescimento aparece uma vez: “O que dificulta o crescimento” (10/08/2014). O jornal parece adotar dois pesos e duas medidas aqui também, pois só vê estagnação agora enquanto não a via em 1998, quando o PIB literalmente não crescia.

    Agora, tratemos da taxa de juros. Em 1998, duas taxas de juros eram estabelecidas pelo Comitê de Política Monetária: a Taxa Básica do Banco Central (TBC), espécie de piso da taxa, e a Taxa de Assistência do Banco Central (TBAN), equivalente ao teto. Durante o período eleitoral de 1998 ocorreram três reuniões do Copom [5], a primeira no dia 29/07, diminuiu a TBC e a TBAN de 21,00% para 19,75% e de 28,00% para 25,75%, respectivamente. No dia seguinte, não houve nenhuma notícia na capa sobre a alteração: a manchete do dia 30 foi um elogio ao leilão de privatização da Telebrás que ocorrera na véspera. O editorial intitulado “A grande vitória do governo” tratou da mesma questão. A segunda reunião ocorreu no dia 02/09. A TBC caiu para 19,00% e a TBAN aumentou para 25,49%. No dia seguinte, chamada de capa anuncia: “Juro cai pela 7ª vez no ano”. O texto abaixo da chamada esclarece, porém, que apesar do piso ter sido reduzido, o teto sofreu elevação. A elevação em questão não foi pouco significativa – 4 pontos – mas foi totalmente ignorada na chamada.

    No dia 10/09, em sessão extraordinária, o Copom manteve o piso da taxa em 19,00%, mas aumentou o teto para 49,75%. O aumento emergencial da taxa após o “mais dramático dia para o Brasil desde o início da crise mundial”, marcado por queda de 15,83% na Bolsa de São Paulo foi o tema da manchete do dia 11: “Fuga de divisas cresce e juros vão a 49,7%”. Segundo o texto sob a manchete, para conter a fuga de divisas, a única alternativa ao aumento de juros seria a desvalorização do real, mas o governo teria optado pela estabilidade da moeda. A mesma notícia informa que o presidente Fernando Henrique havia dito que, por ele, os juros não aumentariam. Lê-se também que as principais bolsas do mundo também caíram. O editorial intitulado “O papel do Congresso na crise” chama os congressistas a assumir responsabilidade sobre a situação: “Há uma crise mundial, o Brasil é parte do mundo e o Congresso brasileiro é parte de quê?”

    A TBAN foi extinta em 04/03/99, e a TBC substituída pelo Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, a taxa Selic. Durante o período eleitoral de 2014 houve duas reuniões do Copom. A primeira delas foi no dia 16/07, e a taxa foi mantida em 11,00%. No dia seguinte, análise apresentada na capa do Estadão indica que “elevar juros, no momento, é ação com potencial para conduzir a uma recessão”. A segunda reunião foi no dia 03/09 e a taxa foi, novamente, mantida. No dia 4, chamada de capa apenas informa sobre a decisão do Comitê.

    O tema salário mínimo não esteve presente em nenhuma chamada de capa, nem no período eleitoral de 1998 nem de 2014. Mas, por se tratar de variante crucial para a compreensão da situação econômica do país, analisemos brevemente o tema. Em agosto 1998, o valor do salário mínimo nominal era R$130,00 quando o salário mínimo necessário para manter uma família de 4 pessoas (dois adultos e duas crianças), de acordo com o cálculo do DIEESE, era R$852,12. Ou seja, para atingir a renda necessária, o trabalhador precisaria ganhar aproximadamente 6,5 salários. Em agosto de 2014, o valor nominal é R$724,00 e o necessário R$ 2.861,55, ou seja, o salário mínimo necessário corresponde a 3,9 vezes o salário nominal.

    Finalmente, se faz necessário um comentário especial sobre a cobertura do que foi, provavelmente, o dia mais importante para a economia brasileira no ano de 1998. No dia 23 de setembro, em um pronunciamento no Palácio do Itamaraty, o então presidente Fernando Henrique anunciou medidas econômicas drásticas que poderiam incluir aumento de impostos, diminuição de gastos, baixo crescimento econômico e um novo acordo com o FMI. No dia seguinte, a manchete: “FHC convoca nação para ajuste fiscal”. Nesta situação de crise extrema, com juros já altíssimos e a iminência de um novo empréstimo com o FMI, a capa do jornal o Estado de São Paulo expõe o apelo do presidente à nação e aos estados, municípios, bem como aos Poderes Legislativo e Judiciário para a solução da crise. Também o editorial do dia elogia a atitude do presidente que “assumiu o comando político do programa de combate à crise”, ainda que com atraso devido ao seu envolvimento na campanha eleitoral.

    A análise apresentada até aqui demonstra que, com exceção da inflação, outros aspectos da economia de 1998 eram bem menos favoráveis que os de 2014. Como explicar, então, a cobertura tão negativa da economia brasileira na campanha atual? Uma coisa é certa, ela está de acordo com o viés anti-PT e anti-Dilma que a análise do MANCHETÔMETRO detecta na cobertura do Estado de S. Paulo, dos outros dois jornais impressos e do Jornal Nacional. A escolha discricionária de matérias (agendamento) e a interpretação tendenciosa de fatos (enquadramento) caracterizam a cobertura da economia no Estadão, espelhando o viés que identificamos na cobertura política.

    [1] Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/ipca-inpc_201408caderno.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [2] Resolução nº 4.095, de 28 de junho de 2012. Disponível em: http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/res/2012/pdf/res_4095_v1_O.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [3] Disponível em: http://www.dieese.org.br/analiseped/2014/201406pedmet.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [4] Disponível em: http://www.mme.gov.br/sgm/galerias/arquivos/plano_duo_decenal/estudos_economia_setor_mineral/P01_RT02_Perspectivas_de_evoluxo_macroeconxmica_setorial_da_economia_mundial_a_longo_prazo_-_Cxpia.pdf – Acesso em 28/09/2014.

    [5] Disponível em: http://www.bcb.gov.br/Pec/Copom/Port/taxaSelic.asp – Acesso em 29/09/2014.

  • A renovação na Câmara dos Deputados

    São naturais as expectativas quanto à renovação do quadro de deputados representantes das unidades federadas na capital do País. Dessa taxa depende, conforme a doutrina ortodoxa, a oxigenação e aperfeiçoamento da atividade política. Sem dúvida, o que costuma ocorrer são modificações no tamanho das bancadas dos partidos e, conseqüentemente, o valor de sua participação nas coalizões parlamentares a serem formadas.

    As taxas históricas de renovação na Câmara de Deputados, do mesmo modo que nas Assembléias estaduais, são razoáveis, em torno de um terço daqueles que se candidatam à reeleição. É importante distinguir a renovação compulsória, isto é, a proporção de novos nomes resultante da desistência dos atuais deputados a novo mandato, da renovação líquida, que se dá quando incumbentes se candidatam e não conseguem se reeleger. Obrigatoriamente, nomes não constantes da atual lista dos 513 representantes terão de aparecer. Do mesmo modo, deputados da legislatura que acaba podem preferir concorrer a postos diferentes, aumentando, na mesma quantidade e proporção, a lista de novos nomes na próxima legislatura, comparada com a atual. A rigor, só podemos assegurar que na lista de novos nomes que integrarão a futura Câmara haverá uma proporção relativa àqueles que, componentes da atual, se recandidatem e sejam derrotados – a já citada renovação líquida da Câmara dos Deputados, produzida pela escolha livre do eleitorado.

    Não podemos identificar individualmente o recém-eleito que substitui um candidato derrotado, mas sabemos quem são os que reapresentam para um novo mandato e, entre estes, aqueles que não obtém a reeleição. Por ora, contudo, já é possível medir a taxa de renovação “compulsória”, isto é, o número daqueles que estarão preenchendo o número de lugares dos que desistiram da política e aqueles que se candidataram a outro posto político.

    De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, 38 dos atuais legisladores (7,4%) não concorrerão a nenhum mandato político nas eleições de 2014, 77 (15%) deles concorrerão a outros postos e, portanto, teremos 398 (77,6%) buscando a reeleição. Assim, a renovação compulsória, isto é, o número de novos nomes na legislatura que vem em decorrência de algum modo de abandono da posição será igual a 22,4% (15% de concurso para outros postos + 7,4% de retirada da atividade política)´, ou seja, 115 novos nomes da próxima legislatura estarão substituindo igual número de representantes que, voluntariamente, abdicaram desta competição.

    A medida da renovação não voluntária, ocorrida em função de escolha do eleitorado, é simples de estabelecer: número de derrotados/ números de candidatos à reeleição (398). Falta-nos, portanto, somente o numerador desta fração, que será conhecido nos primeiros dias da próxima semana. Faremos, então, o cálculo, só para ficar estabelecido o tamanho total da bancada de que se espera oxigenação e produtividade da legislatura que virá.

  • Business as usual no reino encantado da grande imprensa

    Os gráficos de acompanhamento diário e semanal da cobertura da mídia, agora disponibilizados na home do MANCHETÔMETRO (http://www.manchetometro.com.br/) permitem notar semelhanças e diferenças no comportamento dos três grandes jornais, (Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo) em relação à cobertura dos candidatos. Tomemos os gráficos da cobertura dos últimos 7 dias.[1]

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    As semelhanças são várias:

    1. A mais saliente é um tremendo viés anti-Dilma, representado pela proporção de matérias negativas nas capas dessas publicações, se comparada às negativas recebidas por Marina e por Aécio.
    2. Dilma e Marina são o foco da cobertura, enquanto Aécio foi deixado à mingua. A proporção entre negativas e neutras da cobertura do tucano é baixa se comparada a de Dilma, mas o número absoluto de matérias que tem ele como assunto é muito pequeno.
    3. Quantidade ínfima de matérias negativas para Marina, a despeito de ela ter um número de matérias neutras expressivo.

    Dentro de cada semelhança há diferenças mais ou menos sutis. A primeira que chama atenção é o nível de ativação eleitoral diferenciado dos três jornais. Em artigo que já é referência nos estudos de mídia no Brasil, Luis Felipe Miguel[2] aponta para o baixo nível de politização do noticiário da Rede Globo durante a campanha presidencial de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso conquistou a reeleição. A análise feita no MANCHETÔMETRO do comportamento dos jornais impressos no pleito de 1998 mostra, em comparação com o pleito atual (e com outros), a mesma coisa: a grande mídia não se interessou muito por discutir política, no período da campanha eleitoral.

    Em 2014, particularmente a partir da entrada de Marina Silva como titular da chapa do PSB, notamos um comportamento heterogêneo dos grandes jornais. O Estado de S. Paulo faz uma cobertura de capa altamente politizada e, ao mesmo tempo, muito enviesada, com os negativos de Dilma atingindo um recorde de 35 matérias na semana e seus neutros 27. Marina é bem menos exposta, com 14 neutros, e quase inteiramente poupada de cobertura negativa: somente um texto.

    O Globo, ao contrário de seu comportamento em 1998, também está politizando intensamente a cobertura de capa. O número absoluto de negativas para Dilma na semana é 27, menor do que o Estadão, mas a proporção entre negativas e neutras é bem maior: quase 2:1 n’O Globo e 1,3:1 no Estadão. Basta olhar os dois gráficos acima para constatar a semelhança de suas formas, e o viés ainda mais negativo de O Globo em relação à candidatura do PT.

    A despeito das diferenças sutis, o nível de ataque e de viés nesses dois jornais é escandaloso, mais parecem panfletos de campanha do PSDB ou do PSB do que propriamente diários que defendem publicamente critérios de isenção e equilíbrio jornalístico, como ambos fazem.

    A Folha de S. Paulo tem um comportamento um pouco diverso. O viés anti-Dilma está presente também e de maneira pronunciada. Na semana, enquanto Dilma foi alvo nas capas, direta ou indiretamente, de 12 matérias negativas, Aécio e Marina receberam somente uma. Mas o nível de politização da cobertura é bem menor do que dos outros jornais. Além das 12 negativas, Dilma tem 12 neutras. Marina acumula 13 matérias neutras, uma a mais que Dilma, ou seja, a Folha é o jornal que na semana mais expos a candidata do PSB. Em suma, a Folha foi menos enviesada, apesar de estar longe de qualquer coisa que se assemelhe a um equilíbrio de cobertura, e bem menos politizada do que seus concorrentes, ou parceiros.

    Quanto à segunda semelhança entre os jornalões, o desaparecimento do candidato do PSDB das capas, não há muito mais o que dizer. Os três se comportam da mesma maneira. Seu nível de exposição é próximo de um terço do de Marina, e chega atingir um oitavo do de Dilma nas capas do Estadão, ainda que devamos pesar que a cobertura da candidata do PT é extremamente negativa, e a de Aécio dominantemente neutra.

    Por fim, temos o perfil da cobertura de Marina. A candidata é bastante exposta e o perfil de sua cobertura é quase que exclusivamente neutro, o que muitos especialistas consideram positivo para a campanha. O Estadão é o mais reticente na exposição de Marina. N’O Globo seu número de neutros já está próximo do de Dilma, 12 para 14, respectivamente e na Folha, como dissemos acima, já ultrapassa os neutros da candidata do PT.

    A título de conclusão vamos refletir sobre essa análise da cobertura dos últimos sete dias e o perfil da cobertura depois do início do período eleitoral, o terceiro gráfico da página Candidatos do Manchetômetro (http://www.manchetometro.com.br/analises/candidatos/).

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    Marina já acumula no período eleitoral, no qual ela entrou tardiamente, praticamente o mesmo número de matéria neutras de capa que Dilma, 173 a 175. Aécio já ficou para trás, com menos de 70% no acumulado do período do que as outras candidatas têm. A proporção das negativas entre Dilma e Marina, contudo é quase de 3 para 1, com (des)vantagem para a candidata do PT.

    Em suma, a semana mostra a consolidação da cobertura dos jornais de uma antecipação do segundo turno. O nível de politização e de viés anti-PT da cobertura de O Globo e do Estado de São Paulo é muito alto, a ponto de não haver mais muito espaço para aumentar. Esses jornais parecem focar todas suas energias no objetivo de barrar a reeleição de Dilma. A saturação e o viés escancarado de sua cobertura, contudo, coloca em dúvida o potencial eleitoral dessa estratégia. Já a Folha de S. Paulo tem mais “gordura para queimar” se optar pela intensificação da politização e do viés, que já está presente em sua cobertura. Se os padrões de eleições passadas se repetirem, ela vai continuar com esse comportamento de ficar na retaguarda dos outros dois jornais, no que toca o viés anti-PT, tentado preservar, ainda que parcialmente, uma fachada de equilíbrio e neutralidade, enquanto pratica um viés de mais baixa intensidade, ainda que inconteste aos olhos de uma análise objetiva da cobertura.

    Se a grande mídia impressa se comporta desse maneira por opção ideológica ou por interesses empresariais, ou ainda por uma mistura desses dois motivos, é coisa que não temos como verificar nesse tipo de pesquisa. Uma coisa é certa, contudo: esse comportamento é extremamente danoso para a saúde da esfera pública e do debate democrático em nosso país.

     

     

    [1] Os dados foram tomados no dia 25 de setembro de 2014. A atualização é diária e os gráficos semanais capturam os dados dos últimos sete dias.

    [2] Miguel, Luis Felipe. “Mídia E Eleições: A Campanha De 1998 Na Rede Globo.” Dados 42, no. 2 (1999): 253-76.

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