• Prioridades que falam por si: enquadrando a violência à mulher no Jornal Nacional

    Por Marcia Rangel Candido, João Feres Júnior e Luna Sassara

    Rio de Janeiro - A ONG Rio de Paz promove, na Praia de Copacabana, ato público contra o abuso sofrido pelas mulheres. Durante a manifestação, 420 calcinhas estendidas na areia, representam a quantidade de mulheres estupradas a cada 72 horas no Brasil. (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

    (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

    Nascido[1] em pleno período de recrudescimento da ditadura militar no Brasil, o Jornal Nacional tenta passar, historicamente, uma imagem de neutralidade e transparência. Faz isso a partir de sucessivas declarações de comprometimento com a informação gerada ao público, nas quais destaca sua função de estabelecer a “cobertura das principais notícias no Brasil e no mundo. Pautado pela credibilidade, isenção e ética”[2]. Tendo em vista que as edições do JN têm menos de uma hora de duração, e que, portanto, a seleção de casos é algo inescapável, seria possível ainda assim manter qualquer tipo de isenção durante o processo de escolha das “principais notícias” do país? Quem participa desse processo? De qual ética estamos falando? Por exemplo, de que modo as mulheres, que são mais da metade da população do país, são contempladas nesta mídia?

    Em geral, os grandes meios de comunicação não primam pela paridade de participação entre homens e mulheres. Segundo estudo realizado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa em parceria com o Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública, ambos do IESP-UERJ, o gênero feminino não chega a 30% de participação entre os colunistas dos jornais O Globo, Folha de São Paulo e Estadão. Quando a variável raça é adicionada, as mulheres negras aparecem como o grupo menos contemplado nos espaços de opinião destes grandes jornais. No Jornal Nacional, as funções de maior notoriedade (editor-chefe/apresentador e diretor responsável) pertencem a homens, respectivamente, William Bonner e Ali Kamel. Do total da equipe, 61% são do gênero masculino e 39% são do gênero feminino[3]. Isso significa que as pautas apresentadas diariamente à população são formatadas prioritariamente por homens. As mulheres têm pouca possibilidade de expor suas experiências cotidianas. Ainda que a presença desse grupo não traga necessariamente pontos de vista diferenciados, sua ausência inibe qualquer chance de que isso ocorra.

    O escopo habitual das “principais notícias” do país neste programa televisivo compreende, sobretudo, a política institucional e o cenário econômico. Há algum tempo, o Manchetômetro tem mostrado que isenção e ética são atributos raramente praticados pela cobertura do Jornal Nacional. A escolha dos temas mencionados, bem como a sua abordagem, varia significativamente de acordo com o partido político ou personagem noticiado.

    Contudo, ao observarmos a cobertura das questões de gênero, esses dois problemas – seleção e abordagem – se manifestam de maneira específica. Destaca-se a escassa atenção dedicada ao tema da violência à mulher. Apesar da proliferação de novos veículos de comunicação que priorizam a denúncia do machismo, esse comportamento ainda não se reproduz nas mídias de maior audiência. Salvo algumas exceções, como o caso do estupro coletivo ocorrido recentemente no Rio de Janeiro[4], que alcançou grande notoriedade na mídia nacional de um modo geral, os relatos diários de violência e, especialmente, os inúmeros episódios de feminicídio que ocorrem em nosso país não conformam objeto relevante de análise aos olhos dos editores e redatores do JN. Tampouco quando as vítimas são mulheres negras, ainda que essas sejam as vítimas preferenciais desse tipo de crime.

    Segundo o relatório da FLACSO, Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil [5], publicado ano passado, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54% de 2003 a 2013. Em um ranking com 83 países, baseado em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil ocupa a quinta posição em taxa de homicídios de mulheres. Só no ano de 2013, por exemplo, em média 13 mulheres foram assassinadas por dia, sendo 50,3% desses crimes cometidos por familiares e 32,2% pelo parceiro atual ou ex.

    Silenciando o Feminicídio

    São Paulo 08/06/2016 2º ato Por Todas Elas na Avenida Paulista, contra o estupro. Foto Paulo Pinto/AGPT http://fotospublicas.com/ato-por-todas-elas-reune-mulheres-na-avenida-paulista-para-mais-um-protesto-contra-o-estupro/

    (Foto: Paulo Pinto/AGPT)

    Não bastassem as raras notícias dirigidas ao tema, quando elas ocorrem, há problemas de abordagem. No dia 15 de julho de 2016 o Jornal Nacional cobriu um suposto caso de assalto seguido de morte de uma mulher no Rio de Janeiro[6]. O sofrimento da filha e da família da vítima e a crueldade do crime foram aspectos centrais na narrativa da reportagem. Entretanto, no dia 18 de julho de 2016 a história sofreu uma reviravolta[7]. A Polícia Civil, a quem a reportagem dá voz, reformula o ocorrido em termos de violência perpetrada contra a mulher. O executor do crime, já com passagem na polícia, seria, na verdade, ex-companheiro da vítima, e teria cometido o assassinato por não se conformar com o término do relacionamento. A família, por sua vez, negou a versão da polícia e disse que a vítima só conhecia seu algoz por ele ser um trabalhador da região.

    O fato da dona de casa Cristiane de Souza Andrade – a vítima — conhecer Rogelson Santos Batista – o responsável pelo crime — ganha protagonismo na notícia. Isso ocorre não só pela afirmação da polícia e a negação da família, mas também pela declaração do âncora William Bonner, que assume a postura de defender a atuação policial, utilizando a relação entre a vítima e o criminoso para atenuar qualquer possível responsabilização da polícia pela falha no provimento de segurança. Em 163 segundos de notícia, os 67 finais são reservados à opinião de Bonner, que afirma:

    “Nesses dias em que tem aumentado o efetivo de segurança no Rio de Janeiro para a Olimpíada, a primeira suspeita de tentativa de roubo seguida de morte provocou imediatamente uma discussão sobre a necessidade de proteção que os cariocas têm o tempo todo, não só durante os jogos. Em todas as áreas da cidade, não só nos locais de prova. É uma discussão absolutamente legítima e necessária, mas com a identificação do criminoso, especificamente neste caso, não é justo ligar esses dois assuntos, porque o assassino, que apareceu nas imagens caminhando ao lado da vítima, era no mínimo conhecido dela e de vizinhos, e seria um desafio imenso pra (sic) polícia inibir uma ação covarde e rápida como essa, de uma pessoa de quem ninguém pudesse suspeitar. Infelizmente nunca se saberá se Rogelson teria feito o que fez se houvesse mais policiamento por perto e se tivesse sido punido exemplarmente na primeira vez em que sacou uma faca pra ameaçar uma mulher”.

    É mais do que escancarada a ausência de neutralidade na descrição do ocorrido. Alguns pontos na fala do apresentador do Jornal Nacional saltam à vista: a despeito da atenção concedida à relação da vítima com o agressor, em momento algum fala-se sobre feminicídio. O debate suscitado pela ocorrência do crime fica restrito, no enquadramento dado pelo jornalista, à discussão da segurança dos “cariocas”. Sancionada ano passado pela então presidenta Dilma Rousseff, a lei do feminicídio institui punições mais severas a crimes baseados na condição de mulher e à violência doméstica[8].

    Ao editorializar a notícia dando sua própria versão do fato para o telespectador, coisa que raramente acontece, Bonner tem como principal objetivo a defesa da atuação da polícia do Rio de Janeiro, a mais letal do país[9]. Ademais, ele deixa de mencionar a lei federal, mas apresenta a punição como solução preventiva (“se tivesse sido punido exemplarmente”), sem qualquer problematização mais aprofundada acerca da natureza da violência em nossa sociedade.

    Em suma, ao passo que escondeu a natureza de gênero da violência ocorrida, protegendo, ao mesmo tempo, a Polícia Carioca de eventuais críticas, o Jornal Nacional, na voz de seu dileto âncora, passou uma concepção law and order de justiça e segurança pública: quanto mais rápida e exemplar vier a punição, melhor! E assim, a grande mídia brasileira educa sua audiência para a cidadania.

     

    [1] O primeiro episódio do Jornal Nacional foi ao ar em setembro de 1969. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/telejornais/jornal-nacional/evolucao.htm

    [2] Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/telejornais/jornal-nacional/formato.htm

    [3] Percentual calculado com base nas informações disponíveis em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2010/04/redacao.html

    [4] Por exemplo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/06/policia-do-rio-indicia-7-por-estupro-coletivo-de-jovem-de-16-anos.html

    [5] Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil. Flacso, 2015. Disponível em: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

    [6] Mulher morre a facadas em um assalto na Zona Norte do Rio, 15 de julho de 2016. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/5167909/

    [7] Dona de casa esfaqueada no Rio conhecia assassino, diz polícia, 18 de julho de 2016. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/5173017/

    [8] Lei do Feminicídio (Lei nº 11.340/06). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/lei/L13104.htm

    [9] Rio de Janeiro tem a polícia mais letal do país, Uol, 2015. http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/12/01/rio-de-janeiro-tem-policia-mais-letal-do-pais.htm

  • Dois pesos, duas medidas (ou quantas forem necessárias)

    Por Giovana Teodoro

    Dois pesos, duas medidas (ou quantas forem necessárias)

    O primeiro dia do segundo mandato do governo Dilma e o primeiro dia do governo interino de Michel Temer foram datas carregadas de diagnósticos e expectativas. Como já é de costume, a grande mídia brasileira não somente reportou esse cenário como também reafirmou seu já reiterado papel de arauto dos “rumos da economia” do País. O jornal O Globo publicou, no dia 1º de janeiro de 2015, o editorial “Margem de erro para Dilma ficou estreita” e, no dia 13 de maio de 2016, o editorial, quando da posse de Temer, “Otimismo com o novo tom do Planalto”.

    Se o posicionamento do jornal fica evidente a partir da mera oposição dos termos escolhidos para o título de cada um dos editoriais, associando “margem de erro estreita” ao governo Dilma e “otimismo” ao governo Temer, a análise dos textos demonstra a opção deliberada d’O Globo por termos que estabelecem, de um lado, a tempestade para as perspectivas do cenário econômico no segundo mandato de Dilma e, de outro, a bonança para um governo Temer que, já nas suas primeiras semanas, contrariou tais expectativas. No editorial de janeiro de 2015, o jornal enfatiza que a economia do país teria entrado “em coma” antes mesmo do novo mandato de Dilma, indicando que já haveria um “cerco montado ao segundo governo Dilma por erros dela mesma”. Já o editorial de maio de 2016 apresenta o interino como homem de muitos “predicados”, sendo seu “trânsito no Congresso” apenas uma de tantas outras qualidades, além de destacar a opinião de que o primeiro dia de seu governo foi marcado por uma mudança no discurso “e para melhor”.

    Reforçando o viés político do editorial, não faltaram referências a termos pejorativos como “lulopetismo” e “hostes petistas”. O editor ousou até mesmo escrever que quanto menos presente a cor vermelha no Planalto, mais este seria “condizente com os ares de um palácio de governo”.

    O texto dos editoriais desnuda, ainda, a opção do jornal por políticas econômicas específicas, alinhadas com o que a economista Laura Carvalho define como “agenda Fiesp”, que atende melhor aos interesses do empresariado e do mercado financeiro ao priorizar medidas como desvalorização do câmbio,  redução de impostos e ajuste fiscal. Note-se, nesse sentido, a ênfase dada pelo editorial de 2015 ao “esgotamento do ciclo de incentivo preferencial ao consumo” (política econômica que marcou os dois governos Lula e alavancou o crescimento econômico do país no período) e o destaque do editorial de 2016 à fala de Temer sobre a “necessidade de se melhorar o ambiente de negócios no País”.

    Ocorre que, ao apresentar dados do Relatório Focus, o editorial do jornal O Globo sobre o início do segundo mandato de Dilma deixa de informar o leitor que esses números decorrem da própria tentativa da presidenta de atender às demandas da agenda Fiesp, já nos primeiros anos de seu governo. Exemplo disso é a notória contração fiscal observada entre os anos 2011 e 2015 (conforme apresentado em estudo do Ibre/FGV de dezembro de 2015) e as consequências preocupantes para as contas da União da concessão de benefícios fiscais a empresas. Além disso, a própria utilização do Relatório Focus como fonte primária de dados para definir os “rumos da economia” do país deve ser questionada. Trata-se de um conjunto de expectativas geradas pelo mercado financeiro e para o mercado financeiro, sem falar que o próprio Banco Central, nos documentos publicados por seu Departamento de Relacionamento com Investidores e Estudos Especiais (Gerin), destaca que os dados apresentados pelo Focus não restringem as ações de política monetária e cambial do BC.

    Devemos atentar, contudo, para o desequilíbrio das abordagens em cada caso. Enquanto que para diagnosticar e prognosticar o desastre do novo governo Dilma sobram números, a análise das perspectivas para o “novo tom do Planalto” sob Temer se limita a interpretar as boas intenções no discurso do interino. As críticas à administração de Dilma são contumazes mesmo quando se trata de um ato da Presidenta alinhado com a posição do editorial. A nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, por exemplo, que poderia representar uma boa escolha de Dilma de acordo com aquilo que O Globo considera como política econômica ideal, é logo ponderada pelo editorial em face do caos econômico desenhado ao longo do texto – “foi um alento, mas não significa que se espere um ano fácil”.

    Em nenhum momento esse tipo de ponderação aparece em relação às perspectivas para o governo Temer. O editorial de maio parece deixar muito claro que o presidente em exercício estaria plenamente apto à missão honrosa de “pacificar e unificar o Brasil”, superando as dificuldades políticas e econômicas deixadas pela administração petista e tendo como único obstáculo a “guerra” que Dilma e o lulopetismo prometem fazer contra seu governo. Tamanha é a aposta no sucesso do novo governo que, em contraste com a ideia defendida em 2015 de que “nenhuma política social sobrevive a uma crise com as características e nas dimensões da que está emergindo no Brasil”, o editorial do último mês de maio enalteceu o aparente compromisso de Temer em manter os programas sociais de seus antecessores. Sem qualquer crítica à uma proposta que o jornal havia atribuído às “hostes petistas” no ano passado, o editorial “Otimismo com o novo tom do Planalto” destaca, em contraponto às supostas ambições de Dilma e do lulopetismo de guerrear contra o governo Temer, que o presidente interino “foi direto ao garantir a manutenção dos programas sociais”. Ora, o que mudou em pouco mais de um ano? A capacidade do país de sustentar programas sociais em meio a crise ou simplesmente a voz que os anuncia no Planalto?

    Entre dois pesos e tantas medidas para legitimar a “solução Temer”, os editoriais d’O Globo não surpreendem ao sacrificar a coerência para sustentar um viés velado, pouco transparente perante o leitor. Se o otimismo com o projeto de política econômica de Temer vem assentado no que seria a capacidade do presidente interino de restabelecer a tão sonhada “confiança do mercado”, cabe ao leitor desconfiar daqueles que anunciam que tudo vai “mudar para melhor” quando o que se vê de fato é apenas uma mudança: um Presidente não eleito substituindo uma Presidenta afastada por um processo de impeachment que se torna mais questionável a cada dia.

  • Sobre vazamentos e enquadramentos

    No dia 23 de maio de 2016, o jornal Folha de São Paulo publicou trechos de conversas do então ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer, Romero Jucá, com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e ex-senador pelo PMDB. Nelas, os dois discutiam a possibilidade de deter o avanço da Operação Lava Jato caso a presidente Dilma Rousseff sofresse impeachment.
    O vazamento do grampo de um ministro de Estado não é exclusividade do governo Temer. Em 15 de março de 2016, ainda no governo Dilma Rousseff, o site da revista VEJA divulgou conversas do então ministro da Educação Aloísio Mercadante com um assessor do senador cassado Delcídio do Amaral, na qual o ministro teria supostamente oferecido ajuda ao senador em troca de seu silêncio.
    Ambos os episódios foram apresentados pela mídia, no dia do vazamento e no dia seguinte, como tentativas de obstruir o andamento da Operação Lava Jato. A cobertura, entretanto, foi bastante dissimilar, principalmente no que toca o tratamento da relação dos ministros com os respectivos presidentes da República, tal qual veremos a seguir.
    No dia 15 de março de 2016, o site da revista VEJA divulgou conversas entre um assessor do senador cassado Delcídio do Amaral com o então ministro da Educação, Aloísio Mercadante, na qual os dois negociavam um possível apoio do ministro ao senador. No dia seguinte, Mercadante e Delcídio estavam presentes nas capas dos jornais.
    As manchetes dos três jornais, Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo, destacavam em alguma medida a homologação da delação de Delcídio, de perspectivas distintas: do PGR, do STF e da própria Lava Jato. Mesmo competindo com dois outros temas importantes à época – o conteúdo da delação de Delcídio e a nomeação de Lula como ministro – o caso de Mercadante ainda obteve espaço relevante nas capas.
    Ao analisarmos os textos que acompanham as manchetes podemos notar uma característica comum nas coberturas: a insistência em ressaltar que o ministro da Educação era próximo à Presidenta da República. Este fato foi, inclusive, utilizado por articulistas para contradizer a justificativa de “ação pessoal” apresentada por Aloísio Mercadante quanto à oferta de ajuda a Delcídio. Assim, os jornais associaram o escândalo diretamente a Dilma Rousseff, mesmo que ela tivesse desmentido tal ilação.
    Seria essa atitude agressiva em relação ao ministro e à presidenta, que faz inclusive uso de ilações sem comprovação concreta, uma característica geral do comportamento dos jornais em relação ao poder estabelecido ou um tratamento especial reservado a Dilma e ao governo do PT?
    Para responder a essa pergunta é necessário avançarmos no tempo até 23 de maio. Michel Temer completava seu 10º dia como Presidente da República interino, quando a primeira grande crise de sua administração eclodiu. Segundo denúncia do jornal Folha de S. Paulo, Romero Jucá, então ministro do Planejamento, mantivera conversas com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e ligado ao PMDB, sobre a possibilidade “um pacto para deter a Operação Lava Jato” em um futuro governo Temer.
    No dia seguinte ao vazamento, os três jornais – Folha de São Paulo, Estadão e O Globo – estampavam a queda de Romero Jucá, causada pelo vazamento da gravação. Nos textos que acompanhavam as manchetes, o foco esteve no peemedebista, sem mencionar a proximidade entre Jucá e Temer. Por sua vez, o presidente interino foi citado apenas em três oportunidades: como alguém que era desafiado pela situação, que elogiara Romero Jucá em sua saída e também que fora chamado por petistas de golpista em sua visita ao Senado Federal.
    Mesmo que Jucá e Michel Temer fossem aliados próximos, como os jornais em diversas oportunidades reforçaram, não houve em nenhum momento a tentativa de associar o conteúdo da delação com o presidente interino, ainda que existissem falas do próprio Jucá que associavam o governo Temer à possibilidade de influenciar o andamento das investigações da Operação Lava Jato. Além disso, o afastamento do então ministro do Planejamento foi apresentado como uma ação positiva do governo Temer contra a prática da corrupção, mesmo que se lembrasse o fato que o próprio Romero Jucá já era investigado na Operação Lava Jato antes de assumir o cargo.
    Assim podemos notar que os dois ministros são representados de forma negativa, dotados da mesma intenção: impedir os avanços da Operação Lava Jato. No entanto, as perspectivas apresentadas são distintas: Aloísio Mercadante é apresentado tal qual um fantoche a serviço do Governo Federal e de Dilma Rousseff, mas que assume todo o ônus de sua ação como forma de protegê-los, enquanto Romero Jucá é representado como o político que age sem o apoio ou conhecimento de Michel Temer, mesmo que seu objetivo explícito fosse conduzir o último ao poder.
    Em suma, o tratamento dado a Dilma e a Temer pela grande mídia foi bastante distinto. Uma sendo alvo de ilações e o outro sendo poupado de qualquer associação aos malfeitos de seu comandado e aliado. Esse comportamento se verificou nos três jornais, de maneira similar. Resta saber até quando permanecerá esse estado de coisas.

    Por Eduardo Barbabela e João Feres Júnior

  • A Transparência e a transparência da mídia brasileira

    Escrever sobre a mídia brasileira é uma atividade que exige do redator com algum senso crítico uma resiliência inumana, pelo menos um estômago reptiliano, para suportar a total falta de escrúpulos e falta de profissionalismo jornalístico que impera nas redações dos grandes veículos noticiosos de nosso país. O caso que quero tratar aqui é o da recente onda de publicações acerca da ONG internacional Transparency Internacional e o “escândalo da Petrobrás”. O Estadão dessa vez foi mais longe que a concorrência. Um editorial do dia 12 de fevereiro abre com o seguinte período: “Entre muitas outras proezas fantásticas, todas elas carregadas nas tintas da mistificação e do ilusionismo, o lulopetismo gaba-se de ter logrado projetar o Brasil no cenário internacional”.
    De cara já impressiona o nível elevado de politização do texto, e aqui me refiro à politização no sentido do estabelecimento de campos de exclusão separando o eu que fala de seu inimigo. Essa concepção da política como guerra, quando praticada no campo do discurso, vem sempre acompanhada de farta linguagem pejorativa. Só nesta curta passagem temos “proezas fantásticas” com sabor claramente irônico, “mistificação”, “ilusionismo” e “lulopetismo”. Não é somente o tom vitriólico da overture, que mais faz lembrar um panfleto incendiário de extrema esquerda ou extrema direita, mas também o uso de termos como “lulopetismo”, que foi cunhado com o intuito explicito de ofender e rebaixar tanto Lula quanto o PT. O Wiktionary traz a seguinte definição: “petismo com o culto à personalidade de Luiz Inácio Lula da Silva”. Logo em seguida ilustra o uso do termo com uma citação de Ronaldo Caiado.
    Que os adversários políticos de Lula e do PT façam isso é de se esperar, pois batalhas terminológicas são parte da política inclusive em regimes democráticos. Agora, que a grande mídia se utilize do termo com abandono isso é sinal alarmante do nível elevado de sua politização ou, porque não dizer, de partidarização. O termo não é usado somente por jornalistas militantes do quilate de Augusto Nunes e Merval Pereira, mas também em editoriais dos jornais O Globo e Estado de S. Paulo.
    O editorial do Estadão então prossegue argumentando que a única projeção no cenário internacional de verdade que o “lulopetismo” logrou foi fazer do escândalo de corrupção da Petrobrás o “segundo maior esquema de desvio criminoso de recursos públicos do mundo”, segundo pesquisa divulgada pela “ONG Transparência Internacional”. Mantendo o tom de agressão, o texto segue dizendo que o “escândalo do petróleo” é “emblemático da corrupção generalizada que, hoje se sabe, tomou conta da administração federal a partir da determinação de Lula e sua tigrada de viabilizar, fosse como fosse, o projeto de perpetuação do PT no poder”; e que o “grande legado” de Lula foi “a inoculação da administração com o vírus da maracutaia”. Novamente uma enxurrada de termos pejorativos, agora acolchoando a tese de que foram Lula e o PT que criaram a corrupção na administração pública em nosso país. Tal tese não resiste ao exame mais superficial da história recente do Brasil, ou mesmo ao estudo dos autos das Operações Lava Jato e Zelotes, nos quais, só para citar um exemplo, Aécio Neves já foi citado por três delatores diferentes como receptor de propinas milionárias, isso sem falar do ex-presidente de seu partido, o PSDB, Sérgio Guerra. Ora, é compreensível que uma pessoa mistificada pela ignorância possa aderir a tal tese, mas um editor de grande jornal, com o conhecimento que essa posição exige, adotá-la dessa maneira é sinal inequívoco da conversão da prática jornalística em instrumento de ação política.
    Mas o pior ainda está por vir. Lá pelo meio do texto, o editor do Estadão volta com a mesma referência do início: “Mas é preciso levar em conta que a pesquisa feita pela Transparência Internacional …”. Paremos aqui. Ora, para refutar a acusação de que Lula e o PT inventaram a corrupção uma pessoa precisa fazer algum esforço para buscar fontes alternativas de informação ou reavivar sua memória do passado já distante. Mas este editorial contém uma inverdade muito mais flagrante. Ao contrário do que ele afirma duas vezes, a ONG Transparência Internacional (TI), que produz entre outras coisas um índice de percepção da corrupção em cada país, não fez pesquisa alguma, mas sim uma votação em seu site.
    Como quase sempre, o diabo mora nos detalhes, e para saber os detalhes é preciso investigar, coisa que a grande mídia nacional se privou de fazer neste caso. A diferença entre pesquisa e votação é grande. Só para nos atermos à TI, seu Índice de Percepção da Corrupção tem como base outros índices elaborados por instituições que ela, TI, considera idôneas. Tais instituições elaboram seus índices baseadas na opinião de experts, por meio de procedimentos que o site da própria TI não esclarece. Mas a notícia alardeada não tem nada a ver com o índice. Ela é produto de uma nova iniciativa da TI chamada Unmask the Corrupt, dentro da qual a ONG decidiu fazer uma votação aberta aos internautas dos maiores casos de corrupção no mundo, com um pequeno detalhe, a própria TI forneceu a lista de 15 casos para serem votados, como me informou uma de suas funcionárias. Dos 15 casos escolhidos pela TI só o Escândalo da Petrobrás era brasileiro, os outros todos de países tão díspares quanto EUA, Ucrânia, Angola, Líbano e Guiné Equatorial.
    A essa altura do campeonato o leitor mais crítico começa a duvidar dos motivos não somente da mídia nacional, mas também da Transparência Internacional. Como uma ONG cujo principal capital deve ser a credibilidade faz uma votação desse tipo? Qual o significado possível do resultado dessa votação? Ora, até as pedras do chão sabem que pouquíssimos internautas teriam conhecimento de todos esses casos de corrupção. Não existe uma aldeia global de internautas com informação total. Pelo contrário, o internauta tende a conhecer muito mais o que acontece em seu país do que em outros países do mundo, particularmente notícias de corrupção, que são geralmente matéria de política nacional. Da lista da TI somente dois casos atraíram cobertura internacional, o da FIFA e do vice-presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, que recebeu intensa cobertura da mídia internacional em língua inglesa devido aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos no país. Isso, juntamente com o fato da Ucrânia ter uma população grande (45 milhões de habitantes) e estar polarizada politicamente explica o caso Yanukovych ter vencido a votação. Mas como explicar o segundo lugar da Petrobrás?
    Não é difícil. A cobertura do caso Petrobrás na mídia internacional não é intensa. Ou seja, é muito razoável supor que os votos no caso tenham vindo esmagadoramente de internautas brasileiros. Agora, a comparação entre as nações-sede dos casos já explica quase tudo. De um lado Brasil, mais de 200 milhões de habitantes, quinto país no mundo em número de usuários de internet (à frente de Rússia, Alemanha, França e Reino Unido) de outro Portugal, República Dominicana, Tunísia, Angola, Chechênia, Líbano, Panamá, Egito, Mianmar, Guiné Equatorial e Ucrânia. Como seria possível que internautas desses países, muitos deles extremamente pobres e carentes no acesso à internet, poderiam competir com os internautas brasileiros em tal votação? Os dois casos corrupção escolhidos pela TI em países mais populosos que o Brasil são o de uma companhia pública na China e outro do estado do Delaware nos EUA. Mas estes também não são competição. A China restringe fortemente o acesso de seus cidadãos à internet. Já o caso norte-americano diz respeito a um estado nanico cujo caso de corrupção teve pouquíssima reverberação pública e política. Em suma, nessa competição da infâmia, as cartas pareciam marcadas para o Brasil vencer. Não foi dessa vez, contudo, mas ficou com um honroso segundo lugar.
    Há algo mais a se dizer sobre a falta de propósito e a distorção dos resultados produzidos pela votação da TI. Em contextos altamente politizados, como os do Brasil atual, EUA, Ucrânia e tantos outros países, a internet reflete ou mesmo intensifica a radicalização encontrada na política. Pesquisas sobre temas nas redes sociais feitas durante o período eleitoral e durante as manifestações de 2013 mostraram a existência clara de pelo menos dois grandes grupos de internautas que trocam informações endogenamente: um petistófilo e outro tucanófilo, ou seria melhor dizer Petistófobo, pois se define mais pelo ódio ao PT do que pela adesão imediata ao PSDB. Mas se a TI coloca em votação somente o “escândalo da Petrobrás”, então os 11900 eleitores brasileiros que votaram nele eram provavelmente em sua esmagadora maioria do campo petistófobo. Em outras palavras, um internauta petistófilo não teria incentivos para votar particularmente porque a TI sequer listou o Mensalão Tucano, ou o Trensalão, ou a Privataria Tucana, etc. Em suma, o que revela essa votação? Que internautas petistófobos curtem o site da TI.
    Não obstante o parco valor da votação promovida pela TI, a grande mídia brasileira noticiou em massa. Deu no Valor Econômico, na Folha de S. Paulo, no Estadão (matéria e editorial), no Jornal Hoje e no Jornal Nacional. Nenhum desses meios cometeu o abuso de tomar votação por pesquisa, como fez o editorial do Estadão, mas todos noticiaram essa eleição mal-ajambrada, para dizer o mínimo, da Transparência Internacional como uma notícia relevante. O Jornal Nacional deu o tom. Afetando uma seriedade de personagem de dramalhão mexicano, William Bonner abre a edição do dia 10 de fevereiro com as seguintes palavras: “Nesta quarta-feira (10), a imagem da empresa que já foi orgulho brasileiro se transformou em cinzas. O mundo conheceu o resultado de uma enquete que a ONG Transparência Internacional organizou na internet”.
    A grande mídia nacional e algumas de suas fontes reclamam para si credibilidade. Contudo, o que entregam na prática é um produto opaco contaminado de distorções e inverdades. Até quando a democracia brasileira vai suportar essa empulhação?

    Por João Feres Júnior.

  • Crack, Haddad e o jornalismo multimídia da Folha de S. Paulo

    Infelizmente, a campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo já começou, pelo menos nas páginas da Folha de S. Paulo. O tratamento intensamente desfavorável do Governo, de Dilma Rousseff e do PT continuam depois da eleição, como revelam as análises do período pós-eleitoral recentemente publicadas pelo MANCHETÔMETRO (http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/). Mas o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, provável candidato à reeleição pelo PT, vai se tornando alvo preferencial de práticas jornalísticas para lá de questionáveis por parte da Folha.

    “4 em cada 10 desistem de ação anticrack de Haddad”. Esta é a manchete do caderno Cotidiano do jornal paulista de 17/05/2015. Ela foi publicada tanto na versão impressa do jornal quando na virtual, e também contou com divulgação na página oficial da Folha no Facebook. Analisamos aqui de maneira comparativa o conjunto de textos publicados pela Folha nessas três mídias.

    Facebook
    Comecemos pelas redes sociais. O post que aparece na página do jornal no Facebook é muito econômico: um título, uma foto e uma legenda para a foto. O título é ligeiramente diferente daquele do jornal impresso e traz o nome do prefeito: Em SP, 4 em cada 10 desistem de ação anticrack de Haddad. A imagem escolhida para ilustrar o post é bastante comovente: um close-up do rosto consternado de um homem negro, suposto usuário da droga, de olhar perturbado e marejado. Na legenda lê-se: “’Tem que falar pro prefeito resolver essa ‘fita’ aí, senhor’. Olhos baixos, Paulo (nome fictício), 31, reclama”.
    Essa peça econômica de comunicação tenta perpetrar duas ações: mostrar que o programa Braços Abertos da prefeitura de São Paulo é um fracasso e que o prefeito deve ser responsabilizado por esse resultado. Ademais, o discurso direto, a citação, sugere que a frase foi dita pelo homem anônimo da foto.

    Versão digital
    O post do Facebook contém um link que direciona o usuário para a matéria na versão online do jornal, de autoria de Giba Bergamim Jr. e Emilio Sant’Anna. O título é o mesmo da chamada do Facebook. A notícia começa com a frase citada acima. Logo em seguida, o texto informa que Paulo é um dos usuários que deixou o programa devido a problemas de saúde que o impedem de realizar o trabalho de varredor de ruas, que é a contrapartida pelo auxílio financeiro. A reportagem também informa que Paulo revelou ter diminuído o consumo de crack de dez para duas pedras diariamente. Tendo em vista que o programa Braços Abertos se baseia na redução de danos, em que o dependente diminui o consumo gradativamente, conforme revela a própria matéria, seria possível dizer que houve fracasso nesse caso?
    Informa a Folha que, de acordo com a prefeitura, “aqueles que abandonaram a ação migraram para outros tipos de acolhimento ou voltaram para suas famílias. Não se sabe, porém, quantos deles já voltaram às ruas. Especialistas ouvidos pela Folha dizem que o índice de desistência segue o padrão dos demais tratamentos”. Permanece a dúvida, contudo: seria adequado tratar os casos de migração ou de reaproximação familiar como “desistência”? Mas os autores do texto não estão interessados em esclarecer questão tão importante, preferindo retratar todos os casos como abandono.
    A reportagem apresenta então o posicionamento do coordenador de treinamento de agentes da prefeitura, o psiquiatra Dartiu Xavier, em defesa do programa Braços Abertos, que cita programas similares de sucesso em outras metrópoles mundiais. Em contraposição, expõe também a fala do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador do projeto de recuperação oferecido pelo governo estadual, o Recomeço. Tal programa proporciona tratamento antagônico ao programa da prefeitura, priorizando a abstinência e utilizando como um de seus métodos a polêmica internação compulsória, prática condenada pela OMS.
    É interessante notar que apesar de possibilitar que o representante do Governo Estadual apresente sua crítica ao Braços Abertos, os repórteres não exibem dados sobre a eficácia do Recomeço, o que possibilitaria uma comparação mais completa por parte do leitor, ou pelo menos um tratamento mais honesto por parte do jornal.
    A matéria continua a dar detalhes sobre o programa Braços Abertos: segundo a prefeitura, 41 dos dependentes desistentes voltaram para suas famílias e 65 foram afastados em razão de problemas de saúde ou licença maternidade. Ou seja, deixaram o programa mas, a princípio, não se encontram na situação de desamparo em que estavam anteriormente. Se retirarmos esses usuários da lista de “desistentes”, a taxa de abandono do programa cai para 30%; ou, vista de maneira oposta à da Folha: a taxa de eficácia aumenta para 70%. Há ainda outros dados impressionantes que a matéria cita a partir de documento da Prefeitura de São Paulo: algo entre 70% e 80% dos participantes relataram ter reduzido o consumo da droga e a aglomeração de dependentes na Cracolândia diminuiu 80%.
    É interessante notar que na versão digital da reportagem o título ferino acaba se contrastando com o corpo do texto. Enquanto ele repete a dupla acusação de fracasso e culpabilidade de Haddad, o texto em si acaba apontando vários dados da política que podem muito bem ser interpretados de maneira favorável por um leitor de boa vontade. O título declara que o copo está 40% vazio, mas o texto mostra que ele pode estar até 70% cheio, e que o programa está fazendo uma diferença substantiva no tratamento de um problema social de alta complexidade como o consumo de crack.

    Jornal Impresso
    A cobertura no jornal impresso é mais ampla, ocupa a capa do caderno Cotidiano e mais duas páginas internas, B3 e B4. Na capa do caderno a matéria começa em tom bem mais enviesado contra Haddad. A manchete é idêntica à da notícia do site, que cita o nome do prefeito. Logo abaixo lê-se o subtítulo “Desde janeiro do ano passado, 344 de 798 viciados deixaram o Braços Abertos”. Ao lado da manchete, a mesma foto dramática do usuário usada no site e no Facebook. Mas agora a foto traz uma legenda explicativa identificando a pessoa, informação ausente nas outras mídias: “Eduardo Gonzaga, de 34 anos, que tenta abandonar o vício do crack”.
    Mas foquemos ao jogo dos títulos. Se não bastasse a estratégia de apresentação “copo 40% vazio” do título repetido, o subtítulo reprisa a mesma informação, só que com números absolutos “344 de 798”. O autor dessa façanha jornalística, editor ou repórter, deve imaginar que os leitores da Folha não sabem calcular porcentagens. A estratégia de reiteração da retórica “copo 40% vazio”, como que para inculcar pela repetição, é explícita. Abaixo desse conjunto de títulos ainda há um segundo subtítulo, no topo do corpo do texto: “Projeto da prefeitura prevê renda e moradia a usuários; gestão afirma que há migração para outros programas”. Essas seriam informações mais despidas de viés político, mas ao se combinarem à overture que acabamos de descrever elas assumem outra feição. Ora, os dois títulos redundantes e a fotografia dão a entender claramente que o programa não funciona bem e que a culpa é de Haddad. A informação de que os usuários recebem renda e moradia, nesse contexto, adquire o sentido velado de que se trata de um benefício inútil e injusto para pessoas que não merecem; no mínimo um desperdício de dinheiro público.
    O corpo do texto abre com a frase de Paulo, apresentado também como dependente, que vimos no Facebook: “Tem que falar para o prefeito resolver essa fita aí”. Mais uma alusão ao prefeito que acabou de ser citado no título da matéria, o que mostra a insistência no método reiterativo. Há outro detalhe que apreendemos ao comparar as versões da notícia nas diferentes mídias do Grupo Folha, coisa que os leitores raramente fazem. É só na reportagem do jornal que podemos constar que a frase “Tem que falar para o prefeito resolver essa fita aí” não é de autoria do homem da foto, como o post do Facebook faz crer. Apenas aqui fica claro que o homem apresentado na foto não é Paulo, aquele que pede que o prefeito “resolva essa fita”, mas outra pessoa de nome Eduardo Gonzaga, de 34 anos.
    Depois da frase de Paulo, a notícia segue relatando que ele abandonou o programa devido a duas hérnias que não lhe permitiam fazer o trabalho público que é a contrapartida para a ajuda financeira oferecida pelo programa. Em seguida o leitor é informado novamente da taxa e do número absoluto de desistências, mais uma reiteração do enquadramento “40% do copo vazio”. De passagem o texto declara que a prefeitura não tem controle sobre o número de desistentes que “voltaram às ruas”, mais um ponto negativo para o programa.
    A matéria então apresenta o projeto do Governo do Estado, Recomeço, cuja abordagem ao tratamento inclui isolamento em hospitais e comunidades terapêuticas, como antagônico ao Braços Abertos. Para finalizar, à semelhança da matéria do site, o texto da capa do caderno Cotidiano apresenta declarações do coordenador de treinamento de agentes do programa da prefeitura e, logo em seguida, fecha a matéria com as palavras de Ronaldo Laranjeira, coordenador do projeto estadual. Laranjeira diz que o programa da prefeitura não “entende o que é dependência” e que o usuário que permanece nas ruas continua no vício. Assim, diferentemente do texto da internet, que começa com um viés forte contra o prefeito do PT no título e fotografia mas evolui para uma reportagem mais equilibrada sobre o programa, o texto do jornal é enviesado do começo ao fim, começando com ataques e alusões negativas contra Haddad e o programa e fechando com a palavra de um antagonista, nas palavras do próprio jornal, um agente político do PSDB.
    Na página B3 do caderno a notícia toma todo o espaço de texto jornalístico, que ali compete com um enorme anúncio das casas Bahia. A tônica aqui é reportar o que a administração municipal tem a dizer do programa, intenção que se explicita na própria manchete: “Ação na Cracolândia é complexa, diz gestão”. A essa imagem de complexidade, de sabor inegavelmente cético, o subtítulo informa: “Prefeitura afirma que não considera índices de desistência como critério para medir a efetividade do Braços Abertos”. Há aqui o estabelecimento de uma tensão entre as duas páginas, capa e B3. A capa insiste em retratar o índice e o número absoluto de desistências como algo digno de nota, de notícia, para dizer o mínimo, mas este subtítulo informa que a prefeitura pensa diferente.
    No topo da página temos infográficos com os números do Braços Abertos e um mapa da Cracolândia, e o resto da notícia tem tom descritivo e dá espaço para os dados do programa fornecidos pela prefeitura e declarações de seus agentes, ressalva feita ao único subtítulo do texto, no topo dos três parágrafos finais contendo declarações de Dartiu Xavier: “Utopia”. Ao lermos as declarações do psiquiatra, contudo, concluímos que tal subtítulo só pode ser produto de uma interpretação incompetente ou de má fé. Ele declara: “É utópico pensar que vai acabar a Cracolândia. O que podemos é ter medidas para dar a essa população algum alívio para não viver uma situação de tanta miséria e exclusão”. Ou seja, seu argumento é rigorosamente anti-utópico, assim como a filosofia do programa. Onde estaria, portanto, a “Utopia”, grafada entre aspas, em suas declarações?
    Na página B4 o enfoque é outro. Os três quartos superiores da página são tomados por uma grande reportagem com várias fotos intitulada: Cracolândia, 20. Trata-se de uma história da Cracolândia de São Paulo recheada de narrativas de vida individuais de usuários onde a tônica é a marginalidade e a destituição. São crianças e adultos, mães de doze filhos, presidiários, prostitutas, etc.; todos viciados. E nas fotos ilustrativas, todos negros. Trabalhos acadêmicos no Brasil e no exterior já mostraram que a associação do crack com a pobreza não é demograficamente verificável, mas alguns desses trabalhos também relevam que o noticiário na grande mídia tende a privilegiar essa associação. Medir o efeito que notícias desse tipo têm sobre o leitorado majoritariamente branco, de classe média e politicamente conservador da Folha de S. Paulo seria tarefa de um estudo muito interessante de recepção. Como não podemos fazer isso agora, só nos resta imaginar. De qualquer maneira, no que toca a questão política o viés dessas notícias, nos três meios estudados, é claramente contrário à prefeitura de Fernando Haddad.

    Por João Feres Júnior e Luna de Oliveira Sassara

  • Folha padrão Veja: o DNA marrom da mídia brasileira

    É inegável que a cobertura eleitoral do jornal Folha de S. Paulo nas eleições de 2014 foi francamente enviesada contra a candidata Dilma Rousseff e seu partido, o PT. O gráfico de valências contrárias para candidatos, abaixo, não deixa dúvidas.

    Folha

    Dilma foi campeã de chamadas e manchetes negativas por quase todo período de campanha, com exceção de um breve momento quando Marina a ultrapassou levemente, e da última semana do gráfico, 12 a 18 de outubro, penúltima da campanha, quando Aécio pela primeira vez superou Dilma em negativos. Mas o gráfico da última semana da campanha, a que estamos encerrando hoje, mostra uma volta aos padrões anteriores, como podemos ver abaixo:

    Folha semanal 2

    Dilma recebeu 8 chamadas ou manchetes negativas enquanto Aécio ficou com somente 3.

    Como já mostrei em outros textos, esse padrão de viés da Folha fica bem aquém daquele mostrado por seus congêneres, os jornais Estado de S. Paulo e O Globo. Só para ficarmos na cobertura da última semana, o Estadão publicou 32 matérias contrárias a Dilma frente a 8 contrárias a Aécio, somente em suas capas, e O Globo atingiu a marca de 27 a 4, para os respectivos candidatos. Mesmo que possamos argumentar que a proporção de negativos de Dilma em relação a Aécio não é tão diferente assim na Folha, quase 3 (8/3) e no Estado, 4 (32/8), o nível de politização da cobertura é bem desigual. O Globo e o Estadão publicam uma avalanche de notícias negativas, enquanto a Folha é mais parcimoniosa.

    Mas no sábado, véspera da eleição, o jornal paulista radicalizou bruscamente seu comportamento. A manchete lê-se em letras garrafais, acima de uma fotografia enorme que traz Aécio e Dilma apertando as mãos no debate, “Doleiro acusa Lula e Dilma, que fala em terror eleitoral”, com o subtítulo “Ambos sabiam de desvios na Petrobras, diz delator; para Aécio, caso é ‘extremamente grave’”. A Folha dá eco ao “escândalo” noticiado pela revista Veja, que essa semana adiantou em dois dias seu lançamento com claro intuito de produzir impacto eleitoral. A Folha diz ter confirmado o vazamento da informação de que o doleiro tenha citado Lula e Dilma em seu depoimento, ainda que o depoimento seja sigiloso e o próprio advogado do doleiro negue o fato.

    Logo abaixo da manchete vem a chamada “Corrupção e ataques mútuos dão o tom do último debate”. O texto que segue a chamada começa “As acusações de desvios da Petrobrás voltaram à tona…”, e inclui uma citação direta de Aécio Neves dizendo que Dilma patrocinou “a mais sórdida das campanhas”. Logo abaixo, outra chamada parece confirmar a acusação que Aécio faz: “Candidatos usam só 12% do tempo na TV para propostas”.

    O contraste com a Manchete de O Globo é gritante: “Sem ofensas, Dilma e Aécio duelam sobre corrupção”, com o subtítulo “Já nas perguntas de indecisos, candidatos discutiram mais suas propostas”. O resto da capa não é destituído de textos com viés anti-Dilma, mas esse não é bem o tópico aqui. A descrição que segue na capa de O Globo é bem mais fidedigna daquele que parece ter sido na verdade o debate do segundo turno em que mais se falou de políticas públicas e propostas de governo. A Folha, assim, escolheu carregar nas tintas da interpretação do debate, talvez porque achasse que combinaria melhor com o marrom da manchete.

    O caderno eleições do jornal paulista, que concentra as matérias sobre o assunto, é na verdade um grande panfleto sobre o “escândalo da Veja”. Manchete de capa do caderno, quase repetindo a da capa do jornal: “Doleiro acusa Lula e Dilma; PT fala em terrorismo, e Aécio, em caixa dois”. Se não bastasse a mensagem da manchete, seu subtítulo afirma: “Alberto Youssef diz em depoimento que ex-presidente e sua sucessora tinham conhecimento dos desvios da Petrobrás”. Ou seja, o leitor que estive folheando o jornal vai se deparar com quatro títulos dizendo a mesma coisa antes de ler qualquer matéria, duas vezes na manchete de capa e duas vezes na manchete do caderno.

    Essa técnica de massacre jornalístico continua dentro do caderno, com uma matéria tomando mais de metade da página 3, com o título: “Lula sabia de esquema desde 2005, diz doleiro”. Sim, parece inacreditável, mas a mesma informação é repetida aqui em letras garrafais pela quinta vez. Ao lado da matéria vem um infográfico com o suposto esquema e uma imagem da capa da revista Veja. No topo da página duas notas, uma dizendo que Lula indicou Paulo Roberto para a Petrobras e outra dizendo que Lula indicou Marcio Fontes de Almeida para o Ministério das Cidades.

    A página quatro contém uma foto enorme de Dilma gesticulando abaixo do título “’Não há nenhuma prova’, diz Dilma”. A matéria que segue narra a resposta do PT e de Dilma às acusações da Veja. Ladeando a fotografia de Dilma, do lado direito, há uma matéria de igual tamanho na qual a Folha se presta a ouvir o “outro lado”, ou seja, a própria revista Veja, defendendo, obviamente, a lisura total de seu comportamento, sem em nome da defesa da verdade e da livre expressão. Abaixo da foto há uma notícia com foto de Aécio acusando o PT de caixa dois na campanha e de tentar silenciar a mídia.

    Somente uma matéria toma toda a página 5 e ela centra na questão dos ataques nas campanhas. Um dos subtítulos diz que enquanto Aécio manteve a proporção do primeiro turno, Dilma dobrou o “espaço de acusações”. A página seguinte é dominada pelo título “Corrupção e troca de acusações pautam último debate”. O restante do caderno é ocupado com matérias descritivas, sem o viés patente descrito até aqui.

    Impressiona a quantidade de páginas e títulos que a Folha dedica nessa edição a uma notícia que tem quase nenhum conteúdo, a suposta acusação não adiciona quase nada ao que já tinha sido narrado exaustivamente em matérias das semanas passadas, e advém de fonte muito suspeita: o doleiro condenado, cujo depoimento é sigiloso. Ao invés de assumir uma postura prudente e cuidadosa frente a uma informação dúbia mas gravíssima, com potencial efeito eleitoral, a editoria do jornal prefere alardear em tom panfletário as acusações. Age como a revista Veja.

    A nota cômica dessa cobertura que a Folha faz do “Escândalo da Veja”, é uma pequena matéria incrustrada na página 3 do Caderno Eleições na qual a Folha se digna a noticiar um não fato: “Jornal Nacional não menciona reportagem”. Como se cobrando do seu congênere televisivo a adesão à campanha iniciada por Veja. O texto só poderia repetir o título, pois é difícil qualificar o que já não existiu.

    A cobertura que a grande mídia fez da campanha de 2014 é um retrato de sua posição hoje na sociedade brasileira. Ao invés de cumprir a função de sustentáculo da formação da opinião pública democrática, nossa mídia expressa interesses partidários mesquinhos por meio da distorção das matérias e da escolha discriminatória do que é noticiado. A fabricação de escândalos tem marcado a cobertura eleitoral desde 2006, mas essa tentativa de produzir uma “bala de prata”, jargão de gosto horripilante, inclusive com a antecipação da publicação de revista e a manipulação editorial de notícias, como vemos agora na Folha, para produzir grande efeito, dá um tom deprimente a algo que já era bem ruim.

    Enquanto escrevia essa matéria meu iPad acendeu anunciando a chegada a edição da Folha. A mensagem escolhida pelo jornal para anunciar a edição de sábado não podia ser outra: Lula sabia de esquema na Petrobras desde 2005, diz doleiro”, seguida da singela frase “leia mais na Folha de hoje”. Sonho com o dia em que esse tipo de prática não mais ocorra em meu país.

  • A renovação na Câmara dos Deputados II

    São naturais as expectativas quanto à renovação do quadro de deputados representantes das unidades federadas na capital do País. Dessa taxa depende, conforme a doutrina ortodoxa, a oxigenação e aperfeiçoamento da atividade política. Sem dúvida, o que costuma ocorrer são modificações no tamanho das bancadas dos partidos e, conseqüentemente, o valor de sua participação nas coalizões parlamentares a serem formadas.

    As taxas históricas de renovação na Câmara de Deputados, do mesmo modo que nas Assembléias estaduais, são razoáveis, em torno de um terço daqueles que se candidatam à reeleição. É importante distinguir a renovação compulsória, isto é, novos nomes, derivada de desistência dos atuais deputados a novo mandato. Obrigatoriamente, nomes não constantes da atual lista dos 513 representantes terão de aparecer. Do mesmo modo, deputados da legislatura que acaba podem preferir concorrer a posto diferente, diminuindo na mesma quantidade e proporção a lista de novos nomes na próxima legislatura, comprada com a atual. A rigor, só podemos assegurar que na lista de novos nomes que integrarão a futura Câmara haverá uma proporção relativa àqueles que, componentes da atual, se recandidatem e sejam derrotados. Esta é a renovação líquida da Câmara dos Deputados produzida pela escolha livre do eleitorado. Não podemos identificar qual o recém-eleito o foi como substituto de algum derrotado, mas sabemos quem são os que reapresentam para um novo mandato e, entre estes, aqueles que forem derrotados. Por ora, contudo, já é possível medir a taxa de renovação “compulsória”, isto é, o número daqueles que estarão preenchendo o número de lugares dos que desistiram da política e aqueles que se candidataram a outro posto político.

    De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, 38 dos atuais legisladores (7,4%) não concorrerão a nenhum mandato político nas eleições de 2014, 77 (15%) deles concorrerão a outros postos e, portanto, teremos 398 (77,6%) buscando a reeleição. Assim, a renovação compulsória, isto é, o número de novos nomes na legislatura que vem em decorrência de algum modo de abandono da posição será igual a 22,4% (15% de concurso para outros postos + 7,4% de retirada da atividade política)´, ou seja, 115 novos nomes da próxima legislatura estarão substituindo igual número de representantes que, voluntariamente, abdicaram desta competição.

    A medida da renovação não voluntária, ocorrida em função de escolha do eleitorado, é simples de estabelecer: número de derrotados/ números de candidatos à reeleição (398). Falta-nos, portanto, somente o numerador desta fração, que será conhecido nos primeiros dias da próxima semana. Faremos , então, o cálculo, só para ficar estabelecido o tamanho total da bancada de que se espera oxigenação e produtividade da legislatura que virá.

    72h depois das eleições

    Dos 389 candidatos a reeleição, 119 terminaram derrotados. A renovação líquida, descontadas as caras novas nos lugares dos que desistiram da atividade e dos que se candidataram a outros postos, se calcula assim: 119/398 = 29,9%. Esse é um número bem menor do que as reportagens veiculam, explicável pelo procedimento aqui adotado de subtrair do total de caras novas um número igual ao dos desistentes da atividade e dos que se candidataram a outro posto. Historicamente, é uma das menores taxas de renovação líquida depois da redemocratização. Há várias linhas de reflexão abertas nesse tipo de abordagem. Menciono somente um: qualquer proposta de reforma política por via parlamentar, tratando-se de uma assembléia exclusiva ou não, terá de contar com um parlamento mais ou menos como o atual e o que virá em 2015. Exceto se for permitido importar candidatos da Finlândia ou Islândia, e que os políticos brasileiros, como os analfabetos do País, só tenham direito a votar, não de serem votados.

  • OMBUDSMAN DA FOLHA ENTREVISTA O MANCHETÔMETRO, MAS NÃO CITA

    No dia 5 de outubro, dia da eleição, a ombudsman da Folha de S. Paulo publicou artigo com um estudo de valências das matérias publicadas na Folha a partir da escolha de Marina para concorrer à presidência na chapa do PSB. Tudo muito parecido com o que fazemos no MANCHETÔMETRO. Ninguém tem monopólio sobre a metodologia da análise de valências, que já foi testada no Brasil e no exterior, mas o artigo deixa de fazer referência a uma longa entrevista que dei à jornalista dias antes da publicação do estudo, que versou exatamente sobre esse assunto.
    No dia 30 de setembro chegou ao e-mail institucional do MANCHETÔMETRO mensagem de um preposto da ombudsman da Folha de S. Paulo, Vera Guimarães Martins, pedindo uma entrevista com o coordenador do site, esse que vos escreve, para “uma conversa sobre os critérios do estudo, a ser discutido na coluna desta semana”. Achei o método de comunicação um pouco estranho. No passado já havia trocado mensagens com a então ombudsman do jornal, Suzana Singer, sem que para isso fosse necessário o uso de intermediários. Pensei com meus botões: por que será que ela não me escreve diretamente? De qualquer forma, aceitei o convite, marcando para terça-feira à tarde uma conversa por telefone.
    No começo da entrevista ouvi ao fundo a voz da jornalista falar para uma outra pessoa ao lado uma frase que soou parcialmente ininteligível, mas na qual discerni a palavra “gravação”. Ato contínuo pedi a ela para que, se estivesse gravando, me enviasse uma cópia da entrevista, o que ela concordou em fazer. A conversa começou em tom cordial. Ela começou me dizendo que queria saber mais sobre a metodologia do MANCHETÔMETRO. Eu graciosamente descrevi como funciona nosso trabalho: uma análise de valência, ou sentimento (como dizem alguns autores), feita por meio da codificação manual dos textos, e com 3 níveis hierárquicos de checagem para dirimir dúvidas interpretativas. Ela me respondeu que era fácil determinar quando um texto era favorável ou contrário a um candidato ou partido. A conversa continuou, com mais explicações minhas quanto aos critérios de atribuição de valência que utilizamos.
    A uma certa altura, interrompi as explicações para perguntar à jornalista se seu objetivo na matéria era usar nosso trabalho para fazer uma autocrítica do jornal ou criticar o MANCHETÔMETRO. Eu disse a ela que minha impressão, baseada na leitura de sua coluna eventualmente e em troca de mensagens com a titular anterior, era de que o Ombudsman funcionava muito mais como um advogado do jornal frente ao público do que o contrário, que seria sua tarefa autoatribuída. Ela respondeu que era comum o Ombudsman ser acusado de tomar o partido do jornal, mas que sua intenção era usar o MANCHETÔMETRO como um instrumento de ajuda na avaliação da cobertura da Folha.
    Em seguida, passei a mostrar à jornalista que nossos resultados apontam para diferenças nas coberturas dos diferentes meios pesquisados, ainda que todos revelem um viés anti-Dilma e anti-PT. Disse até que o viés da Folha é menor, se comparado aos de Estadão e O Globo. Ela respondeu que tinha dúvida se o “viés era anti-Dilma ou se o viés era anti-governo”. Eu alegremente redargui que foi exatamente para responder essa dúvida que fizemos a análise comparando os pleitos de 1998 e de 2014. Ora, naquela eleição o candidato da situação, Fernando Henrique Cardoso, concorria à reeleição. Havia uma terceira força, Ciro Gomes, e o embate principal era entre PT e PSDB, como também por boa parte do atual processo eleitoral. Os resultados narrados por mim são sintetizados no gráfico abaixo, que se encontra em nossa página http://www.manchetometro.com.br/analises-1998/analises98-jornais/:

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    Como mostram os dados, a cobertura de 1998 na Folha foi amplamente favorável ao candidato da situação, contrariando a tese da Ombudsman da Folha de S. Paulo. FHC teve uma taxa de contrários sobre neutros de menos de 23%, ou seja, menos de 1:3. Lula, seu principal adversário, teve quase 92%, isto é, praticamente uma notícia negativa para cada neutra. Proporcionalmente, Lula teve cobertura quatro vezes mais negativa do que seu contendor da situação. FHC ainda teve uma taxa de 40% de favoráveis sobre neutros, enquanto Lula amargou 17%. Dilma, esse ano em posição análoga a FHC no pleito de 1998, tem uma taxa de praticamente 50% de contrários sobre neutros, o dobro de FHC, e 1,7 % de favoráveis sobre neutros, quase 23 vezes menor que a do candidato tucano e então presidente do Brasil.
    Ao ouvir esses dados, a Ombudsman engasgou. A voz ficou um pouco titubeante. Mas ela logo se saiu com o argumento de que há outros fatores que devem ser levados em conta, particularmente o “desgaste natural do poder, que sempre tem”. Eu respondi que o PSDB estava em 1998 há 8 anos no poder, e ela objetou que a “Dilma está há doze”. Eu disse que não era tão diferente, mas ela insistiu que era 50% a mais.
    Apontei então para o caráter precário do novo argumento, pois ou o jornal tem uma predisposição contra a situação razoavelmente constante, tese que foi refutada com a análise de 1998, ou há um tempo a partir do qual o desgaste do partido no poder leva a um aumento do nível crítico da cobertura. Não dá para ser as duas coisas ao mesmo tempo. Pois se o argumento da ombudsman sugere que acontece algo mágico entre 8 e 12 anos, e o jornal passa do tom laudatório, como fez com FHC em 1998, à crítica acerba, então isso não se verificou com o PT. Basta tomar o pleito de 2010 como exemplo, pois nessa ocasião o PT acumulava 8 anos na presidência, isto é, como o PSDB em 1998. Não disponibilizamos ainda esse estudo no site do MANCHETÔMETRO, mas reproduzo abaixo gráfico com a cobertura dos candidatos na Folha de S. Paulo em 2010:

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    Como se pode ver, o desequilíbrio contrário a Dilma e ao PT em 2010 é muito similar àquele que verificamos atualmente. A proporção de contrários sobre neutros nas capas da Folha foi de 57% para a candidata do PT e de menos de 40% para Serra, naquele pleito. Em suma, não é o desgaste temporal da situação que explica o comportamento enviesado do jornal.
    No seu Manchetômetro do B, publicado na edição impressa de domingo (5/10/14), a ombudsman constata o viés contrário à Dilma e ao PT, campeões de negativas na primeira página, em manchetes e nas reportagens internas, tanto em números absolutos como em comparação a outros candidatos e partidos. Mas no texto que circunda os gráficos ela tenta justificar esse fato. O argumento principal apresentado por ela é que a Folha de S. Paulo cumpre o papel de contrapoder, ou seja, que o desequilíbrio da cobertura não é viés contra o PT. Literalmente, ela diz que Dilma é mais “fustigada” porque ocupa o “cargo mais alto do país”. Isso é um pouco surpreendente, pois eu já havia mostrado à jornalista que a análise do pleito de 1998 joga essa tese por água abaixo. A tal ideia ela adiciona algo que não havia dito a mim na entrevista: que as críticas desproporcionais devem-se a “índices econômicos ruins”, pois, ela lembra o leitor: “a economia é item de primeira necessidade no noticiário”.
    Mais uma vez um argumento que não tem suporte na realidade dos fatos. Voltemos à eleição de 1998. Usando o poder racional da inferência, podemos concluir que, se a tese da economia se verifica, uma vez que a situação de reeleição está presente, então o tratamento favorável dado a FHC deve ser atribuído à melhor situação econômica daquele momento, se comparado ao atual. Tal inferência, contudo é falsa. Vejamos os números das principais variáveis da economia.
    De fato, a inflação no IPCA em 1998, 1,65%, foi menor do que a prevista para o ano corrente, de 6,3%, ainda que essa esteja dentro do teto da meta. Mas todos as outras variáveis econômicas são desfavoráveis a 1998, em comparação a 2014. A taxa de desemprego nas regiões metropolitanas era de 18,6% e agora caiu para 10,8%. O crescimento econômico foi 0% naquele ano, e esse ano a previsão é de 0,9% – baixo, mas ainda assim superior à estagnação completa de 1998. A taxa de juros básica da economia flutuou intensamente em 1998 chegando a atingir 49,7%, enquanto que em 2014 ela variou de 10% a 11% ao longo do ano. Eram necessários 6,5 salários mínimos na época para se manter uma família de 4 pessoas, segundo cálculo do DIEESE. Hoje esse índice é de 3,9 salários mínimos.
    Em suma, se a tese dos “índices econômicos ruins” vigorasse, FHC teria sido alvo de uma cobertura muito mais negativa em 1998 por parte da Folha, mas não foi.
    Não pude, contudo, demonstrar a inadequação desse argumento econômico pois ele não foi usado durante a entrevista. Na verdade, ao ter suas duas teses principais refutadas, a do contrapoder e do desgaste no poder, a ombudsman começou a ficar um pouco desconfortável. Percebendo isso, resolvi assumir eu o papel de entrevistador. Pedi a ela que lembra-se das capas da Folha de S. Paulo dos últimos três dias. A de 30/07 foi: “Com Dilma em alta, bolsa tem a maior queda em 3 anos”. A jornalista concordou que era negativa para Dilma. A do dia anterior, 29/07, era “Dilma não cumpriu 43% das promessas de 2010”. E a do dia 28/07, abaixo da fotografia de Dilma lia-se “PF investiga ligação entre tesoureiro do PT e doleiro preso”. Foi aí, frente a brutalidade desses fatos, que arrematei com as seguintes sentenças: “3 manchetes em seguida, um dia após o outro, todas contrárias à campanha de Dilma. Nós estamos no final de uma campanha política. Não é possível que você trabalhe nesse jornal e não tenha noção disso, sendo ombudsman do jornal.”
    Ao invés de responder, contudo, a jornalista passou a reclamar que eu estava assumindo um tom acusatório nos meus argumentos, sendo que o objetivo dela era somente se informar sobre as atividades do MANCHETÔMETRO e talvez citar o trabalho em sua coluna, que saiu no dia 5/10, dia da eleição com um trabalho em tudo igual ao que fazemos. Eu disse que estava respondendo às suas questões, mas ela novamente reclamou de meu tom e disse que achava melhor não publicar qualquer referência ao MANCHETÔMETRO.
    O MANCHETÔMETRO nunca foi citado em qualquer dos meios que estuda: Estado de S. Paulo, O Globo, Folha ou Jornal Nacional. Não esperamos tratamento diferente desses órgãos de imprensa, uma vez que nosso trabalho revela uma intensa politização da cobertura que fazem das eleições, a despeito de sua retórica de neutralidade e profissionalismo jornalístico. Não me surpreende o fato de o texto da Ombudsman ser mais uma tentativa de advogar pelo jornal, e não pelo leitor ou pelo público, que é a maneira como essa função é propagandeada pela própria Folha. O que deve ser apontado é a incapacidade da ombudsman, seja na entrevista ou em sua coluna, de responder às questões muito objetivas que lhe foram colocadas: como explicar a tese do contrapoder frente ao viés da cobertura de 1998? Como adotar a tese do desgaste temporal da situação se a cobertura da própria Folha a refuta? Como argumentar que é o contexto econômico que explica o viés se em 1998 a economia estava muito pior do que agora? E por fim, cara ombudman, como o jornal pode publicar 3 manchetes de capa negativas seguidas contra um só candidato e isso não se tornar assunto em suas colunas?

  • Estratégias editoriais na cobertura eleitoral

    Os gráficos de série temporal que utilizam as semanas como unidade de medida, recentemente adicionados a várias das páginas do MANCHETÔMETRO, começam a revelar detalhes da estratégia editorial dos meios de comunicação antes somente vislumbradas pelos gráficos de dados agregados. Vamos a elas.

    A COBERTURA NEGATIVA

    A série temporal semanal de valências contrárias aos candidatos (gráfico abaixo) revela algo já bem peculiar. Os dados agregados já mostravam a liderança inconteste de Dilma nos textos negativos. Mas o gráfico semanal permite ver que Marina Silva superou a candidata do PT nesse quesito no período que vai de sua indicação à cabeça de chapa do PSB, 23 de agosto, até a primeira semana de setembro. Na verdade, logo após a indicação, os negativos de Dilma têm forte queda e os de Marina forte alta. Mas já na semana de 24-30 de agosto Dilma volta a subir, paralelamente a Marina, até ultrapassá-la na primeira semana de setembro, atingindo na segunda semana daquele mês o recorde da série toda, que é de 24 notícias negativas nas capas dos jornais. Os negativos de Marina continuaram a cair até atingirem a marca de 3 por semana, na terceira semana de setembro, enquanto Dilma flutuava entre 18 e 19 notícias negativas.

    Série temporal semanal de valências contrárias aos candidatos

    Como podemos interpretar essa evolução? A cobertura negativa dada às duas candidatas ao final de agosto e começo de setembro de fato só poderia beneficiar o outro contendor, Aécio Neves, que nesse período já amargava um terceiro lugar distante nas pesquisas. Ou seja, as mídias ajudaram a reavivar a candidatura do PSDB, investindo na desconstrução de Marina. Mas o foco da cobertura negativa logo voltou a recair exclusivamente sobre Dilma, aliviando a carga sobre a candidata do PSB.

    Seria esse comportamento, revelado nos dados agregados, comum a todos os jornais ou eles se comportaram de modo diferente?

    A segunda resposta é a correta. Quando olhamos para os gráficos de negativas por jornal constatamos que O Globo e Estado de S. Paulo de fato aumentaram as negativas de Marina no período, mas mantiveram Dilma muito acima da candidata do PSB em matéria de textos desfavoráveis nas capas, conforme os gráficos abaixo:

    O Globo – Série temporal semanal de valências contrárias para os três candidatos

    Estado de S. Paulo – Série temporal semanal de valências contrárias para os três candidatos

    A Folha de S. Paulo tem um comportamento diferente, primeiro no que toca ao número total de matérias para cada candidato, muito inferior ao de seus pares. Esse jornal não politizou tanto a cobertura das eleições. Por exemplo, ainda que Dilma seja campeã inconteste de cobertura negativa nos três jornais, enquanto no Estado e no Globo, somente nas capas, os textos negativos de Dilma está na casa dos 30 por semana, na Folha eles variam em torno de 9. Essa desproporção se repete para os outros candidatos, como mostra o gráfico abaixo.

    Folha de S. Paulo – Série temporal semanal de valências contrárias para os três candidatos

    Esse mesmo gráfico revela que a Folha foi o único jornal em que, por um breve período, os negativos de Marina superaram os da candidata da situação, e isso se deu entre a última semana de agosto e a primeira de setembro. Há de se notar também a queda vertiginosa dos negativos de Marina nas semanas que se seguiram, até chegar a zero textos negativos, na semana de 21-27 de setembro. Os outros jornais também diminuíram sensivelmente a cobertura negativa de Marina, mas não chegaram a tanto.

    LENDO AS VALÊNCIAS NEUTRAS

    A série temporal semanal de valências neutras dos candidatos complementa o gráfico anterior. Nela podemos ver que a partir da morte de Eduardo Campos, Marina Silva passa a ser superexposta nas capas dos grande jornais, como podemos ver abaixo no gráfico com dados agregados dos três jornais.

    Série temporal semanal de valências neutras aos candidatos

    Por mais de um mês, seu número de matérias neutras por semana superou o de Dilma em mais de 10. Se levarmos em conta o fato de a campanha de Marina ter uma estrutura partidária precária, se comparada às de PT e PSDB, e ao diminuto tempo de horário eleitora gratuito de sua chapa, é razoável supor que a superexposição proporcionada pela grande mídia foi a principal causa do crescimento vertiginoso das intenções de voto em Marina Silva.

    Novamente cabe perguntar se esse comportamento foi homogêneo ou variou de jornal para jornal. Vejamos os gráficos de neutras abaixo:

    O Globo – Série temporal semanal de valências neutras para os três candidatos

    Estado de S. Paulo – Série temporal semanal de valências neutras para os três candidatos

    Folha de S. Paulo – Série temporal semanal de valências neutras para os três candidatos

    Nesse caso temos um comportamento mais homogêneo. Todos os três jornais superexpuseram Marina a partir da morte de Eduardo Campos, no que toca notícias neutras, passando inclusive os números de Dilma nos três casos, por várias semanas. Há de se notar também a volta de Aécio Neves. O candidato do PSDB havia sido relegado a um “terceiro” plano da cobertura dos jornais paulistas, mas não em O Globo. E essa volta não vem acompanhada de um crescimento expressivo de negativas, como mostram os gráficos anteriores, para sorte da candidatura tucana.

    COBERTURA DA ÚLTIMA SEMANA

    Como o calor da campanha aumentou sensivelmente, vamos atentar com mais detalhes para a cobertura da última semana nos gráficos de neutras e contrárias que seguem abaixo>

    O Globo

    Estado de S. Paulo

    Folha de S. Paulo

    Última atualização: 30/09/2019 às 23:00

    Há pronunciado viés contrário à candidatura do PT nos três meios pesquisados, mas esse viés não se dá de modo homogêneo. O Globo e o Estado apresentam coberturas de perfil idêntico nessa semana. São quase 2,5 textos negativos para Dilma para cada um neutro nas capas desse jornal, no cômputo semanal. Já a Folha traz uma proporção de quase 1:1 para Dilma. É claro que ao compararmos negativos, vemos que a mesma Folha dedicou 12 matérias negativas nas capas para Dilma na semana, quase duas por dia, enquanto Marina recebeu somente uma em todo o período. A mesma desproporção aguda se nota nos outros dois jornais. Outra maneira de analisar comparativamente esses dados é olhar para a proporção interna de cada candidato. Enquanto Dilma tem 1:1 de negativas/neutras na Folha, Marina conta com um confortável 1:4, ou seja, para cada negativa que recebe, há quatro neutras.

    Em suma, ao final da campanha para o primeiro turno, os jornais O Globo e Estado de S. Paulo exibem um viés escancarado e agressivo contra a candidatura do PT. A Folha de S. Paulo também apresenta viés pronunciado contra a mesma candidatura, mas aquém de seus parceiros e/ou competidores.

  • A Cigarra e a formiga

    Como toda boa estória infantil, a velha fábula da Cigarra e da formiga, de Esopo (recontada por La Fontaine), tem um conteúdo moral que permanece no inconsciente. O consumo é visto com uma carga moral negativa. Nas interpretações sobre o processo de desenvolvimento capitalista, em geral, ele tem um papel no máximo tolerado, mas normalmente deplorado. Não se pretende aqui adentrar no pantanoso terreno das motivações psicossociais dos méritos morais da abstinência, moderação em relação ao hedonismo, tão caras a abordagens econômicas de caráter subjetivista e individualista. Pretendo me deter simplesmente na questão macroeconômica, ainda que haja muito a se dizer sobre a forte relação ideológica entre esse julgamento moral e certas prescrições conservadoras de política econômica.

    No terreno da ciência econômica, a discussão teórica do sentido de causalidade das três variáveis – consumo, poupança e investimento – é central para diferenciar as distintas abordagens macroeconômicas. Não caberia no escopo desse artigo o aprofundamento dessa questão, mas é importante anotar que seus ecos, que implicam em decisões de política econômica fundamentais para a vida da população de um país, principalmente os de poder aquisitivo mais baixo, já foram escutados em outra época no Brasil. Durante a ditadura militar ficou famosa a frase delfiniana de que seria “necessário deixar o bolo crescer para depois dividi-lo”. Nessa época o salário dos trabalhadores era utilizado, pela política de estabilização do governo militar como variável de ajuste, ou seja: continham-se os reajustes nominais dos salários para segurar a inflação com impacto negativo sobre o salário real.

    A volta da democracia ocorreu em um período de terrível restrição externa, que teve como consequência a hiperinflação e o baixo crescimento. As políticas neoliberais combinadas, inicialmente, às crises da Ásia e Rússia dos anos que se seguiram à estabilização da economia, garantiram uma limitada recuperação salarial, e não geraram um crescimento sustentado do consumo e nem da renda.

    Finalmente o ciclo virtuoso que se registra a partir de 2004 até 2010, permitiram a elevação do salário dos trabalhadores e especialmente o salário mínimo, objeto da mais importante política distributiva do governo Lula.

    Quarenta anos depois finalmente parecia que o país trilharia um padrão de crescimento mais inclusivo. Nem todo mundo concordou, contudo. Ou concorda. O velho “bolo” da ditadura militar voltou, ainda que desprovido da metáfora culinária. Agora teríamos um “inviável modelo de crescimento puxado pelo consumo”.

    O problema é que o bolo voltou não apenas solado pelos velhos motivos teóricos e ideológicos. Seus ingredientes estão errados. Troca sal por açúcar, fermento por soda cáustica. No período virtuoso de crescimento, entre 2005 e 2010, enquanto o crescimento do consumo foi de 37,7%, o do investimento agregado foi de 73,2%. Praticamente o dobro. Mas as surpresas não param por aí. O investimento agregado se compõe de compra de máquinas e construção de estruturas produtivas e residenciais. Para se ter uma ideia da importância desse último componente, desde 1929 até os dias de hoje na economia norte americana, a construção residencial representou aproximadamente 25% do investimento total.

    E aí que reside, sem trocadilho, o problema no Brasil. Essa taxa elevada de crescimento do investimento brasileiro se deu a despeito de um desempenho relativamente medíocre da construção residencial. Basta dizer que entre 2004 e 2010, justamente o período do ciclo expansivo virtuoso citado anteriormente, a acumulação de capital produtivo cresceu cerca de 80% enquanto a construção civil menos de 30%. Se o leitor permite mais uma estatística, no período de 2005 a 2008, ou seja, eliminado o efeito da crise internacional, enquanto o investimento em máquinas da indústria cresceu a uma taxa média anual superior a 15%, a construção residencial se elevou ao ano a taxa anual média muito inferior, 2,7%.

    Alguém poderia argumentar: mas o investimento não despencou recentemente?

    Sim, mas o consumo também. A taxa média, a cada quatro trimestres em base móvel, do crescimento do consumo privado entre o último trimestre e 2004 e do malfadado primeiro trimestre de 2011, quando o governo resolveu puxar o freio da economia, era de cerca de 4,4%. De lá pra cá caiu à metade desse valor! Em outros termos: por que estariam os empresários aumentando fortemente seu investimento se o consumo doméstico despenca? Para quem venderiam seus produtos? Pra piorar: a economia mundial também não apresenta recentemente um cenário dos mais estimulantes. O comportamento dos empresários não só é racional como tem até um nome na teoria econômica: acelerador do investimento. Este opera nas duas direções: quando a economia como um todo cresce, acelera o investimento, e quando a economia desaquece derruba de forma ainda mais intensa o investimento. No ciclo recente, o Brasil não é nem de longe a jabuticaba.

    A contradição tão flagrante entre dados e interpretação só pode ser reflexo de um forte viés ideológico, ou talvez excesso de La Fontaine na tenra infância. Mas seja qual a origem, resultam em desastre na política econômica. O consumo terá de crescer a taxas maiores frente às registradas recentemente, para que a economia saia de sua atual estagnação — aí incluindo a expansão do crédito ao consumo, que parece carregar uma carga moral ainda mais nefanda que o consumo por expansão de salários. Também há que se acelerar a expansão da construção civil, de resto mais que necessária num país com elevado déficit habitacional. Certamente, dado o baixo nível de renda média do país, programas oficiais, como o Minha Casa Minha Vida, terão papel a desempenhar muito importante. Quanto ao investimento privado em capacidade produtiva, talvez a metáfora cinematográfica mais adequada não seja a “fada Sininho da confiança” que teria faltado, mas que de fato não faltou, aos nossos empresários. Como confirma a longa história do capitalismo, incluindo o recente ciclo expansivo brasileiro, a metáfora correta é o filme Campo dos Sonhos. O investimento em capacidade produtiva virá sem que para isso as camadas menos favorecidas da população tenham que esperar outros 40 anos e não sei lá quantos milagres.

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