11/07/2016 -

O primeiro dia do segundo mandato do governo Dilma e o primeiro dia do governo interino de Michel Temer foram datas carregadas de diagnósticos e expectativas. Como já é de costume, a grande mídia brasileira não somente reportou esse cenário como também reafirmou seu já reiterado papel de arauto dos “rumos da economia” do País. O jornal O Globo publicou, no dia 1º de janeiro de 2015, o editorial “Margem de erro para Dilma ficou estreita” e, no dia 13 de maio de 2016, o editorial, quando da posse de Temer, “Otimismo com o novo tom do Planalto”.

Se o posicionamento do jornal fica evidente a partir da mera oposição dos termos escolhidos para o título de cada um dos editoriais, associando “margem de erro estreita” ao governo Dilma e “otimismo” ao governo Temer, a análise dos textos demonstra a opção deliberada d’O Globo por termos que estabelecem, de um lado, a tempestade para as perspectivas do cenário econômico no segundo mandato de Dilma e, de outro, a bonança para um governo Temer que, já nas suas primeiras semanas, contrariou tais expectativas. No editorial de janeiro de 2015, o jornal enfatiza que a economia do país teria entrado “em coma” antes mesmo do novo mandato de Dilma, indicando que já haveria um “cerco montado ao segundo governo Dilma por erros dela mesma”. Já o editorial de maio de 2016 apresenta o interino como homem de muitos “predicados”, sendo seu “trânsito no Congresso” apenas uma de tantas outras qualidades, além de destacar a opinião de que o primeiro dia de seu governo foi marcado por uma mudança no discurso “e para melhor”.

Reforçando o viés político do editorial, não faltaram referências a termos pejorativos como “lulopetismo” e “hostes petistas”. O editor ousou até mesmo escrever que quanto menos presente a cor vermelha no Planalto, mais este seria “condizente com os ares de um palácio de governo”.

O texto dos editoriais desnuda, ainda, a opção do jornal por políticas econômicas específicas, alinhadas com o que a economista Laura Carvalho define como “agenda Fiesp”, que atende melhor aos interesses do empresariado e do mercado financeiro ao priorizar medidas como desvalorização do câmbio,  redução de impostos e ajuste fiscal. Note-se, nesse sentido, a ênfase dada pelo editorial de 2015 ao “esgotamento do ciclo de incentivo preferencial ao consumo” (política econômica que marcou os dois governos Lula e alavancou o crescimento econômico do país no período) e o destaque do editorial de 2016 à fala de Temer sobre a “necessidade de se melhorar o ambiente de negócios no País”.

Ocorre que, ao apresentar dados do Relatório Focus, o editorial do jornal O Globo sobre o início do segundo mandato de Dilma deixa de informar o leitor que esses números decorrem da própria tentativa da presidenta de atender às demandas da agenda Fiesp, já nos primeiros anos de seu governo. Exemplo disso é a notória contração fiscal observada entre os anos 2011 e 2015 (conforme apresentado em estudo do Ibre/FGV de dezembro de 2015) e as consequências preocupantes para as contas da União da concessão de benefícios fiscais a empresas. Além disso, a própria utilização do Relatório Focus como fonte primária de dados para definir os “rumos da economia” do país deve ser questionada. Trata-se de um conjunto de expectativas geradas pelo mercado financeiro e para o mercado financeiro, sem falar que o próprio Banco Central, nos documentos publicados por seu Departamento de Relacionamento com Investidores e Estudos Especiais (Gerin), destaca que os dados apresentados pelo Focus não restringem as ações de política monetária e cambial do BC.

Devemos atentar, contudo, para o desequilíbrio das abordagens em cada caso. Enquanto que para diagnosticar e prognosticar o desastre do novo governo Dilma sobram números, a análise das perspectivas para o “novo tom do Planalto” sob Temer se limita a interpretar as boas intenções no discurso do interino. As críticas à administração de Dilma são contumazes mesmo quando se trata de um ato da Presidenta alinhado com a posição do editorial. A nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, por exemplo, que poderia representar uma boa escolha de Dilma de acordo com aquilo que O Globo considera como política econômica ideal, é logo ponderada pelo editorial em face do caos econômico desenhado ao longo do texto – “foi um alento, mas não significa que se espere um ano fácil”.

Em nenhum momento esse tipo de ponderação aparece em relação às perspectivas para o governo Temer. O editorial de maio parece deixar muito claro que o presidente em exercício estaria plenamente apto à missão honrosa de “pacificar e unificar o Brasil”, superando as dificuldades políticas e econômicas deixadas pela administração petista e tendo como único obstáculo a “guerra” que Dilma e o lulopetismo prometem fazer contra seu governo. Tamanha é a aposta no sucesso do novo governo que, em contraste com a ideia defendida em 2015 de que “nenhuma política social sobrevive a uma crise com as características e nas dimensões da que está emergindo no Brasil”, o editorial do último mês de maio enalteceu o aparente compromisso de Temer em manter os programas sociais de seus antecessores. Sem qualquer crítica à uma proposta que o jornal havia atribuído às “hostes petistas” no ano passado, o editorial “Otimismo com o novo tom do Planalto” destaca, em contraponto às supostas ambições de Dilma e do lulopetismo de guerrear contra o governo Temer, que o presidente interino “foi direto ao garantir a manutenção dos programas sociais”. Ora, o que mudou em pouco mais de um ano? A capacidade do país de sustentar programas sociais em meio a crise ou simplesmente a voz que os anuncia no Planalto?

Entre dois pesos e tantas medidas para legitimar a “solução Temer”, os editoriais d’O Globo não surpreendem ao sacrificar a coerência para sustentar um viés velado, pouco transparente perante o leitor. Se o otimismo com o projeto de política econômica de Temer vem assentado no que seria a capacidade do presidente interino de restabelecer a tão sonhada “confiança do mercado”, cabe ao leitor desconfiar daqueles que anunciam que tudo vai “mudar para melhor” quando o que se vê de fato é apenas uma mudança: um Presidente não eleito substituindo uma Presidenta afastada por um processo de impeachment que se torna mais questionável a cada dia.