29/08/2018 -

Afonso de Albuquerque é professor do Departamento de Estudos Culturais e de Mídia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do CNPq desde 1998, atua principalmente nas áreas de Comunicação Política, Jornalismo e Comunicação Comparada, nas quais publicou diversos artigos em revistas nacionais e internacionais de referência.

No dia 25 de abril de 2018, conversou com o Manchetômetro sobre a relação entre a atuação da mídia e a democracia no Brasil atual.

  1. Você já colaborou com Daniel Hallin e Paolo Mancini, autores famosos pelo estudo comparativo de sistemas de mídia.[1] Como vê o sistema de mídia brasileiro e de que maneira ele se compara aos sistemas de outros países no que toca a questão da democracia?

Afonso de Albuquerque: A primeira questão, talvez, diga respeito à universalidade do conceito de sistema. É um conceito que surge para dar conta da realidade dos países da Europa Ocidental, em primeiro lugar, dos Estados Unidos e do Ocidente de maneira geral, porque pressupõe certas condições de estabilidade. Então, quando o Hallin e o Mancini escreveram o livro, eles estavam pensando em um mundo no qual as coisas pareciam estáveis há muito tempo, a organização política parecia estável há muito tempo, o que, de alguma forma, foi desafiado. Eu acho que a ideia de estabilidade não se aplica fora do Ocidente e, nesse sentido, a ideia de sistema também não se aplica muito. Quando as pessoas tentam reproduzir o modelo em outras partes – inclusive o meu próprio texto fez isso –, é muito mais um arremedo do que uma boa solução. No livro, uma pessoa que faz uma proposta diferente, que eu acho interessante, é a Natalia Roudakova, que vai discutir a ideia em termos de processos. Então, é importante equilibrar o conceito de sistema com o conceito de processo.

No caso do Brasil, eu acho que, juntamente com outros países da América Latina, o sistema midiático ­– o que se chama de sistema midiático brasileiro – e a relação entre mídia e política no Brasil tem muito a ver com a condição periférica do país. Isso é um ponto que, de alguma forma, tentei explorar no texto do livro e tentei posteriormente explorar em outros textos, a ideia de que é impossível conceber esses modos de organização da mídia sem considerar a relação subordinada que o Brasil apresenta.

Recentemente fui chamado para escrever um verbete – na verdade é um capítulo de 1.000 palavras – para uma enciclopédia de comunicação da Oxford sobre o conceito de paralelismo político. Foi já aprovado e deve sair esse ano ainda e divulgado online. Nesse texto discuto como o conceito de paralelismo político, como muitos conceitos que geralmente são tratados como universais, assim como o de sistema, na verdade surgiu pra explicar um contexto muito particular da Europa Ocidental, mas mesmo lá ele já não tem aplicabilidade tão clara. Eu acho que o conceito de sistema não tem aplicabilidade tão clara no contexto original para o qual ele foi desenvolvido, porque nesses países também a ordem está sendo, de alguma forma, desafiada por novas circunstâncias.

O conceito de paralelismo político é pensado a partir da ideia de que paralelismo é uma metáfora geométrica, portanto, matemática, e, portanto, requer precisão. Então, o paralelismo político pressupõe a relação consideravelmente precisa entre meios de comunicação e forças políticas. Em segundo lugar, pressupõe que a mídia ecoa posições das forças políticas e não o contrário. No caso brasileiro, uma das características é que, diante da insuficiência dos partidos políticos de assumir o protagonismo nesse contexto, os meios de comunicação de massa ocupam um lugar mais importante.

 

  1. Em seu último artigo publicado – Protecting democracy or conspiring against it? Media and politics in Latin America: a glimpse from Brazil (2017) – você argumentou que a imprensa tem conspirado contra a ordem democrática. Não foi a primeira vez que você apontou esta possibilidade (Albuquerque, 2016). Como isso acontece no Brasil? Qual foi o papel da imprensa no processo recente de ruptura democrática?

 

Afonso de Albuquerque: Mais uma vez não estamos falando de um processo que acontece apenas no Brasil, já que, de alguma forma, a atuação da imprensa brasileira, nesse sentido, se deu e se dá de maneira muito articulada com a imprensa de outros países da América Latina, em primeiro lugar. Não é, então, um fenômeno isolado, não é um acidente histórico, mas é um processo que também é perceptível em outros países. De alguma forma, o antigo conceito de democracia não se sustenta mais como viável aos olhos dessa imprensa. Isso é notável também no caso do Egito, por exemplo, que, durante muito tempo teve governantes militares, experimentou um período democrático, elegeu um novo presidente e, nesse período, a imprensa teve ampla liberdade de atuação e ali também ela atuou contra a ordem estabelecida. Então, há um processo mais geral no qual a imprensa reivindica um certo papel. Esse papel tem a ver com o fato de que se atribui hoje à imprensa ou à liberdade de imprensa um status equivalente e sinônimo à democracia. A ideia de controle social, que poderia ser baseada até na ideia de autocontrole, a ideia de responsabilidade social é uma ideia que tem sido varrida da literatura. A literatura não mais enfatiza essa dimensão, essa cobrança. Isso é algo que tem sido feito em benefício da ideia de liberdade de imprensa. Então, há bastante evidências acumuladas e sendo acumuladas mais recentemente que sugerem que a imprensa brasileira, mais do que simplesmente adotar um discurso hostil a um determinado partido ou a um conjunto de forças em benefício de outras, passou a representar esse partido como uma ameaça explícita à democracia. Aqui está presente a ideia de que o partido, entendido na concepção tradicional, do século passado, de partido de massa, organizador, capaz de, de alguma forma, veicular posições estruturadas, passou a ser representado como uma ameaça à democracia. Esse discurso mais recente apresenta a própria noção de partido, enquanto organizador, como ameaça à democracia. Exemplo disso é a ideia de escola sem partido. A ideia de que partidos possam atuar mobilizando perspectivas e construindo pontos de vista compartilhados, hoje é retratada pela imprensa brasileira como, enfim, esforço de totalitarismo. Mas, de novo, isso também não é apenas umas característica da imprensa brasileira. Isso traduz um conceito mais geral de transformações que é mundial e que, por um lado, aponta para um declínio dos partidos, empiricamente falando, mas, por outro, uma desconfiança em relação aos partidos.

 

  1. Até 2014 havia certo otimismo na observação de que a mídia já não tinha o mesmo poder de alterar resultados eleitorais, uma vez que vimos o PT vencer quatro eleições presidenciais consecutivas, a despeito da cobertura negativa que começou a receber da grande mídia pelo menos desde o fim do primeiro governo Lula. O que mudou de lá para cá?

 

Afonso de Albuquerque: Essa é uma pergunta que não dá para resolver por causa do golpe. Não fosse o golpe, nós teríamos a possibilidade de, em 2018, verificar se o PT e seus candidatos PT continuariam a dispor de vantagem eleitoral, a despeito da cobertura. Na verdade, não é que a cobertura da imprensa tenha sido efetiva em diminuir a viabilidade eleitoral do PT e de seus aliados. A questão é que a criminalização da política e a criminalização do partido produziram um efeito que o impede de concorrer em eleições livres e justas. Entre os critérios minimalistas de definição da democracia do Huntington está, entre outros, a realização de eleições livres e justas consecutivas. Esse critério não se aplica mais, porque, efetivamente, a Justiça tem sido utilizada como instrumento de correção de resultados da democracia, o que acho fica muito patente no caso da prisão do Lula e, ainda mais recentemente, na menção do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, de que fake news poderão servir como argumento para a anulação de eleições. Essa é uma tradição política, que eu acho que estamos em muitos aspectos, da República Velha: a democracia eleitoral formal pode eleger candidatos, mas empossar candidatos é uma outra história. E desempossar candidatos é outra história também, na qual o Judiciário tem um papel muito importante.

Talvez o maior equívoco que exista hoje, dentre os muitos equívocos que caracterizam a pesquisa em Comunicação Política, é a ideia de que o poder da mídia reside em falar com essa tal de opinião pública. E que, de alguma forma, a formulação de verdades para o público seja o elemento central. Ela é um elemento importante, mas mais central – e esse é um elemento pouco explorado – é a capacidade da mídia de falar com as elites. E essa capacidade da mídia de falar com as elites explica muito o nosso processo político. A ideia de que o candidato não preferido pela mídia pudesse ser eleito poderia ser testada caso o Lula não tivesse sido preso por motivo de favoritismo eleitoral.

 

  1. Por que é ainda um choque para muitos pensar a imprensa a partir de uma função antidemocrática?

 

Afonso de Albuquerque: A curiosidade é que essa é uma concepção recente. Um aspecto interessante do comportamento da mídia brasileira e latino-americana nessa última década é que ele é absolutamente semelhante ao do século passado, para contextos também semelhantes. Existe um autor argentino, o Ariel Goldstein, que fez alguns estudos comparando o tratamento da imprensa ao primeiro governo Lula em relação ao governo Getúlio Vargas, por exemplo. O papel que foi atribuído ao Chávez em algum momento, durante o governo do PT, foi atribuído ao Perón durante o governo Getúlio. Sempre com essa ideia de que a América Latina, enquanto projeto, constitui uma ameaça à democracia. Onde está o xis da questão? Em primeiro lugar – e que se transforma em um elemento mais chocante – está no fato de que existe uma associação a priori entre democracia e Ocidente. De alguma forma, se há Ocidente desenvolvido, há democracia. A imprensa é esse ator que reivindica para si o papel de defender as bandeiras do Ocidente. É como se a priori a imprensa fosse democrática por essa razão. Em segundo lugar, existe um elemento mais recente, que é o fato de os discursos que definem o que é democracia mudaram qualitativamente ao longo dos últimos anos e mudaram de uma maneira muito interessante justamente porque associaram democracia à liberdade de imprensa. Existe um esforço muito grande nesse sentido. Existe uma instituição que se especializou nesse campo, que é a Freedom House – uma instituição cujos critérios foram e tem sido contestados em todo e qualquer aspecto (metodologia, viés ideológico, etc.) e que, entretanto, a despeito de tudo isso, é usada como base não apenas para pesquisas acadêmicas, como em processos de tomada de decisão de distribuição de recursos por agências internacionais. Então, uma boa classificação na Freedom House vale ou tira a chance de receber esses recursos. Então, existe todo um contexto intelectual que legitima essa concepção que associa liberdade de imprensa à democracia e que desautoriza, como autoritário, qualquer esforço de contestar a liberdade da imprensa nesse sentido. Isso é algo que estamos experimentando no contexto atual. Esse é um aspecto. O outro aspecto é o fato de que a literatura internacional se construiu em torno de um modelo caolho, que é o modelo da transição para a democracia. Tal modelo ignora tudo que existiu antes do processo de transição e diz que se deve entender esse processo a partir das razões que o favorecem ou desfavorecem. Mas a ideia de que outros caminhos são possíveis, como, por exemplo, um retrocesso da democracia, ou que o próprio conceito de democracia não é muito problematizado – ele é tomado como dado – impedem que se perceba uma série de fenômenos. A agenda da pesquisa internacional está bastante cega a todo esse conjunto de fenômenos e não se interessa em discuti-los. Então, se olharmos os últimos artigos que têm saído nas revistas acadêmicas, constatamos que mesmo autores situados mais à esquerda, como por exemplo, Lance Bennet, que se notabilizou por uma discussão sobre redes e o papel do novo modelo de militância, estão bastante perdidos e equivocados na leitura do presente. No seu último artigo, que acabou de sair no Journal of Communication,[2] ele fala do perigo da desinformação e etc. Mas o texto, queira ele ou não, tem como consequência promover a ideia de que é preciso salvar e se juntar em torno da grande mídia, porque ela está sendo ameaçada pelo grande perigo da desinformação.

Então, esse é o nosso cenário atual, em que a pesquisa assume a defesa conservadora da grande mídia por medo de um mal maior. Mal comparando no Brasil, isso significaria um sujeito de esquerda dizer: “Vamos nos engajar em torno do Alckmin por medo do Bolsonaro”. Esse é um discurso que naturaliza esse agente e desproblematiza o papel que esse agente exerce no contexto geral.

 

  1. Nos últimos tempos, o STF assumiu grande visibilidade na esfera pública. Há anos você vem apontando, em postagens do Facebook, que a forma como Judiciário brasileiro atua é também um problema para a democracia. Isso sempre foi assim ou é uma particularidade da era PT?

 

Afonso de Albuquerque: Ultrapassa a era PT porque, de novo, é um fenômeno global. Sobre o papel que o Judiciário desempenha, existem discussões, sociólogos e cientistas políticos que trabalham com essa ideia da judicialização da política e, na verdade, com a judicialização de todos os aspectos da vida social. O Judiciário assume um papel mais central e dentro desse papel inibe a autonomia das forças sociais de determinar seus próprios procedimentos. Na universidade, por exemplo, fazer um concurso público significa ter que lidar com toda uma série de regras que são estabelecidas de fora pelo Judiciário. Uma banca dificilmente vai poder contar com um especialista naquele assunto, porque ele teve um orientando inscrito no concurso. O mesmo se aplica para o campo da política.

Em particular, um dado importante tem a ver com o fato de que a judicialização é promovida transnacionalmente por instituições multilaterais importantes como o o Banco Mundial, que inventou, cunhou ou ajudou a promover o conceito de rule of law em oposição ao conceito de rule of democracy. O rule of law é a ideia de que a sociedade deve se organizar em torno de determinados parâmetros. E, mais importante, o rule of law define essa regra sempre em função de regras favoráveis à ação do mercado, mas regras transparentes etc. O rule of law é um discurso sobre a qualidade da política e a necessidade de ressalvar a qualidade da política e de proteger a qualidade da política do efeito potencialmente perverso que poderia ser exercido pela intervenção popular. Então, o rule of law é essencialmente um discurso antidemocrático.

No Brasil, o conceito do Judiciário tem elementos suplementares pelo fato de que tradicionalmente na nossa sociedade, o Judiciário é a carreira de Estado na qual se abrigam um conjunto de elites políticas, que têm origens evidentemente rurais e que foram capazes de transformar o seu acesso ao Estado em condições de exercício de poder. Então, nesse sentido, o discurso de rule of law é um discurso que  empodera agentes conservadores em detrimento da possibilidade de intervenção popular, qualquer que seja ela.

 

  1. Apesar de toda a instabilidade política que tomou forma no país, O Globo vem repetidamente afirmando em seus editoriais que as instituições brasileiras são fortes e estão em perfeito funcionamento. Essa opinião é ecoada por alguns cientistas políticos de viés conservador. Como você vê a interação entre a atuação do Judiciário e a grande mídia no contexto atual?

 

Afonso de Albuquerque: Existem aí alguns elementos. Em primeiro lugar, existem fundamentos conservadores na raiz da Ciência Política que tem a ver com a formação de origem americana. Então, há um contexto no qual muitos cientistas políticos ecoam um discurso institucionalista que transforma o funcionamento formal das instituições em critério de democracia, independente do critério de participação popular. Esse discurso d’O Globo faz sentido à luz disso. Isso é uma característica do contexto contemporâneo. Nós vivemos isso também internacionalmente: uma definição de democracia que se institucionalizou em detrimento da participação popular. Isso foi forjado nos Estados Unidos, na década de 1950, a partir de um esforço que foi promovido principalmente por meio da atuação de fundações. No caso da Ciência Política, a Fundação Ford, que também foi essencial na configuração da economia americana, estudos de negócios e etc., teve papel preponderante, enquanto na Comunicação isso se deu a partir da Fundação Rockefeller. No caso da Ciência Política, entre 1950 e 1960, maciços investimentos levaram ao redesenho da agenda de pesquisa num sentido profundamente hostil à participação popular. A definição de boa democracia é a democracia que exclui os elementos mais ignorantes, mais volúveis. É quase uma apologia da não participação popular e de uma concepção claramente administrativa da política. Essa concepção administrativa da política é aquilo que O Globo defende e, desde sempre, dentro dessa concepção, a ideia de participação popular é antidemocrática. Esse é o grande elemento do qual a pesquisa brasileira não é capaz de dar conta justamente por adotar agendas externas.

Existem alguns elementos a partir dos quais O Globo categoriza ou categorizou o governo PT como ameaça à democracia. Primeiro ele é “populista” e, na verdade, populista significa dizer que ele é baseado no voto. Muito do discurso sobre populismo hoje em dia – e há muito pouca crítica na academia sobre isso – significa dizer que pessoas tomaram decisões que não estavam previstas nas instâncias tecnocráticas. Você pode gostar ou desgostar da decisão do Brexit, mas foi uma decisão autônoma, tomada num plebiscito ou referendo. A ideia de que decisões tomadas em referendo possam contrariar interesses maiores, estabelecidos dentro do establishment é uma ideia muito subversiva. Você pode dizer que o Trump é um canalha, mas ele, de fato, foi eleito e tem agendas políticas. Ele é muito diferente do Obama, que pode, pessoalmente, ser uma excelente pessoa, e me soa como sendo uma boa pessoa, mas ele é presidente dos Estados Unidos, o que significa dizer que, de fato, ele manda tanto quanto – e acho que o caso do Obama mostra isso: um sujeito que ganhou o Prêmio Nobel da Paz antes de fazer nada e que não foi capaz de realizar, até onde consigo ver, nenhuma das propostas que ele quis fazer. Isso porque existe uma administração que, de alguma forma, mantém os Estados Unidos funcionando a despeito de qualquer coisa. O papel do presidente norte-americano dentro dessa concepção administrativa é muito limitado. A autonomia do presidente, a responsividade ao voto, nesse sentido, é ameaçadora e taxada como autoritária. Acho que há uma mudança no discurso de qualidade nesse sentido.

Onde mídia e Judiciário se juntam? Ambos são elementos de um conjunto de agentes maiores, que são agentes da chamada rede de accountability. Accountability é um processo de prestação de contas que é entendido em termos gerenciais e, nesse sentido, muito afeito à ordem neoliberal, dentro da qual o Estado é como se fosse uma empresa e a empresa presta conta aos seus acionistas que, obviamente, não são poucos. Então, os mecanismos de prestação de contas, cada vez mais tecnicamente desenvolvidos, são um elemento que vai na contracorrente da ideia de que o voto é um elemento crucial. Resumindo, eu acho que a maior armadilha que a pesquisa em Ciência Política e Comunicação e Política preparou para o futuro foi a ideia de democracia de qualidade, porque cada vez mais – essa é a tendência global – sacrifica-se a democracia em função da qualidade. Então, digamos que o golpe é um golpe contra a democracia em nome da qualidade da governabilidade. São expressões que se estabeleceram bastante nesse processo.

 

  1. As redes sociais foram objeto de grande entusiasmo na academia e no ativismo político, algo que podemos denominar ciberotimismo. Nos últimos tempos, contudo, há razões para duvidarmos do seu potencial em promover a deliberação democrática e o ativismo progressista. Como você se coloca em relação a essa questão?

 

Afonso de Albuquerque: Sobre as redes sociais, elas são parte importante desse processo de rede de accountability. O que é importante dizer é que a literatura sobre redes sociais é uma literatura que ecoou perspectivas políticas formuladas por think tanks republicanos, que construíram a ideia em última análise de que elas serviriam como instrumento de democracia direta e, dessa forma, permitiriam ao cidadão, ao sujeito individual, passar por cima das instituições políticas e do Estado. O modelo da cibercultura ou da ciberpolítica, ciberativismo, é profundamente antipolítico e individualizante. Isso é muito interessante, porque acontece o tempo todo na teoria. As ideias têm alguma origem; elas geralmente corroboram algumas perspectivas e as pessoas continuam dando desenvolvimento àquelas ideias sem saber muito de onde elas vieram. Então, as pessoas têm uma ética hacker, uma ética que, em última análise, veio de algum lugar e tem uma agenda política no seu entorno.

O debate sobre as redes ecoou perspectivas nas quais, por exemplo, a ideia de instituição, organização, hierarquia, foram, a priori, descartadas como autoritarismo. Dentro desse contexto, por exemplo, você tem o Lance Bennett, que eu citei anteriormente, e a Alexandra Segerberg, que escreveram um texto em torno da ideia de ação conectiva, a lógica conectiva das mídias sociais. E essa lógica conectiva é uma lógica segundo a qual agentes dotados de agendas diferentes são capazes de se juntar e pressionar. É a ação por detrás do modelo Occupy e por trás do modelo de 2013. É muito curioso que as pessoas que estudam o caso de 2013 no Brasil raramente fazem muita referência ou se dão conta de maneira problemática do resto do mundo. O resto do mundo tem aparecido de maneira laudatória, o que reflete, de novo, o peso da agenda na organização de expectativas. Então, as pessoas esperam que a mídia social cumpra um papel. E essas expectativas vieram muito das análises.

Na literatura sobre internet e partidos políticos, são interessantes as hipóteses da equalização e da normalização. A hipótese da equalização é que as mídias sociais, sendo um recurso relativamente barato e acessível a todos, permitiriam que diferentes partidos políticos menores equilibrassem o jogo. É importante notar que são argumentos bem diferentes do vemos no momento atual em que as pessoas não querem, de maneira alguma, que esses partidos menores sejam poderosos, porque são partidos populistas e etc. Outra consequência da equalização seria que o indivíduo possa interagir de maneira mais ativa com a hierarquia dos partidos. Então, sempre se coloca na mídia social, nas redes, o poder transformador. Isso é imediato, ainda que não haja pesquisa que serviu de base a isso. É um manifesto, na verdade – as redes à libertação do indivíduo em relação à hierarquia. É um modelo profundamente neoliberal, na medida em que associa a liberdade ao indivíduo e não às agências coletivas. Isso é bastante claro.

Então, o que acontece é um processo de autoilusão compartilhado, produzido à base de uma literatura imensa. Se você olhar as principais revistas desse debate – na Information Communication Society, por exemplo, todo número tinha, pelo menos, três artigos que ecoavam a perspectiva de Bennett e etc. Em todos os casos o poder da autoilusão também estava relacionado à ideia de que existe um processo de democratização contínuo. E democratização, de novo, é a emulação de modelos ocidentais. Então, o Journal of Democracy, pouco depois da chamada Primavera Árabe, começa a categorizá-la como a quarta onda da democracia e etc. Claro, ficou bastante evidente que isso deu com os burros n’água.

O que é mais fascinante nesse contexto é que as pessoas, que de alguma forma projetaram nas mídias sociais esse poder revolucionário e transformador, agora estão produzindo alegremente o discurso oposto a isso, que se constitui a partir da ideia de fake news. Se antes o discurso era do indivíduo que pode ecoar a sua perspectiva dentro de uma idealização de livre mercado de ideias, hoje o livre mercado de ideias é uma ameaça. Ora, o fake news é o resultado de as pessoas poderem ecoar suas perspectivas. O sujeito quer dizer que a Terra é plana, o sujeito diz que a Terra é plana. O que contrariava isso? As tais instituições que ninguém queria. São várias instituições; a ciência, por exemplo, é uma das instituições que é ameaçada por esse tipo de situação. Não se diz isso explicitamente, mas o que esse discurso define como lugar da ordem? A mídia corporativa. A mídia corporativa e seus aliados na tarefa de produção da verdade única. Um desses aliados é o chamado fact checking, uma instituição que cresceu consideravelmente nos últimos anos e que, de alguma forma, se constitui como um lugar de produção da notícia de qualidade. Assim como a democracia, entendida na sua dimensão representativa, foi, de alguma forma, afetada, atacada, pelo discurso da democracia de qualidade, a liberdade de imprensa hoje está sendo atacada pelo discurso da informação de qualidade. O que nós chamamos de democracia é efetivamente aristocracia. É dizer que a qualidade é o melhor e não a maioria. A maioria cada vez mais é um perigo para a democracia dentro desse discurso. Então, as mídias sociais, de fato, ecoaram e foram espaço de um certo discurso – não só o Lance Bennett, mas também o Manuel Castells se notabilizou nesse processo – que se revelou um profundo fracasso, embora ninguém assuma fracassos no campo do discurso acadêmico.

 

  1. Um novo texto seu, ainda não publicado – A Comunicação Política depois do golpe: notas para uma agenda de pesquisa –, acabou de vencer o prêmio da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica) para Artigos de Conjuntura (2018). O que precisa mudar na agenda de comunicação e política na nova conjuntura? Por que são ainda escassos os trabalhos nesse campo sobre o atual contexto brasileiro e a atuação da mídia?

 

Afonso de Albuquerque: Um dos problemas da agenda de pesquisa em Comunicação Política e em muitas áreas das Ciências Sociais é que nós emulamos agendas externas. E isso não somos nós apenas que fazemos: os holandeses emulam igual, os italianos emulam igual. Porque se construiu um grande cenário da pesquisa internacional a partir de todo um conjunto de dispositivos que definem, de novo, a ideia de qualidade. Dentro desse processo sempre tem a ideia de ranking e as instituições que rankeam são sempre instituições muito importantes justamente porque elas definem o campo da qualidade e aquilo que não pode ser afetado pelo discurso. No campo da pesquisa científica, isso opera por meio de rankings como o QS, que classifica universidades e cursos e, portanto, estabelece uma certa economia do prestígio; o ranking do JCR, Journal of Citation Reports, etc. Todos esses rankings são maciçamente dominados, em primeiro lugar, pelos Estados Unidos; em segundo lugar, pelo mundo anglo-americano; em terceiro lugar pelo mundo dos países anglófonos e, em quarto lugar, pelo mundo dos países ocidentais. Em um artigo que estou fazendo com colegas, nós analisamos o corpo editorial de todas as revistas em Comunicação. Cinco países anglófonos (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) somam 75%. Se juntarmos a isso a Europa Ocidental, são 90%. Então, o resto do mundo não existe no universo dos corpos editoriais das revistas. No caso, a área de Comunicação mais do que outras áreas, é fundada nos Estados Unidos, em instituições do meio oeste dos Estados Unidos e, mais ainda, de modo fortemente articulado ao aparato de segurança nacional, em torno da lógica da propaganda e do chamado PSI Office – operações psicológicas do Exército. Esses foram os principais financiadores, com inúmeras evidências e dados que indicam como esse dinheiro foi usado ao longo desse processo de fundação. Então, de fato, a autonomia da área de Comunicação nos Estados Unidos em relação a esse tipo de agenda é muito pequena.

É claro que existem setores dentro dos Estados Unidos que se desenvolveram com algum grau de autonomia, mas aí entra outro problema. No interior dessa lógica de construção de saber transnacional existe uma ironia – um exemplo é a área de estudos pós-coloniais. A área de estudos pós-coloniais é dominada por Inglaterra e Estados Unidos, de forma que se você quer fazer estudos pós-coloniais e é brasileiro, você tem que ir para os Estados Unidos para aprender qual é o seu status pós-colonial.

Onde isso nos leva com relação à agenda da pesquisa? Uma das características do processo de internacionalização é o fato de que nós, compulsoriamente, fomos afastados daquilo que constituía a base do nosso pensamento. Nós abandonamos autores nacionais em função de autores estrangeiros porque nós temos que fazer isso se queremos dialogar em campos de debate mais abrangentes. Então, enfim, se falarmos de autores nacionais, nós não seremos nem lidos. Temos, então, que conhecer a literatura internacional. Desgraçadamente, como país, ainda temos uma política que favorece isso da pior maneira possível. A nossa ideia de internacionalização, tal como é promovida pela CAPES é essencialmente a internacionalização subordinada: nós mandamos pessoas para o exterior para aprender e trazer o conhecimento para o país. Isso é um processo que foi longamente desenvolvido, principalmente a partir dos anos 1950, de novo com o maciço investimento de fundações que são os principais agentes financiadores dos Estados Unidos, o que ajudou a normatizar a ideia de que as instituições norte-americanas têm um certo caráter exemplar e universal. Ou americanas ou britânicas, num segundo campo. Se nós pegarmos um trabalho sobre televisão,  de autores que se consideram progressistas, todos vão citar a BBC e dizer que a BBC é o modelo da televisão pública. E isso vai acontecer não só na América Latina.

Alguns países conseguiram, graças a vantagens estratégicas, a capacidade de dominar o mundo com um fluxo de informações legitimado, que é esse do campo acadêmico transnacional, da produção de qualidade, de pessoas que estão em instituições que dispõem de maior status por conta disso e, nesse sentido, têm mais poder de verdade. O esforço para construir uma alternativa a isso é o de tentar repensar a agenda a partir de problemas que se apresentam nesses outros países que não são os países do mundo anglo-saxônico, americano, e europeu ocidental, de maneira geral. Não é fácil e não existem muitos incentivos para fazer isso. Inclusive, existem muitos desincentivos para fazer isso, porque esses trabalhos não serão, provavelmente, aprovados ou terão mais dificuldade de ser aprovados em periódicos internacionais, por serem perspectivas menos reconhecíveis por essas revistas. Mas é uma tarefa essencial.

Sobre a pesquisa brasileira, em particular, e o que eu acho particularmente interessante nela na perspectiva da pesquisa internacional, é que ignora o fenômeno do golpe a despeito de as pessoas que fazem essas pesquisas não ignorarem tal fenômeno. Isso talvez seja o grande elemento de curiosidade: o fato de que as pessoas não encontram na academia um espaço que lhes permita falar desses assuntos.

Vou dar um último exemplo, para ligar com a discussão anteriormente feita sobre cibercultura — hoje está no ápice no Brasil o debate sobre ciberdemocracia. É democracia. Democracia eletrônica. Então, temos inúmeros trabalhos que falam sobre como as tecnologias permitem seu florescimento. O que mostra como o compasso da pesquisa é muito mais ditado pelo compasso da agenda acadêmica do que propriamente pela sua real capacidade de responder a reais problemas que se apresentam aos pesquisadores. De certa forma, existe uma barreira institucional que bloqueia a possibilidade de que os pesquisadores façam isso. O golpe traz o grande desafio de que nós enfrentemos as nossas questões, que, nós vamos descobrir, são muito mais comuns em termos globais do que parecem.

 

  1. Para finalizar, falando ainda do golpe, chegamos a um cenário em que o líder em todas as pesquisas de intenções de voto para a presidência da república, Lula, está preso. Pesquisas indicam o deputado Jair Bolsonaro em segundo lugar, seguido por Marina Silva. Em suma, a pouco tempo do pleito, o cenário eleitoral é bastante instável. Que papel você acha que a mídia desempenhará nas eleições de 2018?

 

Afonso de Albuquerque: Acho que cada vez menos o papel da mídia é eleitoral. Existem alguns fatores aí. Em primeiro lugar, existe um elemento que é o fato de que as forças de esquerda perderam a capacidade de organização. Então, existe o mito Lula, mas a esquerda, até onde eu saiba, não tem nenhum projeto de articular uma bancada parlamentar forte. Continuam apostando no mito do salvador. Mas, claramente, eu acho que o papel da imprensa, hoje, mais significativo é o de criminalizar a política. Isso pode ser com o Lula, mas pode ser com o Bolsonaro, por exemplo, que é um candidato extremamente criminalizado, cujo grande valor político é o de ser o monstro embaixo da cama. O Bolsonaro é um personagem que, de alguma forma, constitui um tipo de instabilidade política que reforça a estabilidade política. O Bolsonaro estar ali nos incentiva a sermos responsáveis e, então, votarmos no Doria ou votarmos no Alckmin.

Existe um segundo elemento nesse processo. Há vários elementos no golpe, mas  sendo ele essencialmente paulista, essencialmente da Fiesp, na sua promoção, é um golpe para diminuir a soberania de outras regiões do país. O grande problema é que os candidatos paulistas são quase nunca viáveis. Eles têm uma enorme dificuldade nesse sentido. Assim, no que toca a democracia, me parece que seus prospectos eleitorais são bem sombrios.

 

 

[1] Hallin e Mancini publicaram em 2004 o livro Comparing media systems: three models of media and politics (Cambridge University Press), que propunha três modelos para explicas os sistemas de mídia do mundo ocidental. Em 2012, foram editores de um segundo livro – Comparing media systems beyond the Western world (Cambridge University Press) –, cujo objetivo foi incluir regiões que haviam sido deixadas de fora em seu estudo anterior, dialogando com as críticas que receberam. Neste segundo livro, Afonso de Albuquerque foi autor do capítulo sobre o caso do Brasil.

[2] BENNETT, W. Lance; PFETSCH, Barbara. Rethinking political communication in a time of disrupted public spheres. Journal of Communication, V.68, N. 2, Abril 2018, p. 243-253.