23/05/2019 -

Por Natasha Bachini e João Feres Jr

Entre os dias 12 e 19 de maio de 2019, as 158 páginas que monitoramos publicaram 8.179 posts, que geraram 5.129.521 compartilhamentos. As páginas que mais postaram nessa semana foram: O Globo (374 posts), Portal R7 (361 posts) e G1 (352 posts).

Tabela 1: 20 posts mais compartilhados da semana (12/5/2019 a 19/5/2019)[1]

semana 79

Os 20 posts da tabela acima concentram 11% dos compartilhamentos obtidos pelas 158 páginas ao longo do período. Os recursos mais frequentes nos posts foram o vídeo (40%), seguido de foto (25%), link (20%) e texto (5%).

O assunto mais discutido na rede durante esta semana foram os protestos contra os cortes na Educação. Catorze posts da lista discorreram sobre o evento. Em um tom mais agressivo que o adotado na semana anterior, os posts mais compartilhados defenderam o contingenciamento e atribuíram sua necessidade aos “erros” dos governos anteriores. Esses atores afirmaram ainda, nas mensagens, que os protestos não foram organizados por estudantes e profissionais da Educação, mas pelos partidos da oposição e sindicatos parceiros, e que tiveram como motivação real a soltura de Lula e a derrubada do governo.

O presidente Jair Bolsonaro emplacou seis posts no ranking, inclusive os dois mais compartilhados da semana. A maioria consiste em vídeos curtos, nos quais o presidente e o ministro da Educação, em diferentes situações, afirmaram que: “o presente serve para mostrar quão grave são as consequências de um governo socialista, populista e completamente corrupto”; o termo certo para definir a medida adotada é “contingenciamento”; e que não os agrada tomar tal decisão, mas que ela é necessária, pois se não fizerem isso, terão que imprimir mais dinheiro, o que geraria inflação, ou cometer crime de responsabilidade fiscal.

Dentre as estratégias adotadas nos posts, destacaram-se a participação do ministro em um programa da Jovem Pan, a reprodução de um vídeo do presidente Lula explicando o contingenciamento realizado durante o seu governo e uma fala de Abraham Weintraub sobre a análise realizada por Marilena Chauí anos atrás acerca da classe média. Segundo a avaliação deturpada do ministro, a partir dali a esquerda definiu a classe média como seu principal inimigo e tentou  .

Nos vídeos, foram atacados diretamente uma repórter da Folha de S. Paulo que, ao indagar o presidente sobre os cortes, obteve como resposta a afirmação de que era “despreparada” e deveria “voltar para faculdade e fazer um bom curso de jornalismo”; os governos Lula e Dilma, acusados de realizar cortes semelhantes em suas gestões ao mesmo tempo que destinavam bilhões a outros governos de esquerda, como Angola, Venezuela e Cuba; e os manifestantes que foram às ruas no último dia 15, considerados “massa de manobra do bando Lula Livre”.

Os quatro posts do deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) miraram os estudantes e professores que protestaram contra os cortes, denunciados como “militantes petistas” e participantes de “um esquema corporativista entre os sindicatos e os partidos de esquerda”. Em uma de suas publicações, que viralizou no Facebook (e possui evidente erro de concordância), o deputado afirma: “Metade dos estudantes que foram protestar não sabem a diferença entre corte e contingenciamento. E a outra metade na verdade não são estudantes”.

Também saíram em defesa dos cortes o movimento de direita Ranking dos Políticos e o jornalista Boris Casoy, da Rede TV, que diferenciaram os gastos obrigatórios dos discricionários e explicaram o significado de contingenciar. Enquanto Casoy intercedeu explicitamente pelo governo, alegando que tal situação é “herança do governo Dilma” e que “Bolsonaro está tentando colocar ordem neste caos”, o Ranking afirmou que serão retidos temporariamente “apenas” 30% de 12% das despesas discricionárias. O grupo aproveitou o episódio para defender a Reforma da Previdência:

“Pois é, cara pálida, você acabou de descobrir que o Brasil está dançando na beira do abismo: o modelo atual de previdência está tão desequilibrado que está engolindo o orçamento federal. Só que previdência é gasto obrigatório. Então, perceba: ou a gente alivia parte do orçamento reformando a previdência, ou esses contingenciamentos tornar-se-ão cortes e serão cada vez mais frequentes”.

Os demais posts que compõem a lista argumentaram a favor da Reforma da Previdência e da liberação do porte de armas. João Amoêdo (NOVO), que ocupa a 14ª posição da lista, reiterou que “caso a reforma não seja aprovada, serão transferidos R$315 mi aos mais ricos” e que “o atual modelo é uma máquina de transferência dos mais pobres para os mais ricos”. Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) compartilhou vídeo no qual um comerciante surpreendentemente atira contra o assaltante.

Por fim, a revista Veja obteve grande volume de compartilhamentos com a matéria sobre a investigação do Ministério Público (MP) contra Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), suspeito de lavagem de dinheiro. A reportagem chama a atenção para o lucro exorbitante obtido pelo senador no mercado imobiliário, que adquiriu 19 imóveis por R$ 9 mi nos últimos anos.

Observada a grande dimensão dos protestos no último dia 15, o governo e suas páginas de apoio utilizaram o Facebook para rebater o discurso contrário aos cortes e deslegitimar o ato dos estudantes e profissionais da Educação. Incluíram, na esteira dos seus argumentos, a defesa da Reforma da Previdência, relacionando os dois fatos. Dados de fontes secundárias mostram que os protestos obtiveram o apoio de setores da sociedade além da esquerda, mas este não se refletiu no desempenho de seus posts na rede durante o período. Vejamos qual grupo terá mais força nas próximas semanas, o da rede ou o das ruas.

[1] Tendo em vista nossos propósitos, foram excluídos da lista: um post do MBL e um de Adilson Barroso, por não tratarem de Política.