06/09/2019 -

Por Natasha Bachini e João Feres Jr.

Entre os dias 19 e 25 de agosto de 2019, as 158 páginas que monitoramos publicaram 7.605 posts, que geraram 3.763.034 compartilhamentos. As páginas que mais postaram nessa semana foram: Exame (444 posts), Estadão (442 posts) e Veja (435 posts).

Tabela 1: 20 posts mais compartilhados da semana (19/8/2019 a 25/8/2019)[1]

semana 93

Os 20 posts da tabela acima concentram 22% dos compartilhamentos obtidos pelas 158 páginas ao longo do período. Os recursos mais frequentes nos posts foram vídeo (55%), foto (20%), link (15%) e texto (10%).

O assunto mais discutido na rede nesta semana foi a devastação da Amazônia, pautando 60% dos posts do ranking. O debate no Facebook foi protagonizado por Jair Bolsonaro e seus apoiadores que, diante das acusações e críticas de que o governo federal estaria incentivando o desmatamento na região, alegaram ora que as queimadas eram fruto da seca própria desta época do ano, ora que teriam sido provocadas por ONGs e potências internacionais interessadas em explorar economicamente a floresta. Dentre os posts do presidente, destacaram-se o segundo mais compartilhado da semana, no qual Bolsonaro recorta uma fala do General Villas Boas no programa do Pedro Bial, o seu próprio pronunciamento em rede nacional no dia 24 de agosto e uma entrevista coletiva que concedeu à imprensa em frente ao Palácio do Planalto.

No primeiro caso, o general Villas Boas aparece afirmando que o Brasil preserva suas florestas muito melhor do que os países europeus e frisou o interesse internacional na região, dando como exemplo um episódio em que encontrou o rei da Noruega por lá. Seguindo a mesma linha, Bolsonaro reiterou em suas publicações que “nossa riqueza é incalculável”, que “proteger a floresta é nosso dever”, mas que “ali vivem mais 20 milhões de brasileiros que aguardam dinamismo econômico proporcional às riquezas existentes”. Além disso, o presidente argumentou que “os incêndios não podem servir de pretexto para sanções internacionais” e que ocorre no momento uma guerra contra o Brasil, a guerra da informação”. Conforme sugeriu, o interesse de outros países na região não tem motivação ambientalista, mas econômica, e encontra conivência de alguns governadores. Bolsonaro insinuou também que há um conluio de Merkel e Macron contra ele e chamou o presidente francês de mentiroso. Para fortalecer esses argumentos, foram compartilhados vídeos dos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) tentando apagar focos de incêndio e de uma conversa informal entre Macron e Merkel cujo áudio é incompreensível, mas no qual a legenda diz que devem ligar para Bolsonaro para esclarecer mal entendidos.

Em contrapartida, viralizou um vídeo de Ciro Gomes (PDT) no qual critica “as declarações estapafúrdias de Bolsonaro” sobre essa “devastação sem precedentes”. Ciro sugere ao presidente que “cale a boca, viaje assim que possível para a região, demita o ministro do Meio Ambiente, tome imediatas providências para conter esse incêndio” e que pare de culpar as ONGs, pois sabe-se que “houve um movimento de pecuaristas e madeireiros chamado dia do fogo[2]”. Obtiveram também larga repercussão durante o período as matérias da imprensa com especialistas sobre os efeitos das queimadas nas florestas: “A perda é de valor inestimável. Muito superior ao das multas aplicadas.”

Outro assunto que rendeu muitos compartilhamentos a Bolsonaro e seu filho Eduardo  – inclusive o post mais compartilhado da semana – foi a execução, pela Polícia Militar, do sequestrador de um ônibus no Rio de Janeiro. Sobre o caso, o presidente disse: “Parabéns aos policiais do Rio de Janeiro pela ação bem sucedida que pôs fim ao sequestro do ônibus na ponte Rio-Niterói nesta manhã. Criminoso neutralizado e nenhum refém ferido. Hoje não chora a família de um inocente”.

Por fim, o terceiro tema mais presente nos posts foi a corrupção. Flávio Bolsonaro rebateu as acusações de que seu pai estaria interferindo nas investigações da Coaf para inocentá-lo e questionou por que a imprensa deu tão pouca importância à condenação de Haddad por caixa dois nas eleições de 2012. Entretanto, essa notícia alcançou o ranking por meio de posts da Veja e do Estadão.

Jair Bolsonaro compartilhou trechos dos programas da Jovem Pan e de Alexandre Garcia nos quais se afirma que durante as gestões petistas houve “aparelhamento do Estado” e que o dinheiro do BNDES foi utilizado para “financiar jatinhos de ricos”, “bancar as ditaduras de Cuba e da Venezuela” e “sustentar as ONGs malandras da Amazônia”. Já o movimento Vem Pra Rua Brasil reproduziu a fala do ministro do STF Luís Barroso sobre os desdobramentos da Vaza Jato: “alguns ministros mostram mais raiva de procuradores e juízes, que estão fazendo um bom trabalho, do que de criminosos que saquearam o país”.

Em suma, o governo federal segue justificando seus erros com acusações à oposição e, mais recentemente, a forças internacionais. Bolsonaro enquadra os acontecimentos como se houvesse um grande complô armado contra ele e se coloca na posição de defensor do país e bastião do combate à corrupção. Por esses motivos sugere que a esquerda, a imprensa e as potências internacionais difundem notícias falsas sobre seu governo e distorcem os fatos. Tal interpretação da conjuntura é compartilhada, literalmente, por considerável parte dos usuários do Facebook, o que mantém sua força na rede. Entretanto, a gravidade e os efeitos negativos do seu discurso e das políticas que vêm implementando fazem com que a rejeição ao governo aumente a cada dia, inclusive entre os seus eleitores, conforme mostram as últimas pesquisas. Para além do possível uso de robôs que impulsionam as mensagens, essa disparidade entre a popularidade no Facebook e as pesquisas de opinião provavelmente é resultado da atuação dos bolsonaristas irredutíveis, que são muito engajados na plataforma.

[1] Excluímos da lista desta semana um post do G1 por não tratar de Política.

[2] O “dia do fogo” foi um incêndio coletivo promovido por um grupo de pecuaristas e madeireiros na região amazônica no dia 10 de agosto de 2019 com o objetivo de mostrar pressionar o governo federal a liberar queimadas na floresta para formar e limpar pastagens.