07/09/2019 -

Por Juliana Gagliardi, Eduardo Barbabela, Lidiane Vieira e João Feres Júnior

No período de 28 de agosto a 3 de setembro, a grande imprensa abordou as temáticas listadas na Figura 1. Consideramos, para análise mais específica em nosso boletim, os três eixos principais: Economia, Bolsonaro/Meio Ambiente e Previdência.

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Figura 1: Temáticas presentes nos editoriais (28/8 a 3/9/2019)

O primeiro caso englobou editoriais sobre o quadro econômico do país, sobre as contas públicas e o orçamento. O crescimento de 0,4% do PIB no trimestre motiva editorial intitulado “Menos ruim”, no qual a Folha de S. Paulo concorda com as diretrizes econômicas adotadas pelo governo Jair Bolsonaro mas critica a lentidão na sua implementação. Sobre o presidente pessoalmente, o jornal tece críticas a sua comemoração dos parcos números de crescimento e sugere que ele ajudaria mais “pondo fim a confrontos que tensionam o ambiente nacional e dificultam a recuperação da confiança de consumidores e empresários”.[1]

O Estado de S. Paulo também elogia os sinais de reativação da economia, que chama de “boa surpresa”[2] e, assim como a Folha, faz críticas ao presidente e a seu governo, sugerindo que eles não estariam contribuindo o quanto deveriam ou os resultados seriam melhores.[3] No dia seguinte, novo editorial do jornal afirma que o país continuará “empacado”  enquanto o seu crescimento depender de investimentos federais e defende a participação privada, principalmente em infraestrutura, para melhorar a capacidade de investimento do país.[4] Nisso, O Globo segue caminho muito semelhante: pinta uma lenta retomada do crescimento econômico, culpando os governos anteriores pela crise, e termina defendendo as parcerias público-privadas para expandir infraestrutura e a segurança dos investimentos no país.[5]

Para além da discussão sobre o PIB do trimestre, o Estadão discute a questão das contas públicas. O jornal critica os erros cometidos pelo governo, como menosprezar estímulos de curto prazo à economia, e elege a aprovação da reforma da Previdência como o único avanço no rumo do ajuste neste ano.[6]

Ao se falar do projeto de orçamento para 2020, aparece enfim menção mais positiva ao governo. A Folha elogia o plano do governo federal por seu “realismo”, apresentando o arrocho ali proposto como necessário.[7]

Considerando-se o segundo eixo temático mais recorrente, editoriais que tem como temática principal críticas a Bolsonaro aparecem nos três jornais. Como na semana passada, reprova-se o posicionamento conflitivo do presidente com relação aos países europeus no contexto da crise amazônica. O Globo reafirma sua preocupação com as retaliações comerciais e de investimentos em um cenário mais amplo de guerra comercial EUA-China e pede que as empresas se mobilizem para induzir o governo à mudança de curso.[8] Para o jornal, a crise ambiental foi criada pelo descaso do próprio governo, que insiste em seguir o modelo ruim de Trump no setor.[9]

A Folha aborda a temática também reprovando o presidente ao destacar o impacto negativo de seu posicionamento para a causa ambiental, já que serviria de estímulo ao avanço de grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais,[10] e na opinião pública sobre o governo. Em um segundo editorial também contrário ao posicionamento de Bolsonaro na crise amazônica, a Folha critica o comportamento dos interlocutores, inclusive o presidente francês Emmanuel Macron, que buscaria vantagens políticas no debate. Mas, para o jornal, “os campeões do engodo, das ideias fora de lugar, das grosserias e das provocações baratas nesse episódio são, sem dúvida, autoridades brasileiras, a começar do presidente Jair Bolsonaro (PSL).” Caracterizando o caso como um “picadeiro”, o editorial reprova o posicionamento do presidente em reunião com governadores sobre o Fundo Amazônia, insistindo na pauta contra a demarcação de terras indígenas, que seria a causa das queimadas.[11]

O Estadão foca no episódio dos comentários grosseiros sobre Brigitte Macron, esposa do mandatário francês, para criticar Bolsonaro por manter acesa, com suas atitudes, a chama de sua militância.[12]

Além da questão ambiental, uma pesquisa Datafolha, que apontou queda na popularidade de Bolsonaro, detona críticas em editorial da Folha. Embora o jornal defenda a política econômica do governo, afirma que “são raros os dias em que a nação é poupada de declarações estapafúrdias ou medidas questionáveis do chefe de Estado, empenhado em disputar consigo mesmo uma maratona de insensatez”.[13] A mesma pesquisa é mencionada no Estadão, que destaca o crescimento da desconfiança com relação ao governo e recomenda ao presidente agir de forma mais responsável.[14]

A relação com a imprensa também compôs o eixo temático de críticas a Bolsonaro. Em um editorial que reprova Trump por vir orquestrando ataques a jornalistas de veículos de mídia que considera de oposição ao governo, a Folha critica também a postura de Bolsonaro com relação à imprensa brasileira, caracterizando o seu posicionamento como uma tentativa de desqualificar críticas ao seu governo.[15] Seguindo o mesmo caminho, o Estadão também apresenta um editorial de crítica focada em Trump mas com menção a Bolsonaro, argumentando que, ao mentirem de forma recorrente, os presidentes impõem ao jornalismo o “grande desafio” de noticiar objetivamente.[16]

O terceiro eixo temático mais recorrente é a reforma da Previdência. O Estadão elogia o trabalho do relator da proposta, o senador Tasso Jereissati,[17] e a defende como parte de um conjunto de medidas inadiáveis para colocar o país de volta aos trilhos do crescimento econômico e da geração de emprego e renda. O Globo, da mesma forma, em editorial dedicado a expor e defender a realização da reforma, elogia a atuação do relator, destacando a economia que pode ser gerada com as mudanças no projeto.[18]

Ao abordar o desequilíbrio nas contas públicas dos municípios paulistas, o Estadão defende que estados e municípios sejam incluídos na medida.[19] A Folha sugere o mesmo em editorial sobre o pacto federativo. Para o jornal, “de nada valerá a ajuda, entretanto, se não estiver condicionada a metas rigorosas de reequilíbrio orçamentário —incluindo reformas previdenciárias, privatizações e revisão de benefícios tributários— e sanções imediatas nas hipóteses de descumprimento”.

Conclusão

Com relação à semana passada, o eixo de críticas à atuação de Bolsonaro se repete, mais uma vez com destaque unânime para o caso da crise Amazônica. De modo geral, nessa e nas outras temáticas mais recorrentes, os três jornais apresentam posicionamento similar. No que diz respeito à economia, o crescimento de 0,4% do PIB é bem recebido, enquanto Bolsonaro é apontado como tendo pouca responsabilidade nisso. A reforma da Previdência continua defendida em uníssono. Observam-se posições contrárias ao posicionamento do presidente repetidas vezes, mas adesão à agenda de reformas que avança em seu governo.

[1] Menos ruim. Folha de S. Paulo, 30/08/2019.

[2] Cautela, depois da boa surpresa. O Estado de S. Paulo, 3/9/2019.

[3] País cresce, apesar do governo. O Estado de S. Paulo, 30/08/2019.

[4] Infraestrutura no buraco. O Estado de S. Paulo, 31/08/2019.

[5] Melhoram as perspectivas econômicas. O Globo, 01/9/2019.

[6] Desespero com as contas. O Estado de S. Paulo, 28/8/2019.

[7] O arrocho de 2020. Folha de S. Paulo, 3/9/2019.

[8] A política do confronto não pode continuar. O Globo, 29/8/2019.

[9] Brasil precisa de política ambiental consistente. O Globo, 31/8/2019.

[10] Erros amazônicos. Folha de S. Paulo, 1/9/2019.

[11] A razão calcinada. Folha de S. Paulo, 28/8/2019.

[12] A degradação da Presidência. O Estado de S. Paulo, 28/8/2019.

[13] Mais reprovado. Folha de S. Paulo, 2/9/2019.

[14] Insatisfação consolidada. O Estado de S. Paulo, 3/9/2019.

[15] Contra a imprensa. Folha de S. Paulo, 29/8/2019.

[16] Desafio jornalístico. O Estado de S. Paulo, 31/8/2019.

[17] A Previdência avança. O Estado de S. Paulo, 30/8/2019.

[18] Senado avança, com habilidade, na Previdência. O Globo, 2/9/2019.

[19] A deterioração das contas públicas. O Estado de S. Paulo, 1/9/2019.