03/10/2019 -

 

Juliana Gagliardi, Eduardo Barbabela, Lidiane Vieira e João Feres Júnior

No período de 25 de setembro a 1º de outubro os editoriais da grande imprensa[1] abordaram as temáticas listadas na Figura 1. Consideramos, para análise mais específica em nosso boletim, os eixos principais. Os dois primeiros são governo Bolsonaro e economia, respectivamente. Compartilharam a terceira posição de temáticas mais frequentes a administração pública e a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) com impacto na Lava Jato.

Figura Boletim 7

Figura 1: Temáticas presentes nos editoriais (25/9 a 1/10/2019)

Nesta semana, mais uma vez Bolsonaro e seu governo captaram especialmente a atenção nos editoriais dos três jornais que monitoramos. Entre o subtemas que compõem este eixo temático, destaca-se o discurso do presidente na assembleia-geral das Nações Unidas, alvo de críticas nos três jornais que consideraram sua fala agressiva, carregada de ideologia,[2] fanaticamente alinhada aos EUA[3] e direcionada a “convertidos”.[4] Para a Folha, além da falta de moderação e da insistência na falácia do socialismo, Bolsonaro errou ao não ter citado a reforma da Previdência ao falar da abertura da economia. OESP sublinhou sua retórica antagonista e afirmou que o discurso contraria o multilateralismo brasileiro, que ganhou o respeito da comunidade internacional em governo anteriores. O Globo também focou sua crítica no aspecto ideológico que destoa da tradição do Itamaraty, mas destaca, brevemente, pontos que considera positivos: “A menção ao interesse em ‘reconquistar a confiança do mundo’, por meio da desburocratização e desregulamentação, foi um deles. Assim como a defesa da liberdade política da qual é dependente a liberdade econômica, e vice-versa.” Outro ponto que apareceu em OESP e, mais timidamente, em O Globo, foi a crítica feita à mídia. OESP compara as táticas utilizadas pelo presidente brasileiro e por Trump contra o que o jornal considera ser a imprensa crítica.[5] Enquanto O Globo, em crítica rasa, aponta[6] as menções “ao papel supostamente negativo da ‘mídia’, um dos alvos preferenciais do bolsonarismo de raiz, acusações a Cuba e ataques ao socialismo. Pontos que mobilizam apenas os nichos mais ideológicos que o apoiam”. O tema é, portanto, inserido como um comentário em meio a outros, sem receber destaque ou detonar discussões sobre a democracia.

Em outro subtema – o populismo –, OESP critica novamente a vinculação de Trump a Bolsonaro em dois editoriais publicados em dias seguidos. O jornal fala de populismo como um “mau negócio”[7] a partir dos exemplos dos dois presidentes e argumenta que líderes dessa vertente pretendem exercer poder à margem da democracia, mas enfrentam atualmente pedido de impeachment (nos EUA) e seguidas derrotas no Judiciário (no Brasil). Embora o segundo texto não cite nominalmente o presidente brasileiro, apresenta nas entrelinhas o caso brasileiro como populista.[8]

Falando sobre a derrubada dos vetos presidenciais à Lei do Abuso de Autoridade, a Folha considera o assunto como um debate que esteve, desde o início, “contaminado por casuísmo, de um lado, corporativismo, de outro, e paixões ideológicas de lado a lado”. O editorial responsabiliza Bolsonaro pela tensão no mundo parlamentar.[9]

Outro subtema que rendeu críticas ao governo aparece em O Globo, em editorial que aborda (e critica) o crescimento do número de acidentes graves após a retirada de pardais, por decisão de Bolsonaro. O jornal argumenta que a medida pode até render votos, mas, com prejuízos para o SUS  e aumento de vítimas fatais, termina com “saldo negativo”.[10]

No OESP, em mais um editorial[11] crítico ao governo, destaca-se a inabilidade de Bolsonaro de se relacionar com o Congresso, o que resulta na ausência de uma base política articulação.  Não condena a forma de buscar lealdade que o governo tem empregado  – com a distribuição de cargos comissionados –, mas sim a forma como vinha se dando, sem pragmatismo. Para o jornal, essa prática não fere o republicanismo se for feita de modo que “atenda não aos interesses pessoais do presidente da República ou dos parlamentares governistas, e sim aos interesses do País”. O texto concede ao governo um voto de confiança sobre estar agora trilhando um caminho mais pragmático e responsável com o sentido de estabelecer relação com o Congresso. Ainda considerando a forma negativa com que o presidente lida com crises, OESP aborda ainda o custo Bolsonaro para o agronegócio, argumentando que o governo prejudica a atividade, que teme represálias à política ambiental do presidente.[12]

O último subtema dentro do eixo temático de críticas ao governo Bolsonaro se refere a seus ministérios e aparece nos jornais paulistas. A Folha[13] abordou medida da ministra Damares, que denunciou ao Ministério Público uma revista que abordou o aborto seguro, caracterizando a posição como uma “tentativa absurda de censurar publicação informativa sobre o aborto”. O editorial critica ministra por agir a partir de crenças religiosas e não do interesse público. Já OESP[14] considerou o corte de verbas no Ministério da Educação criticando o ministro Weintraub por desconhecer a área que dirige, por não ter projeto para o ensino superior e menosprezar o fato de que  “é nas universidades de ponta onde se discutem e desenvolvem políticas públicas”.

Após as considerações sobre Bolsonaro e seu governo, economia foi novamente o segundo eixo temático mais frequente nesta semana. Considerando o quadro econômico geral, a Folha, ao mesmo tempo, afasta suposições de recaída da recessão econômica, mas ressalta o crescimento pífio do PIB. O jornal conclui afirmando que “parece plausível que o país em breve passe a crescer em ritmo superior a 1% ao ano”[15] e demonstra expectativas de que o governo restabeleça a confiança do mercado e aprove as reformas. OESP foca no péssimo prognóstico da economia brasileira, critica a condução da política econômica feita por Paulo Guedes[16] e supõe avanços medíocres, além de um processo de desindustrialização[17].

 O mercado de trabalho aparece como um subtema em OESP e O Globo. O primeiro elogia os dados que apontam melhora.[18] O Globo considera modestos os dados de emprego, mas diz que podem ser vistos com algum otimismo se comparados a tempos anteriores – e ataca os governos petistas. O jornal conclui defendendo que a reforma da Previdência é essencial para o crescimento da economia brasileira.[19] OESP também menciona a reforma em outro editorial ao defender a inclusão de estados e municípios nela para garantir a gestão das finanças estaduais e municipais.[20]

Ainda no eixo da economia, a Folha trata do subfinanciamento da saúde diante de grandes volumes de recursos públicos destinados a outras áreas e critica a dedução de gastos com saúde do imposto de renda, porque beneficia os mais ricos e implica em perda de receita.[21]

Outros dois eixos temáticos empatam na terceira posição. O primeiro é a administração pública com foco nas empresas estatais de água e saneamento. O Globo defende claramente a privatização da Cedae e afirma, com satisfação, que o governo Witzel está percebendo isso, mesmo depois de ter falado na campanha que não mudaria o controle acionário da empresa. O texto defende que o serviço é ruim e que não há outra alternativa.[22] Dois dias antes, em outro editorial, O Globo também já havia defendido, de forma geral, o argumento de que as empresas estatais estaduais têm baixa eficiência e demandam dinheiro público para continuarem em funcionamento, enquanto a “ampla maioria dos estados” enfrenta falência. Nesse caso, também enfatizou a defesa de que sejam privatizadas.[23] A Folha também abordou o serviço de água e esgoto do estado de São Paulo. O jornal apresentou recomendações do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) para a reforma do sistema de tarifas, com foco no caso da Sabesp, e defendeu projeto em tramitação no Congresso que visa permitir a ampliação da participação da iniciativa privada no setor.[24]

Quanto ao segundo eixo temático, O Globo abordou o julgamento no STF da tese de que réus delatados possam falar após delatores e antes da sentença. O jornal explicita receio de que isso poderia anular sentenças e jogar por água abaixo a atuação da operação Lava Jato. Demonstra-se contrário à alteração, com base no argumento do abalo de credibilidade das instituições diante da população. Por isso pede que o STF “reduza danos”.[25] Três dias depois, defendendo mais uma vez a Lava Jato,[26] enfatiza novamente a crítica à medida com os mesmos argumentos, destacando o impacto que teria na opinião pública sobre corrupção. Nesta ocasião, defende a proposta do ministro Toffoli, de “modulação” do veredicto, que prevê considerar cada caso um caso. Segundo o jornal, a “partir do mensalão, passou-se a acreditar que políticos e empresários, ricos e poderosos, também poderiam vir a ser presos em processos sobre o roubo do dinheiro público. A depender do que acontecerá amanhã, haverá dúvidas.”

No período pesquisado, o tema também apareceu na Folha que, embora abra espaço para o reconhecimento de excessos, também teme pela revogação da credibilidade da força-tarefa. Assim como O Globo, a Folha atribui ao STF a responsabilidade de não deixar que isso ocorra. Segundo o editorial, “cabe ao Supremo garantir que os limites estabelecidos pela Constituição não sejam ignorados pelos que combatem os malfeitos. A missão delicada agora será fazê-lo sem descambar para uma impunidade retroativa generalizada”.[27]

Conclusão

Mais uma vez, conforme ocorreu em semanas anteriores, o governo Bolsonaro e a economia são temáticas predominantes nos editoriais da grande imprensa. No que diz respeito a Bolsonaro, as críticas são abundantes, especialmente, nesta semana, sobre seu discurso na ONU, visto como radical e destinado a correligionários. Politicamente, o presidente é responsabilizado pela inabilidade em se relacionar com o Congresso e construir uma base de apoio. Sobre a condução econômica, mesmo destacando um cenário terrível, há suposições de que houve alguma melhora em relação aos governos anteriores – melhora que, muitas vezes, é apontada como algo que acontece sem o devido apoio do governo. Ainda assim, há alguma condescendência com relação ao seu governo – a perspectiva de futuro e de possíveis mudanças positivas está presente. Ao abordar empresas estatais, como de costume, pinta-se um quadro de ineficiência, desgaste e falência, no qual a privatização é apontada como única alternativa. E a operação Lava Jato continua sendo defendida como símbolo máximo do combate à corrupção, postura que os jornais cobram agora do STF.

[1] Para este boletim, consideramos 48 editoriais publicados por Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo.

[2] Bolsonaro faz na ONU discurso para a militância, O Globo, 25/9/2019.

[3] Bolsonaro na ONU, O Estado de S. Paulo (OESP), 25/9/2019.

[4] Colcha de retalhos, Folha de S. Paulo (FSP), 25/9/2019.

[5] A garantia da democracia, OESP, 27/9/2019.

[6]  Bolsonaro faz na ONU discurso para a militância, O Globo, 25/9/2019.

[7] Populismo é mau negócio, OESP, 29/9/2019.

[8] A resistência do populismo, OESP, 30/9/2019.

[9] Vetos que caem, FSP, 26/9/2019.

[10] Como se previa, retirada de radares fez aumentar tragédia nas estradas, O Globo, 25/9/2019.

[11] Pragmatismo, afinal, OESP, 29/09/2019.

[12] O custo Bolsonaro, OESP, 30/09/2019.

[13] A ofensiva de Damares, FSP, 29/09/2019.

[14] Reitores sensatos, OESP, 27/9/2019.

[15] Tímidos sinais, FSP, 30/09/2019.

[16] Longe do azul, OESP, 01/10/2019.

[17] Esperança em meio mandato, OESP, 30/09/2019.

[18] A recuperação do emprego, OESP, 27/09/2019.

[19] Algum otimismo com o mercado de trabalho, O Globo, 27/09/2019.

[20] Disciplina fiscal, federação real, OESP, 26/09/2019.

[21] Carências da saúde, FSP, 25/09/2019.

[22] Apoio de Witzel à privatização da Cedae é essencial para o saneamento, O Globo, 01/10/2019.

[23] Ineficiência de empresas agrava crise nos estados, O Globo, 29/09/2019.

[24] O preço da água, FSP, 01/10/2019.

[25] Cabe agora ao STF reduzir os danos, O Globo, 28/09/2019.

[26] Proposta de Toffoli aponta caminho para a modulação, O Globo, 01/10/2019.

[27] Nova ordem, FSP, 28/09/2019.