15/06/2018 -

 

Rachel Meneguello é professora titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e fundadora do Centro de Estudos de Opinião Pública – CESOP. Possui diversos artigos e livros publicados sobre partidos políticos, comportamento político e democracia. Durante sua trajetória, tem integrado os quadros de várias entidades da Ciência Política, como a Associação Brasileira de Ciência Política, a Asociación Latinoamericana de Ciencia Política, o Comitê de Avaliação da CAPES e o Comitê Assessor da área no CNPq. Desde 1993 é editora científica da revista Opinião Pública.

Meneguello integra, ainda, o Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação (INCT), dedicado a ampliar o debate sobre democracia e mídia no país. São essas temáticas, frente ao atual contexto político brasileiro, que discute nesta entrevista para o Manchetômetro realizada no dia 4 de abril.

Na Ciência Política, assim como em outras disciplinas acadêmicas, os periódicos são os principais meios de comunicação de resultados de pesquisa. Há cerca de 25 anos como editora da Opinião Pública, revista que é referência na área de Ciência Política, como você observa o desenvolvimento dos estudos que relacionam mídia e política?
Rachel Meneguello: Essa área teve uma evolução muito grande nesse tempo e eu acho que não erro ao dizer que, em parte, quando nós fundamos a revista, vinte e cinco anos atrás, quando nós pensamos o projeto da Opinião Pública, essa foi uma das áreas em que queríamos estimular o interesse e a pesquisa, fosse por tradução de textos internacionais para os alunos terem mais acesso a essa área, fosse por dar espaço para publicação de trabalhos, inclusive de colegas de outros centros fora de São Paulo, porque a área de mídia em São Paulo, se eu não estou equivocada, não era tão desenvolvida há quinze ou vinte anos. O Rio de Janeiro sempre apresentou mais envolvimento nessa área, até porque tinha a Revista Comunicação Política, tinha um grupo mais forte aqui de produção. Esse foi um espaço que as revistas científicas ajudaram a desenvolver. Você me perguntou se as revistas são importantes para esse desenvolvimento dos estudos de mídia e política, é isso?

Exatamente. E como você vê o desenvolvimento dos estudos de mídia e política dentro das revistas científicas, da Opinião Pública e de outras revistas científicas no Brasil?
Rachel Meneguello: Eu vejo da seguinte maneira. Olhando muito mais pela revista que eu edito, ela tem sido um espaço meio que cativo para essa área, nós sempre estimulamos e gostamos de receber de mídia e política. Como editora da Opinião Pública, vejo que esse é um espaço importante que essa área conseguiu. Mas acho também, se eu fizer uma análise comparativa, que a área de mídia e política ainda tem problemas para se consolidar. Você observa muita coisa jornalística ainda. Mas ao pensar a evolução da área, creio que as revistas foram parte desse processo. E além da Opinião Pública há outros veículos e canais. A área mesmo tem canais muito próprios, os seus congressos, etc., e os pesquisadores de mídia e política preferem publicar nos seus canais como se fossem nativos da área, sendo que parte da produção vai para as revistas, vai para os periódicos mais amplos da Ciência Política. Estou chamando o nosso de um pouquinho mais amplo. Mas o que a gente percebe é que a área ainda tateia um pouco a coisa empírica, ainda tem uma coisa meio jornalística, ainda tem menos reflexão teórica. Não é regular recebermos um artigo que traga as duas coisas: um bom trabalho empírico, porque lá é o espaço para essa coisa, e uma reflexão teórica mais densa. A gente já chegou a receber coisas internacionais nessa linha, mas nacionais são poucas.

Há, de fato, uma divisão disciplinar entre o pessoal de Comunicação e o pessoal de Ciência Política que trabalha com isso. Eles estão tomando, há algum tempo, caminhos muito diferentes também, uma vez que o pessoal de Comunicação está cada vez mais seduzido por objetos que se referem à internet, abandonando o estudo tradicional de eleições.
Rachel Meneguello: Eu concordo. Mas a gente não recebe muita coisa sobre isso na revista. Eu conheço algumas pessoas. A gente até viu, em um seminário que houve da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), em São Paulo, na semana passada, o Fábio Malini, que trabalha um pouco com isso. Eu estive em um seminário, em 2015, sobre a crise brasileira e tinha gente fazendo estudos [nessa área]. Tem o pessoal no Paraná que faz isso, que trabalha com redes e faz aqueles desenhos magníficos. Mas os desenhos são magníficos; essa é a ideia, não é? As pessoas usam a tecnologia e fazem algo visualmente fantástico para entender um processo de comunicação de algum evento ou questão importante. Mas, e aí? O resultado é sofisticado e maravilhoso, mas de difícil compreensão e sem análise política. Então, eu acho que a gente está ainda nessa fase. Eu não sei se eu estou tendo a percepção correta; se estou sendo, enfim, justa com a área, mas para aquilo que aparece na revista eu vejo assim. Claro que eu não conheço essa área tão bem. Não é a minha área de pesquisa.

Em suas análises mais recentes, você argumenta que nossa democracia perdeu seu centro métrico. Quais acontecimentos, em sua visão, levaram à configuração dessa realidade política e quais são as suas implicações? Você acredita que os meios de comunicação tradicionais e, mais recentemente, os digitais contribuíram para a conformação desse cenário? Em outras palavras, o que você acha da participação dos meios de comunicação tradicionais e das novas mídias na atual crise da democracia?
Rachel Meneguello:
Eu não quero emitir um senso comum sobre as mídias, mas eu concordo com o senso comum de que elas polarizaram amplamente os processos políticos. As mídias tradicionais foram, talvez, um dos principais vetores dessa polarização. Estou falando de quê? De televisão, de Rede Globo, de Record e Bandeirantes – os grandes canais. Fizeram a polarização. Eles se estruturaram internamente para isso. Se a gente prestar atenção na configuração dos jornalistas, é impressionante como eles se constituíram como equipes para isso. Isso nos veículos tradicionais. Nas mídias novas, nas tecnologias novas, eu não sei muito bem como avaliar. Como isso é uma coisa meio sem controle, você não sabe muito bem onde começa e onde termina e quem é que está começando. Mas, de fato, isso teve ressonância nas mídias tradicionais. Então, aquilo que aparece, que vira evento nas mídias menores, nas alternativas, passa a ter eco nas mídias principais, tradicionais, convencionais e isso tem efeito. Polariza. A questão do centro métrico, creio que você pega essa expressão daquilo que eu falava no seminário da outra semana, que tem muito a ver com o posicionamento dos partidos e, nesse sentido, aponta que no espectro ideológico partidário, há hoje uma lacuna ao meio, com grandes blocos. E tem uma pequena direita lá na ponta, assim como sempre vai ter uma pequena esquerda lá na outra ponta; são residentes constantes. Mas, em termos partidários, isso é muito evidente nesse momento: que depois da eleição de 2014, depois dos equívocos do último governo do PT, depois dos equívocos do impeachment, depois dos equívocos do governo Temer, estamos polarizados.

As pesquisas do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) captam isso?
Rachel Meneguello:
Nossa pesquisa, o Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), é pós-eleitoral, e a ideia não é captar esse clima de posicionamento pré-disputa. A ideia é captar o quanto o sistema representativo de fato representa. Em quem você votou? Qual o posicionamento? Você conhece esse partido, aquele político? Você conhece os partidos? A ideia que baseia o núcleo de perguntas do ESEB, que é internacional, é avaliar o sistema representativo e sua eficácia. As questões mais amplas da democracia, algumas vêm junto com o núcleo internacional, outras são nossas, pois nós temos tradição de avaliar em que pé nossa democracia está. E sobre esse pé em que estamos, estamos muito mal. Um exemplo é a pergunta aberta – “o que é democracia para você? – que é aplicada desde os tempos das pesquisas do Moisés quando no CEDEC, lá no final dos anos 1980. Essa é uma pergunta aberta e temos uma série de, pelos menos, meia dúzia de pesquisas que captam essa cognição sobre democracia e o que vemos é que, de fato, ao longo da democratização houve uma diminuição das respostas “não sei”, e esta é uma diminuição muito interessante. Com a experiência democrática, aumentou-se a cognição sobre o que é democracia. Lá nos anos 1980, quase a metade não sabia o que era democracia. Até 2010, a porcentagem de respostas que afirmavam não saber tinha caído para 20 e poucos porcento. Quando chegamos na pesquisa de 2014, a resposta “não sei” mostrou um aumento impressionante e nós nos assustamos com isso.

Vocês codificam as respostas a essa pergunta aberta?
Rachel Meneguello:
Sim, nós lemos todas, agregamos e codificamos. Procuramos utilizar os mesmos códigos, ao longo dos anos, para fazer isso. Boa parte das respostas tem a ver com direitos: direitos civis, direitos sociais, direito de voto, que sempre foi uma menção forte e específica. A noção dos direitos é muito clara. Mas, quando você observa que depois de 20 anos de governos democráticos, depois de 14 anos de governos petistas, com políticas inclusivas e com um forte discurso de igualdade, um discurso sobre a distribuição de renda, etc., e observa que o entendimento sobre a democracia diminuiu, que esses referenciais não ficaram fortalecidos no mapa de valores dos indivíduos, isso nos preocupou muito, como se não tivessem mais efeito. As pessoas hoje sabem menos o que é democracia do que sabiam antes. Mais de 40% respondem que não sabem. Então nos assusta essa diminuição da cognição.

É um regresso.
Rachel Meneguello:
É um regresso e eu acho esse um dos dados mais importantes para analisar a evolução da adesão democrática. Claro, temos também aquela série da pergunta consagrada: ”Você prefere democracia ou ditadura?”, pelo qual ao longo dos anos democráticos aumenta a preferência pela democracia, mas que em 2014 diminui, e agora com a pesquisa realizada em março de 2018, aprofundou-se a queda.

A mídia tem alguma coisa a ver com isso?
Rachel Meneguello:
Eu acho que sim. Eu acredito que sim, mas não gosto muito de mistificar a coisa da mídia. Eu acho que a experiência das pessoas no seu cotidiano é o que impacta nisso. Quando a gente fez a pesquisa em 2006, ano eleitoral, sobre a desconfiança nas instituições, uma das grandes questões a ser avaliada ali era o acesso à Justiça. Não era nem corrupção. Isso também entrou, mas era acesso à Justiça. E ali, naquela pesquisa, tinha ficado clara a experiência pessoal dos entrevistados: os que entraram na justiça com um processo, os que precisaram de alguma solução jurídica, os que foram ao Ministério Público, etc… Essa experiência tinha impacto sobre a visão e a avaliação do Judiciário e da Justiça no país. Então, por que a gente está falando isso? Porque é essa experiência com as instituições do funcionamento democrático, por exemplo, com serviços de saúde, com serviços de educação, com aquilo que o cidadão tem de experiência institucional no seu cotidiano que tem impacto sobre sua visão.

Nos seus primórdios, os estudos de mídia trabalhavam com a teoria da agulha hipodérmica, como se as pessoas fossem tábulas rasas que replicavam, papagaiavam os conteúdos que recebiam. Com o tempo, alguns estudos com sólida base empírica começaram a mostrar que não é assim. Estudos de recepção mostram que a pessoa tem maior capacidade de responder ao que ela recebe da mídia quanto mais ela tiver experiência direta com o objeto que está sendo noticiado. Por exemplo: Você recebe Bolsa Família, conhece alguém que receba Bolsa Família na sua própria família ou um amigo. Ao se deparar com uma matéria extremamente negativa sobre o Bolsa Família, você tem equipamentos, elementos cognitivos para rebater isso.
Rachel Meneguello:
Mas isso acontecia de fato. A gente viu isso no ESEB de 2010.

Mas, quando você vê uma reportagem sobre corrupção na Lava Jato, você não tem nenhuma experiência direta com isso, nenhuma informação, nada.
Rachel Meneguello:
Nenhuma coisa próxima, você quer dizer. Você sabe que essa questão do Bolsa Família, no Eseb 2010, nós mostramos que conhecer a política, conhecer o programa e conhecer alguém que é beneficiário do programa virava um intermediário de adesão à democracia, entendida nos limites da pesquisa como a preferência pelo regime democrático, a valorização dos partidos, eleições, sobretudo sua dimensão representativa. Os dados indicavam que a política social, a proximidade e a percepção sobre ela fortalecia a própria adesão à democracia. Quando chegamos em 2014, aplicando questões sobre Bolsa Família, novamente nos surpreendemos. O Programa não tinha mais o impacto que teve: conhecer beneficiário ou ser beneficiário e conhecer o próprio programa não tinha mais o mesmo impacto. Adicione-se esse dado ao dado mencionado de queda do entendimento sobre democracia, e levamos um susto sobre as condições da percepção da nossa democracia para a população.

Você mostra, no seu último estudo, a queda da adesão à democracia por parte dos eleitores e a fragmentação da direita brasileira. Nossa base de dados do Manchetômetro, composta de textos sobre política e economia publicados por Folha de SP, Estadão, O Globo e Jornal Nacional desde janeiro de 2014, detecta viés extremamente negativo dessas mídias em relação aos poderes eleitos, Executivo e Legislativo, mas ausência de viés negativo em relação ao Judiciário, ao MP, ao Exército, por exemplo. Você acredita que esses processos estejam associados? Se sim, de que maneira? Na sua visão, como essas variáveis devem influenciar a próxima disputa eleitoral?
Rachel Meneguello:
Eu acho que esse viés negativo tem efeito. Quer dizer, é difícil senão impossível dimensionar que tamanho isso tem. Dentre todos os efeitos que sofremos como cidadãos, que olhamos, lemos e assistimos, qual terá sido o tamanho do efeito da mídia? Mas certamente tem, porque, de 2014 para cá, principalmente após a eleição e a dinâmica que aconteceu com o Congresso, com a atuação de Eduardo Cunha e outros, o discurso contrário à instituição representativa tornou-se muito forte. Antipartido, antilegislativo, antipolítico, anticongresso, esse discurso é muito forte, e por que que não é contra o Judiciário? O Judiciário vai indo, por enquanto, numa direção que favorece interesses específicos. Além disso, há uma onda de motivação da judicialização da política e de dimensões relacionadas a ela e à vida cotidiana. Ainda é muito difícil saber como isso afetará as eleições, porque precisamos saber quem serão os interlocutores dessas questões e de outras. Mas não há dúvida, por exemplo, que a presença de Bolsonaro na campanha potencializa o discurso da ordem e autoridade tão difundido pelos meios de comunicação.
Não quero ser superficial sobre o os efeitos que a televisão tem. De novo, essa não é a minha área de análise. Mas não é difícil perceber que os discursos que estão compondo a cena pública hoje são discursos antipoderes eleitos e até contra a própria eleição, quando, por exemplo, alguém fala: “a gente nem sabe se vai ter eleição em novembro”. Emite-se uma afirmação dessa e de repente vem a Globo: “será que é bom ter eleição em novembro?” Ou seja, são emissões de discursos que podem naturalizar a quebra institucional.

As suas pesquisas revelam significativa recuperação no quesito identidade partidária pelas organizações políticas após 2016, destacando-se os desempenhos do Partidos dos Trabalhadores e do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Como esse fenômeno pode ser explicado? Paradoxalmente, diversos trabalhos, como os realizados pelo Manchetômetro, explicitam que esses partidos são tratados de maneira muito distinta pela grande imprensa. Como você observa essa questão dos partidos?
Rachel Meneguello:
Faço só uma observação: não tem ali um reverso de identificação partidária.

Tem uma retomada do PT, não é?
Rachel Meneguello:
Tem uma retomada do PT, que é interessante, porque a queda que ele teve foi muito grande comparativamente com a sua série histórica, não é? Teve uma queda muito significativa. E houve essa subida que é recente, que é do ano passado para cá, do PT, elevando portanto a tendência da identificação partidária geral. E aí temos um PSDB que sobe um pouco mais, mas é muito pouco. Mas não há uma recuperação significativa. Esses são dados que o ESEB permite aprofundar quando você analisa o conhecimento do partido, que é um dado que eu trago para 2014: as pessoas passaram a desconhecer mais os partidos do que elas já desconheciam. “Conhece o PT?” “Conhece o PSB?”, etc. Boa parte das pessoas responde “não”. Então, tudo isso é muito preocupante, porque os dados mostram diferenças importantes com as pesquisas anteriores. Mas são confirmados quando comparados com pesquisas do IBOPE e do DataFolha. De fato você tem quedas importantes em todos os indicadores que falam da adesão ao sistema representativo, à democracia e aos partidos e isso é o que preocupa.

Rachel, nos últimos meses vimos não só o corte dos investimentos públicos nas instituições federais e estaduais de ensino e pesquisa, como também a ameaça à autonomia universitária com a declaração do ministro da Educação, Eduardo Mendonça Filho, de que acionaria o MP para investigar a oferta de uma disciplina intitulada o Golpe de 2016 e o Futuro da Democracia no Brasil, na Universidade de Brasília. Como você avalia as consequências desse cenário para o futuro da Ciência Política brasileira? A reação de parte da comunidade científica, que prontamente elaborou declarações públicas de repúdio à censura e anunciou outros cursos semelhantes pode significar alguma segurança frente à ofensiva conservadora?
Rachel Meneguello:
Bom, eu suspeito que o ministro sabe que ele tropeçou e machucou-se. Ele não precisava ter feito isso e a repercussão foi pior do que a que ele imaginava. Não foi bem assessorado e não soube dimensionar o impacto que a iniciativa do curso teria se ele nada tivesse feito. Mas foi bom ver que a comunidade estava atenta e mobilizada. Espero que tenhamos sempre alguma segurança frente à ofensiva conservadora.