23/04/2017 -

O Manchetômetro foi lançado em julho de 2014 no âmbito do Laboratório de Estudos da Mídia e da Esfera Pública (LEMEP). A razão fundamental para criar o site foi produzir evidências concretas e sistemáticas do comportamento da grande mídia brasileira. Infelizmente, a história da Nova República é também pontuada por tentativas de interferência política da grande mídia, particularmente em períodos eleitorais. Esse ativismo político eleitoral da grande mídia foi detectado por uma pletora de trabalhos acadêmicos ao longo dos anos. Seu marco inicial e simbólico é a edição feita pelo Jornal Nacional do debate entre Lula e Collor, nas vésperas do segundo turno do pleito.

À medida que fazia o acompanhamento da cobertura jornalística da eleição de 2014, a equipe do Manchetômetro foi adicionando novos conteúdos ao site, como os dados da cobertura da eleição de 2010, que mostravam um acentuado viés da grade mídia contra a candidatura de Dilma Rousseff e uma alta incidência de escândalos de corrupção no noticiário político durante o período eleitoral. Adicionamos também análises da cobertura da eleição de 1998, com a finalidade central de testar a hipótese da função de Cão de Guarda do interesse público, que a grande mídia arroga a si própria. O caso de 1998 é perfeito para a comparação com 2014, pois tratava-se de uma campanha de reeleição do então presidente, só que quem detinha o poder no momento era o PSDB e o concorrente da oposição era do PT. Em 2014 os lugares estavam trocados. O resultado da comparação é cristalino: a grande mídia brasileira deu um tratamento favorável ao PSDB em 1998, mas dedicou ao PT e a sua candidata uma cobertura extremamente negativa em 2014.

Findo o período eleitoral, o Manchetômetro continuou a fazer a análise diária da cobertura. Nosso pequeno exército de codificadores continuou a analisar diariamente a cobertura jornalística da política e da economia nos principais meios de comunicação do país: Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e O Globo, e o Jornal Nacional, da Rede Globo, noticiário televisivo líder de audiência.

Ao se aventurar na cobertura pós-eleitoral, o Manchetômetro singrou águas nunca dantes navegadas, pois sua metodologia foi desenhada originalmente para ser aplicada ao clima polarizado da campanha eleitoral. Contudo, esse clima de polarização política recrudesceu ao longo do segundo governo Dilma. O partido derrotado não aceitou o resultado eleitoral, os poderes da República e algumas poderosas burocracias de Estado, como a PF e o MPF, entraram em conflito e o escândalo de corrupção da Lava-Jato, altamente corrosivo para o sistema político, predominou na pauta da cobertura da grande imprensa. Em suma, nossa escolha de permanecer no rumo foi acertada.

Entretanto, a estrutura do site foi ficando um pouco ultrapassada. O aumento da quantidade de dados em nossa base e a utilização de gráficos estáticos forçou uma multiplicação de páginas no site, o que tornou a sua navegação mais complexa e trabalhosa para o usuário.

Decidimos, portanto, fazer uma mudança radical: substituir o site antigo por um completamente diferente, com novo visual e novas funcionalidades. Agora somos um site interativo. Os usuários poderão produzir seus próprios gráficos, escolhendo os temas, os meios de comunicação e o período que lhes interessa analisar. Lançamos também a Série M, que reúne textos de análise de temas específicos da cobertura midiática, sempre utilizando os dados da nossa imensa base de textos codificados.

Este é só o começo. Em breve iremos adicionar novos conteúdos, funcionalidades, variáveis e temas de investigação. Iremos também avançar para a análise do conteúdo jornalístico publicado nos grandes portais noticiosos da internet.

O Manchetômetro evoluiu para a versão 2.0. O desafio colocado à nossa frente é imenso. Mas ele é também fonte de enorme motivação. Na sua história recente, o Brasil nunca esteve tão carente de democracia. Contribuir para aprimorá-la é a missão do Manchetômetro. Mãos à obra!