24/04/2017 -

Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Manchetômetro foi criado para funcionar como uma ferramenta de acompanhamento da grande mídia em tempo real durante as eleições de 2014. Naquele momento, alguns aspectos da cobertura saltaram aos nossos olhos: uma abordagem extremamente negativa sobre as instituições políticas brasileiras, a abundância de notícias negativas sobre a economia do país, e, finalmente, a existência de um forte viés contrário à então candidata Dilma Rousseff, que tentava a reeleição para a presidência da República, e a seu partido, o PT.

Os meses que se seguiram à reeleição de Dilma Rousseff para a presidência da República foram conturbados: desdobramentos da Lava Jato, tentativas de alteração do resultado das eleições por parte do partido derrotado, o PSDB, atritos entre o Executivo Federal e o Legislativo, sobretudo após a eleição do peemedebista Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, e, finalmente, um dos fatos mais relevantes de nossa recente história democrática: a aceitação do processo de impeachment, que culminou no afastamento da presidenta e na posse de seu vice, o também peemedebista Michel Temer. Neste artigo, procuramos examinar especificamente o comportamento da grande mídia frente aos principais fatos políticos após o início do segundo mandato de Rousseff, dando ênfase ao período de transição e aos primeiros meses do Governo Temer.

Análises

As análises apresentadas neste artigo levam em consideração as notícias que tratam de temas da política brasileira publicadas na capa e nas páginas de opinião dos jornais impressos Folha de S.Paulo, O Globo e Estado de S.Paulo, além de todas reportagens sobre os mesmos temas exibidas no televisivo Jornal Nacional, entre 1 de janeiro de 2015 e 20 de abril de 2017 (leia mais sobre a metodologia adotada pelo Manchetômetro aqui).

O primeiro aspecto da cobertura que examinaremos é o enquadramento das notícias que tratam de assuntos relativos ao Congresso Nacional, a governos, a agências, empresas e políticas públicas, além de personalidades políticas. Tais temas estão agregados sob o rótulo Política ou Instituições Políticas, e o enquadramento das notícias foi classificado como Ambivalente, Neutro, Negativo ou Positivo. Vejamos a série temporal da cobertura agregada dos jornais estudados:

Política 2015-2017

O exame dos padrões da cobertura política requer visão holista dos acontecimentos de maior relevo no país. Como já mencionamos, Política é um termo guarda-chuva e por isso, são diversas as variáveis que impactam os resultados do gráfico acima. Salta aos olhos o alto índice de notícias negativas entre os meses de janeiro de 2015 e abril de 2016. Podemos atribuir esse dado à grande atenção dada pela mídia aos desdobramentos da Operação Lava Jato, à lista de Rodrigo Janot que levou políticos à prisão, à tensão entre o governo federal e os parlamentares que marcou o período, ao acolhimento do pedido de Impeachment da presidente e seu posterior afastamento, e às diversas manifestações que ocorreram pelo país no período em questão. De fato, o país atravessava momento de incertezas, marcado por delações, prisões e instabilidade institucional. Tendo em mente que a situação nacional não se reverteria de maneira súbita, era de se esperar que a tendência apresentada naquele período se prolongasse ao longo da série temporal. Não foi isso que ocorreu.

Em maio de 2016, mês em que a presidente Dilma Rousseff foi afastada, houve mudanças súbitas nas tendências das curvas, ascendentes para as notícias neutras e positivas. Mas o dado que mais chama atenção no gráfico é uma inflexão descendente aguda na curva de notícias negativas. Atentemos a ele. O que houve não foi uma oscilação de longo prazo, mas uma importante descontinuidade. Após o ápice de notícias negativas em abril de 2016 (651) tem início uma queda constante até um dos menores índices de todo o período estudado em julho de 2016 (231). Podemos separar o gráfico em dois períodos, tendo por base o padrão da cobertura: o primeiro vai de janeiro de 2015 a abril de 2016 e o segundo de maio de 2016 a abril de 2017. No primeiro momento, a média mensal de notícias negativas foi de 438,94; no segundo, 281,18 – desconsiderando o mês de abril, ainda em curso.

No segundo período de nosso gráfico, o enquadramento das notícias que tratam da política nacional não apenas se tornou menos negativo, mas a quantidade bruta de notícias diminuiu substancialmente. Se observarmos, porém, os fatos mais relevantes do período em questão, notaremos que houve grande efervescência política: a Operação Lava Jato continuou a se desenrolar; vários ministros de Estado caíram; escolas foram ocupadas, especialmente em São Paulo e no Paraná, em resposta à reforma do Ensino Médio proposta por Temer; a Lava Jato chegou ao Rio de Janeiro levando o ex-governador, Sérgio Cabral, à prisão; o governo apresentou uma polêmica Reforma da Previdência, que vem causando manifestações populares; mais de uma centena de detentos foram assassinados em episódios que assolaram unidades penitenciárias Brasil afora; uma crise de segurança atingiu o estado do Espírito Santo durante greve de policiais; e, por fim, a chamada Operação Carne Fraca da Polícia Federal atingiu diversas empresas brasileiras, acusadas de adulterar carnes vendidas tanto no mercado interno quanto no externo. O contexto de crise política em si parece ter baixo potencial explicativo efetivo para a mudança de tendência que identificamos a partir de maio.

O leitor atento certamente já notou que há um acontecimento bastante determinante que marcou a descontinuidade da cobertura entre os dois períodos analisados: o  afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República e sua substituição pelo vice, Michel Temer. Essa parece ser o dado de maior poder explicativo para a mudança radical do perfil da cobertura. Um leitor cético poderia afirmar, com alguma razão, que o gráfico acima não é suficiente para demonstrar que a alteração identificada seja resultado de uma atitude benevolente por parte dos grupos de mídia analisados com relação ao governo de Michel Temer, pois a categoria Política consiste numa amálgama de temáticas, dentre elas, algumas que se relacionam diretamente e outras que não tem nenhuma ligação com o Executivo Federal. Para resolver essa questão, contamos com o código “Governo Federal”. Ele é marcado todas as vezes que aparecem referências diretas a essa instância: notícias sobre o Planalto, seus Ministérios, Secretarias, órgãos e empresas públicas federais. Abaixo, temos um gráfico que mostra o total de notícias sobre o Governo Federal publicadas nos quatro veículos sob análise, de 1º de janeiro de 2015 a 20 de abril de 2017, separadas por valência.

Governo 2015-2017

Fica bastante explícito no gráfico 2 que, de janeiro de 2015 a abril de 2016, a cobertura do governo federal teve um número de notícias contrárias consideravelmente mais elevado que o de notícias neutras. Nos quatro picos mostrados no gráfico acima, março de 2015, setembro de 2015, dezembro de 2015 e março-abril de 2016, a proporção entre negativas e neutras é em torno de 4 para 1! Em maio de 2016, mês em que o Senado aprovou a abertura do processo de impeachment afastando Dilma Rousseff e sua equipe, essa tendência foi interrompida. O número de notícias contrárias começou uma trajetória de queda: caiu pela metade em comparação a abril e continuou a decrescer até agosto, mantendo-se em patamar estável até outubro. Também em maio, as notícias favoráveis — que, de forma geral, são raras na cobertura da política – alcançaram um pico inédito: 124 entradas. Note-se que, desde então, esse tipo de notícia recebeu muito mais espaço: a média mensal de notícias favoráveis ao governo foi de 16,5 entre janeiro de 2015 e abril de 2016, a partir da posse de Temer, contudo, essa média subiu para 69,6 por mês. A conjugação dos dois fatores — queda no volume de notícias contrárias e aumento de favoráveis — resultou em um quadro totalmente inédito em toda a série temporal coberta pelo Manchetômetro: de julho a outubro de 2016 as curvas de notícias favoráveis e contrárias vão praticamente sobrepostas.

A partir de maio de 2016, nota-se uma queda aguda no número de notícias sobre o Governo Federal. Em outras palavras, as estratégias de agendamento[1] adotadas pelas editorias dos jornais no período imediatamente posterior ao afastamento da presidenta consistiram em conceder menos espaço para notícias relativas a essa instância — tendência que o gráfico 1 já havia demonstrado. À primeira vista, poderíamos imaginar que os primeiros meses do governo Temer transcorreram na mais absoluta estabilidade. Na verdade, antes mesmo do afastamento definitivo de Dilma Rousseff, a equipe do primeiro escalão de Temer já havia sofrido quatro baixas: Romero Jucá (PMDB), então Ministro do Planejamento, foi afastado ainda em 23 de maio em decorrência do vazamento de um áudio no qual falava em um “pacto” para deter o avanço da Operação Lava Jato; Fabiano Silveira, que ocupava o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle, pediu demissão após vazamento de uma conversa em que tecia críticas à Operação Lava Jato; em junho foi a vez de Henrique Eduardo Alves (PMDB), ministro do Turismo, que saiu após ser acusado por um delator de receber propinas; e, por fim, Fábio Medina Osório, então Advogado Geral da União, foi afastado em agosto depois de se envolver em atritos com o governo ao tentar ajuizar ações de improbidade contra empreiteiras envolvidas na Lava Jato.

Para além dos problemas envolvendo membros de sua equipe de governo, desde que se sentou na cadeira presidencial, Michel Temer tem apoiado, quando não promovido, uma série de reformas: a Reforma do Ensino Médio, apresentada em forma de Medida Provisória em dezembro de 2016; a Emenda Constitucional nº 95 que estabelece limites para os gastos públicos pelos próximos vinte anos; a proposta de Reforma da Previdência que pretende, entre outras coisas, aumentar a idade mínima e o tempo de contribuição para recebimento de benefício integral; alterações nas regras de exploração do pré-sal; a proposta de Reforma Trabalhista que possibilita que acordos provenientes de negociações coletivas possam se sobrepor à CLT; além da recente aprovação do projeto de lei que permite a terceirização dos trabalhadores de forma irrestrita. Todos esses temas são de extrema importância para a vida dos brasileiros, e foram objeto de intensa controvérsia pública, mas isso não se refletiu na cobertura dos veículos aqui estudados.

Se admitirmos a hipótese de que o tratamento dado ao governo federal enquanto Dilma Rousseff ocupava a presidência era resultado do cumprimento do papel de cão de guarda do interesse público — papel este que, segundo parte da teoria democrática normativa, deve ser desempenhado pela mídia em democracias complexas contemporâneas – somos obrigados a concluir que o vigilante anda sonolento nos últimos meses, pelo menos no que toca o Governo Federal.

Conclusões

Neste artigo, examinamos a cobertura da grande mídia sobre a política brasileira desde o início do segundo mandato de Rousseff até os primeiros onze meses do governo Temer. Como demonstram os dois gráficos apresentados, a transição entre um momento e outro foi marcada por uma mudança radical no noticiário político: ele não apenas se tornou menos frequente como adquiriu caráter menos negativo e mais positivo, tanto no que se refere aos temas genéricos, como especificamente no que se refere ao Governo Federal. Esta alteração na agenda dos veículos de comunicação não pode ser explicada pela relevância dos acontecimentos testemunhados pelos cidadãos brasileiros ou por uma mudança na intensidade da crise política.

Para explicar o comportamento da grande mídia nos primeiros meses do governo de Michel Temer o conceito de jornalismo cão de guarda pouco nos serve. Parece-nos mais adequado recorrer a outro conceito: o de Lua de Mel. Este foi proposto para descrever períodos pós-eleições presidenciais nos Estados Unidos, quando os novos mandatários contam com certa boa vontade tanto da opinião pública quanto do Legislativo e da mídia no início de seu governo.

A analogia com períodos pós-eleitorais certamente não é perfeita. Em princípio, pelo simples fato de que Michel Temer não foi propriamente eleito, mas assumiu o governo após um processo de impeachment — que, inclusive, foi objeto de grande controvérsia. A saída de Dilma Rousseff resultou em uma retirada de seu partido do Governo Federal, e na ocupação dos cargos por integrantes do PMDB, partido de Temer, do PP, partido com maior número de investigados na Operação Lava Jato, e do PSDB, partido derrotado nas eleições de 2014. A conjuntura adversa na qual ocorreu a transição não muda o fato de que os veículos aqui examinados de fato trataram o governo Temer com benevolência — e, poderíamos dizer, até com ânimo — com a qual Dilma Rousseff não foi agraciada nos primeiros meses de seu segundo mandato. Temer parece ter contado também, como prevê a literatura, com uma Lua de Mel no Legislativo – o que não causa estranhamento tendo em vista a força de seu partido na Câmara e no Senado e o fato de ele ter sido indiretamente levado à presidência, entre outras coisas, pela ação articulada das duas casas legislativas. O mesmo não se pode dizer da opinião pública, cujos interesses os veículos de mídia aqui analisados dizem defender. Desde que assumiu, mesmo com o noticiário a seu favor e mantendo relações amigáveis com o Congresso Nacional, Temer nunca obteve índice de aprovação superior a 14%.

No Brasil, aqueles que se vendem como cães de guarda do interesse público se comportam, na verdade, como uma facção militante cuja agenda política é explicitamente pró-mercado, pró-capital financeiro e contra o Estado, particularmente contra uma concepção de estado de bem-estar social. A alegoria do cão de guarda que se aplica ao caso brasileiro não é aquela da proteção contra agressão externa. O interesse público no Brasil está encerrado em uma prisão, e o cão de guarda na verdade tem a função de evitar que ele se liberte dela e possa então ganhar expressão e vida próprias.

[1] Agendamento é aquele poder que os editores e donos de jornal têm de ditar os assuntos que são noticiados e aqueles que não são noticiados.