24/08/2017 -

Foto: Lula Marques/AGPT

Como a mídia brasileira noticiou as votações na Câmara dos Deputados relativas ao afastamento e à investigação de dois presidentes da República, Dilma Rousseff e Michel Temer, que ocorreram em intervalo de um ano? A fim de iniciar esta investigação, verificamos a valência dos textos de capa e das páginas de opinião dos dois personagens do dia 1º de janeiro de 2016 a 9 de agosto de 2017, nos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo e no Jornal Nacional, da Rede Globo. O período em questão cobre os momentos mais críticos do processo de impeachment de Dilma Rousseff, e passa pela publicização do áudio da conversa entre Michel Temer e o empresário Joesley Batista que subsidiou a denúncia do procurador geral da República, Rodrigo Janot, contra o peemedebista. A análise de valências tem como objetivo apurar o perfil das notícias em quatro critérios de classificação: ambivalentes, contrárias, favoráveis e neutras.

Conforme pode ser conferido no Gráfico 1, a seguir, Dilma Rousseff foi alvo de cobertura intensamente negativa por parte dos jornais investigados e também do Jornal Nacional. O volume de notícias negativas é muito alto em todos os meios, particularmente em O Globo, e o percentual de notícias positivas é próxima a zero:

GRÁFICO 1 – A valências das notícias sobre Dilma Rousseff 2016/2017

Gráfico Dilma

 

 

FONTE: Manchetômetro, 2017.

No caso do presidente Michel Temer, é curioso verificar que os mesmos veículos de comunicação têm um perfil de cobertura bem mais diverso no mesmo período, quando ele também foi alvo de denúncia e teve uma votação pedindo a sua investigação na Câmara dos Deputados. O Gráfico 2 mostra que a Folha de S.Paulo publicou número mais elevado de notícias contrárias a Temer, seguida de O Globo. No entanto, as matérias favoráveis aparecem em todos os veículos, e no Estadão observa-se uma quase equivalência entre as notícias favoráveis, neutras e contrárias:

GRÁFICO 2 – A valências das notícias sobre Michel Temer 2016/2017

Gráfico Temer

 

FONTE: Manchetômetro, 2017

Ainda que os dados acima expostos sejam reveladores, a agregação de dados de valência do Manchetômetro é insuficiente para responder de forma satisfatória à pergunta que norteia este trabalho. Para refinar nossa investigação, optamos por outras estratégias metodológicas: uma análise comparativa utilizando nuvens de palavras e recursos lexicométricos. Limitamos a base de dados textuais às capas e as páginas de opinião dos jornais Folha, Estadão e O Globo em dois recortes temporais mais curtos: o primeiro de 17 a 20 de abril de 2016 e o segundo de 1º a 4 de agosto de 2017, respectivamente, o dia da votação do afastamento da presidente Dilma Rousseff e os três dias subsequentes, e o dia da votação da autorização para o Supremo Tribunal Federal (STF) abrir processo criminal contra o presidente Michel Temer e os três dias posteriores.

A primeira parte da análise consistiu no carregamento de todas as primeiras páginas e as páginas de opinião no programa de análise de discurso NVivo9. Os textos foram separados segundo as seguintes classificações: capas Dilma (critério: primeiras páginas dos jornais nos dias relativos à votação do impeachment de Dilma), opinião Dilma (critério: páginas de opinião nos dias referentes à votação do afastamento), capas Temer (critério: primeiras páginas dos jornais nos dias relativos à votação da autorização de investigação de Temer) e opinião Temer (critério: páginas de opinião concernentes à votação de autorização de investigação).

No primeiro procedimento, identificamos expressões repetitivas que denotam padrões narrativos com potencial de gerar efeitos de sentido relativos aos dois presidentes em seus respectivos momentos da análise. A primeira unidade de observação nos textos jornalísticos foram as capas. A contagem da frequência de palavras nas primeiras páginas de Folha, Estadão e O Globo no período de 17 a 20 de abril de 2016 — da votação na Câmara dos Deputados do afastamento de Dilma até três dias depois — mostra que a palavra impeachment é a segunda mais frequente, com 15 repetições, perdendo apenas para a palavra presidente, que aparece 23 vezes. Isso é um indicador de que o afastamento de Dilma foi o assunto principal do discurso dos jornais naquele momento.

Ao repetir a consulta nos mesmos jornais em período similar relativo ao presidente Michel Temer, ou seja, de 1º a 4 de agosto de 2017 — do dia da votação na Câmara dos Deputados da autorização para o STF até três dias depois — identificamos que nenhuma capa usou expressões como impeachment, afastamento, corrupção ou crime. Tais palavras não apareceram nem entre as 20 mais citadas nos textos de primeira página. A palavra mais presente nas capas era Temer, seguida de carros. No caso da segunda expressão, as notícias estão relacionadas ao rodízio de veículos segundo as placas, o que denota uma diluição do agendamento do tema em relação a outras notícias do momento, algo que não aconteceu quando da votação de Dilma.

A seguir, reproduzimos a nuvem de palavras segundo a repetição nas capas analisadas nos dois períodos de acordo com a análise de frequência feita no NVivo9:

GRÁFICO 3 – Palavras frequentes nas capas de O Globo, Folha e Estadão (abr/2016)

Capas D-001

FONTE: Projeto Série M – imp.nvp, 2017.
GRÁFICO 4- Palavras frequentes nas capas de O Globo, Folha e Estadão (ago/2017)

Capas T-001

FONTE: Projeto Série M – imp.nvp, 2017.

As duas nuvens dispostas de forma sequencial permitem perceber o destaque diferenciado que foi dado pelos jornais nas coberturas das duas votações pela mesma Câmara dos Deputados. Quando do afastamento da presidente Dilma, o discurso midiático deu ênfase ao impeachment ainda antes da segunda votação, realizada no Senado Federal em agosto de 2016. No caso de Temer, ainda que pesasse contra ele uma denúncia com provas por crime de corrupção passiva, não apareceu na nuvem de palavras frequentes nas primeiras páginas nenhuma expressão que remetesse aos sentidos de corrupção, crime, afastamento ou impeachment.

Em seguida, analisamos as páginas de opinião dos mesmos jornais. No período relativo à votação do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a palavra mais frequente foi presidente (72 vezes), seguida por Dilma (69 repetições) e impeachment (69 ocorrências) (conferir Gráfico 5 a seguir). Quando a análise é feita nas páginas de opinião no momento da votação da investigação de Michel Temer em 2017, as palavras mais frequentes são presidente (23 repetições), Temer (19 vezes) e debates (13 registros) (conferir Gráfico 6 adiante). Apenas na 12ª posição de frequência surge a palavra corrupção (7 ocorrências). Somente em duas ocasiões a palavra fazia referência ao presidente Temer, ambas na Folha de S. Paulo nas edições dos dias 3 e 4 de agosto, com uma curiosidade: nos dois casos, a referência está no Painel do Leitor, ou seja, advém de cartas à redação e não dos colunistas e colaboradores contratados pelo jornal. Os demais textos das páginas de opinião ou falam de corrupção em geral ou a relacionam ao ex-presidente Lula. A seguir, os gráficos relativos às nuvens de palavras frequentes nos dois casos:

GRÁFICO 5 – Palavras frequentes nas páginas de opinião de O Globo, Folha e Estadão (abr/2016)

Opinião D-001

FONTE: Projeto Série M – imp.nvp, 2017.
GRÁFICO 6 – Palavras frequentes nas páginas de opinião de O Globo, Folha e Estadão (ago/2017)

Opinião T-001

FONTE: Projeto Série M – imp.nvp, 2017.

Também fizemos buscas diretamente por palavras selecionadas nas capas dos jornais. Procuramos quatro palavras durante o período da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff: corrupção, crime, denúncia e investigação. Em uma delas, no dia 18 de abril de 2016, é feita uma referência à corrupção associada a Dilma e ao ex-presidente Fernando Collor, afastado em 1992, em chamada da Folha de S.Paulo. As palavras corrupção e investigação aparecem relacionadas ao então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. A palavra denúncia aparece na capa do Estadão de 20 de abril associada à ex-presidente.

No caso do presidente Temer, buscamos localizar nas capas as mesmas quatro palavras específicas ou seus sinônimos durante o período relativo à votação da autorização de investigação pela justiça. Em apenas uma ocorrência emerge a palavra investigação vinculada ao presidente, na primeira página da Folha do dia 3 de agosto de 2017. Ainda que pesassem sobre ele acusações de corrupção passiva, nem a palavra nem qualquer expressão semelhante é usada nos textos jornalísticos que trataram do fato no dia da votação da autorização de investigação pelo STF e nos dias subsequentes. A palavra denúncia aparece uma vez relacionada a Temer, também na capa da Folha do dia 3 de agosto.

Quando fazemos a pesquisa nas páginas de opinião, verificamos que a expressão impeachment emerge uma única vez no período relacionado à votação da investigação de Michel Temer, mas associada ao afastamento de Dilma Rousseff, no dia 3 de agosto de 2017, na Folha de S. Paulo. Nas páginas de opinião, a palavra denúncia emerge quatro vezes vinculadas ao presidente, duas das quais no Painel do Leitor. A mesma expressão aparece duas vezes no período relativo à votação do impeachment, associadas à ex-presidente, na Folha do dia 18 de abril e no Estado de S.Paulo do dia 19 de abril de 2016.

Considerações finais

Neste texto, analisamos comparativamente por meio de diferentes abordagens a cobertura que os meios fizeram de dois eventos bastante similares. O resultado foi um viés consistente contrário a Dilma Rousseff. Em outras palavras, Temer recebeu um tratamento bem mais complacente dos meios de comunicação, a despeito de pesarem contra ele evidências fortes de prática de corrupção, algo que não se verificou em relação à petista.

É sabido, como já mostramos em estudos prévios, que alguns meios de comunicação mudaram sua posição em relação ao governo Temer. Todos os meios analisados pela Manchetômetro apoiaram o impeachment de Dilma, como a presente análise indica mais uma vez, e todos eles deram suporte ao governo Temer, frequentemente festejando sua inclinação reformista neoliberal.

No entanto, a partir do vazamento da gravação de conversa de Joesley Batista com o presidente, os veículos do Grupo Globo mudaram de posição e passaram a atacar Temer, e a Folha de S.Paulo assumiu uma posição ambígua em relação a ele. Mesmo assim, quando analisamos no agregado as coberturas e as comparamos em momentos similares, como fizemos aqui, ainda fica nítida um franco viés anti-Dilma, ou pró-Temer. Em outras palavras, mesmo após a guinada de boa parte dos meios para uma posição mais crítica em relação à Temer, a cobertura jornalística do atual presidente não se compara em negatividade àquela dedicada a governantes do Partido dos Trabalhadores e a outros políticos de esquerda.