19/04/2018 -

As menções ao assassinato da vereadora Marielle Franco (Partido Socialismo e Liberdade – PSOL), no último dia 14 de março, no Rio de Janeiro, não se dissociaram da discussão sobre a intervenção federal em curso no estado de mesmo nome. Isso se deve não apenas ao fato de se tratar de mais uma morte violenta a compor as altas taxas de homicídio, mas ao fato de Marielle ser a vereadora mais votada de seu partido e praticar uma agenda ativa na defesa dos direitos humanos. Mais do que isso, a vereadora do PSOL era relatora de comissão para acompanhar a intervenção, recentemente criada na Câmara dos Vereadores.

Mulher negra, criada na Maré, mãe solteira e homossexual, Marielle era crítica à intervenção federal no Rio de Janeiro. Em post publicado em 16 de fevereiro em sua página do Facebook, apontava para o que entendia ser os efeitos imediatos da intervenção: “mais violência contra a população da favela, mais jovens negros mortos e os abusos cometidos pelas forças armadas sendo julgados pela Justiça Militar, cujos tribunais são compostos por outros militares” e “falsa sensação de segurança para as classes mais altas que vão achar que ‘as coisas melhoraram’”. Dois dias depois (18/2), a vereadora divulgou a chamada para o ato contra a reforma da previdência e a intervenção militar que ocorreu no dia seguinte na Candelária. No dia 20, Marielle discursou no Plenário sobre a, em suas palavras, “absurda” intervenção. No dia seguinte (21/2), ressaltou mais uma vez, em sua página de Facebook, a intervenção como uma “farsa”.

Pouco antes de ser assassinada, enviou um artigo publicado postumamente na capa do Jornal do Brasil (16/03), reafirmando que a justificativa para a realização da intervenção federal não tinha embasamento na realidade, uma vez que o Rio de Janeiro aparecia em décimo lugar nos índices de violência do Anuário de Segurança Pública, atrás de outros estados, como Sergipe, Goiás e Maranhão. De acordo com Marielle, “a segurança pública não se faz com mais armas”, “mas com as políticas públicas em todos os âmbitos”. Seu texto ressalta que as últimas experiências de ocupação das Forças Armadas não resolveram o problema de insegurança e o que elas tiveram em comum não foram episódios alarmantes na segurança pública, mas o fato de terem acontecido em anos eleitorais.

            Como a grande mídia abordou sua posição nesse contexto na ocasião de sua morte? No JB, a cobertura do assassinato de Marielle apareceu no dia 16 de março em quatro páginas da editoria Cidade. O editorial do mesmo dia destacava a posição crítica da vereadora à intervenção, ao mesmo tempo em que reforçava a opinião do jornal de que a ação do Governo Federal havia sido “necessária”, pois não existia outro caminho para o problema da segurança pública no Rio. Enquanto nas palavras de Marielle, os grupos mais vulneráveis (negros, pobres, moradores das favelas) acabam sendo atingidos por esse tipo de medida, para o jornal, “a interventoria não age com ações inspiradas em preconceitos, mas em conceitos”. O jornal afirma que “o reparo, oportuno e respeitoso que se impõe a proclamação derradeira da vida da vereadora, nada mais pretende além de contribuir para a correta interpretação dos fatos e da realidade que vivemos no Rio de Janeiro”.

No dia seguinte (15/3) ao assassinato, O Globo reservou ao caso uma chamada de capa (metade superior da página) e matéria de página inteira na editoria Rio, que abordava a militância política de Marielle. O editorial do jornal, contudo, não tratou do caso, preferindo, ao invés disso, repisar a narrativa de fortalecimento das instituições no combate à corrupção, com críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT). No dia 16, após a grande repercussão do crime que gerou diversas mobilizações país a fora, o espaço reservado pelo jornal foi bem maior.[1] O caso ocupou a capa inteira, seis páginas da editoria Rio, o editorial do jornal, além de ter sido tema de diversos colunistas. A cobertura sobre Marielle foi ampla, abordando os seus temas de luta política, as denúncias feitas pela vereadora e sua oposição à intervenção no Rio.

O editorial dessa data – “Assassinato de vereadora afronta a democracia” – menciona que a Marielle era uma “crítica da violência” e havia “denunciado uma ação de PMs do quartel de Irajá na Favela de Acari”. Mas afirma, ainda, que o assassinato era “um símbolo contundente do descontrole a que chegou a segurança no Rio, situação de anomia que levou à intervenção federal”. O editorial termina conclamando uma investigação rápida e eficiente, e apontando o caso como uma “oportunidade para que se exerça de fato o trabalho de integração entre as diversas forças de segurança proposto pela intervenção federal no Rio”. Em suma, O Globo usa a morte da vereadora para reforçar e legitimar a intervenção federal, silenciando no editorial a posição contrária da própria Marielle.

No dia 17 de março, outro editorial é dedicado a Marielle. Sob o título “Sectarizar a morte de Marielle é um desserviço”, no qual destacamos o trecho abaixo:

Fica em segundo plano o fato de Marielle ter sido vereadora do PSOL. Os atingidos foram todos os que têm representação política obtida pelo voto, todos os eleitores, o próprio estado democrático de direito. Também precisa ser relativizada a questão de a vereadora representar o trinômio “preta, mulher, favelada”, tão usado em proselitismos. Importa é que bandidos, com esse assassinato, buscam sinalizar que o poder é deles. Fosse Marielle “branca e rica”, a execução precisaria provocar a mesma reação do Estado e na sociedade. A morte de Marielle não pode ser apropriada por interesses partidários ou sectários. (…) Nesse sentido, foi um conforto perceber, em tomadas aéreas feitas quinta, no início da noite pela GloboNews, da aglomeração na Cinelândia, que o vermelho não era a cor predominante.[2]

O editorial propõe desvincular a morte de Marielle de seu lugar de origem e apartá-la de sua base ideológica. O que o trecho indica é a reação do jornal à possibilidade de que o crime contra Marielle pudesse promover o partido ou mesmo a agenda progressista na qual atuava a vereadora. Mais uma vez, O Globo se esforça por mitigar, senão declassificar, as bandeiras de ação de Marielle, ainda que a cobertura tenha dado algum espaço a ela.

O Globo não foi o único a adotar nessa posição. No mesmo dia 17, em editorial intitulado “O assassínio da vereadora”, O Estado de S. Paulo também comenta o caso. Assim como n’O Globo, fala-se na necessidade de “celeridade para encontrar e punir os responsáveis”. Ainda como seu par carioca, o editorial do Estadão destaca: “Até lá, contudo, [conclusão das investigações] também é preciso que haja, em igual medida, serenidade. Em nada contribui para a solução do caso e muito menos para a pacificação do Rio de Janeiro a utilização do assassinato de Marielle para objetivos políticos.” O jornal sublinha que até a solução do caso, “qualquer sugestão de que o crime tenha caráter político – isto é, que a vereadora tenha sido assassinada em razão de seu trabalho na Câmara do Rio de Janeiro em defesa dos direitos de moradores de favelas e comunidades carentes – é precipitada e se presta a ornar discursos com finalidades oportunistas.” Em seguida, de modo surreal, o editorial parte para criticar o PT, criticando Lula e Dilma por se solidarizarem com o PSOL e os familiares de Marielle em razão da morte da vereadora.

Por fim, o editorial da Folha de SP, de 16 de março, intitulado “Quem matou Marielle?” deu mais ênfase à militância de Marielle em favor de grupos ao qual pertencia (contra a discriminação racial, pelo direito das mulheres, da comunidade LGBT, denúncias das ações ilegais de milícias e polícia na favela), além de aponta-la como uma crítica da intervenção federal, destacando, ainda, que essa ação federal é marcada não só por expectativas, mas por questionamentos.

A título de conclusão podemos afirmar que O Globo e Estadão assumiram uma postura militante conservadora de rechaçar as bandeiras e pautas defendidas por Marielle, tentando desvincular sua morte de qualquer implicação com a intervenção federal ora em curso no Rio de Janeiro. Ademais, ambos se utilizaram da tragédia para atacar a esquerda e particularmente Lula e o PT, a despeito do partido não ter qualquer relação direta com os acontecimentos. A Folha de S.Paulo, dessa vez, se distanciou de seus pares na sua posição editorial.

No Serie M “A intervenção federal e a cobertura midiática” mostramos que Estadão e Folha condenam a intervenção no Rio, enquanto O Globo apoia fervorosamente. Assim, o jornal carioca e a Folha mantiveram sua coerência. O Estadão, por seu turno, fez uma tentativa mais ousada de tentar despolitizar a morte da vereadora sem, contudo, aderir à intervenção.

[1] O caso Marielle ocupou as capas do jornal O Globo ainda nos dias 17, 18 e 19 de março.

[2] Sectarizar a morte de Marielle é um desserviço, O Globo, 17/3/2018, p. 16.