24/05/2018 -

Por Beatriz Bandeira de Mello e João Feres Junior

Em pronunciamento oficial realizado no dia 8 de maio, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, anunciou que o país precisaria recorrer ao Fundo Monetário Internacional para conter o avanço da crise cambial, como efetivamente veio a fazer. Considerando que nos últimos 15 anos a Argentina manteve relações “congeladas” com o Fundo, não era de se esperar que o presidente e sua equipe econômica fossem demandar auxílio internacional neste momento. Até pouco tempo, o país era visto como “exemplo” para os vizinhos sul-americanos, inclusive o Brasil, por sua política de ajustes, reformas sociais e diminuição dos gastos públicos – que geraram críticas e resistência da oposição peronista no Legislativo e nas ruas, com apoio dos sindicatos e movimentos sociais.

Se tomarmos o contexto latino-americano, a Argentina é um dos – se não o – país mais atingido pelos impactos das flutuações do dólar. Isso porque sua economia é altamente dolarizada, apresentando altos índices de inflação e endividamento externo desde o final da década de 1980. O chamado Plano de Conversibilidade (1991)[1] foi uma das primeiras estratégias elaboradas pelo governo local para tentar amenizar os problemas econômicos do país. Tal Plano compunha um pacote de estabilização monetária vinculado a diretrizes neoliberais, postas em prática pelo ex-presidente Carlos Menem em princípios dos anos 90.

Hoje, passados mais de 20 anos da implementação daquele projeto, vemos o retorno de um velho fantasma. A população argentina teme a volta da instabilidade que gerou uma profunda crise política em 2001. A solução anunciada pelo presidente para lidar com a crise cambial fez o mercado internacional, a sociedade argentina e os observadores políticos voltarem sua atenção para os hermanos.

O histórico diplomático, a similaridade de cenários políticos, econômicos e sociais além da proximidade geográfica, conectam Brasil e Argentina. Por isso, jornais brasileiros não tardaram a pautar as negociações de Macri com o FMI. Com o objetivo de analisar o posicionamento da grande mídia brasileira sobre o tema, analisamos as edições digitais dos jornais O Estado de São Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo, entre os dias 9 e 13 de maio, especificamente as matérias que discorreram ou fizeram alguma menção à Argentina e ao FMI. Encontramos um total de 43 textos distribuídos de forma equânime entre os veículos analisados: 14 no jornal O Estado de São Paulo, 14 em O Globo e 15 na Folha. Do total, 19 foram reportagens, 4 entrevistas, 3 colunas, 7 artigos de opinião, 2 editoriais, 6 textos de capa e 2 drops, ou seja, pequenas notas assinadas por colunistas.

Além de realizar um levantamento das explicações fornecidas pelos jornais para a crise econômica que afeta nossos vizinhos, aplicamos também a metodologia da análise de valências para identificar o tratamento dispensado aos principais atores políticos envolvidos no episódio. Sendo assim, classificamos as notícias como ambivalentes, neutras, contrárias ou favoráveis ao atual governo, às gestões anteriores, a Mauricio Macri e aos ex-presidentes Néstor e Cristina Kirchner. Analisamos ainda o enquadramento adotado para tratar das relações comerciais Brasil-Argentina. A seguir, detalharemos cada um desses itens.

Explicações para a Crise

Explicações pra crise

Fonte: Manchetômetro, 2018.

Como podemos ver, as explicações para a crise argentina são diversas. Contudo, a mais recorrente, em todos os jornais analisados, foi a mudança na política econômica dos EUA. Na semana que antecedeu o pedido de Macri ao FMI, alguns episódios envolvendo os Estados Unidos movimentaram o cenário internacional, gerando impacto no mercado financeiro. A mudança nas relações com o Irã, a alta do dólar e a alteração das diretrizes de exportação e importação estadunidenses surtiram efeito nas economias latino-americanas. Segundo a mídia brasileira, a união de tais eventos teria recaído sobre a economia Argentina, causando a crise cambial que levou Macri ao FMI.

A segunda explicação mais frequente para a crise argentina foi a crise internacional. Além da alta do dólar que prejudica as exportações do país, a Argentina enfrenta dificuldades no mercado de commodities, alta no preço do petróleo e reorientações na política dos EUA que atingem os países latino-americanos. De acordo com esse argumento, tais fatos revelam a volatilidade da economia argentina frente a mudanças no contexto internacional, neste caso interpretadas como uma “crise” por serem episódios que atingem não só a Argentina, mas a América Latina como um todo.

A atribuição da crise à política econômica adotada pelo governo de Macri aparece apenas em terceiro lugar, seguida de perto pela quarta explicação mais citada, que consiste em atribuir a crise a características da própria economia argentina, alta inflação, endividamento externo e dependência do dólar. As críticas a Macri sugerem que o presidente não estaria cumprindo suas promessas de campanha e a política “gradualista” é apontada como “insuficiente” para responder às oscilações da economia internacional, mesmo com aumento da taxa de juros, por exemplo. Para os analistas consultados, a política adotada pelo presidente e sua equipe econômica não foi suficiente para “proteger” a Argentina de flutuações cambiais e pressões do mercado internacional. O pedido ao FMI, embora criticado e considerado precoce, é apresentado como a melhor solução encontrada pelo governo para conter o avanço da crise. Para além das políticas gradualistas, os jornais defendem a execução de um ajuste fiscal mais forte e controle dos gastos públicos. Ainda, em oito textos, a crise foi atribuída à política econômica de governos anteriores ao de Macri.

A abordagem utilizada em todos os jornais reflete uma tendência a não atribuir a crise ao desempenho do presidente ou à sua política econômica, mas sim a fatores exógenos. O jornalismo brasileiro enfatizou aspectos estruturais e sistêmicos, relacionados à conjuntura internacional e à economia dos EUA, bem como a condições basilares da própria economia argentina.

A seguir, examinemos o tratamento dispensado aos governos argentinos.

Governo Atual x Governo Anterior

Governo argentino

Fonte: Manchetômetro, 2018.

Governos anteriores

Fonte: Manchetômetro, 2018.

Os gráficos mostram a diferença no tratamento dado ao atual governo em relação a governos anteriores. Observamos que toda e qualquer menção a outras administrações, sejam elas kirchneristas ou não, tem conotação negativa nos três jornais analisados. O Estadão foi o periódico que mais enfatizou aspectos negativos de governos passados, destacando a crise política de 2001 e chamando atenção para o corralito[2] – que causou a renúncia do então presidente Fernando De La Rúa e intensas agitações sociais nas ruas de Buenos Aires.

Já o governo atual não enfrenta duras críticas, tendo tido tratamento majoritariamente ambivalente nos três jornais. Para a grande mídia brasileira, a gestão Macri representa uma mudança positiva na política argentina e, portanto, é digna de confiança internacional. Nas palavras do ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, “nem o FMI é o mesmo nem a Argentina é a mesma”, discurso que enfatiza a diferenciação positiva entre o governo atual e os governos anteriores, sobretudo na aproximação entre o país e o FMI.

Macri x Kirchner

Macri

Fonte: Manchetômetro, 2018.

Néstor e Cristina

Fonte: Manchetômetro, 2018.

Se a comparação entre a cobertura do atual governo à de governos anteriores já revela discrepância, esta fica ainda mais pronunciada quando observamos o posicionamento adotado em relação ao atual presidente, Mauricio Macri, e seus antecessores, Néstor e Cristina Kirchner. O casal é negativamente avaliado em todas as publicações analisadas. Para os jornais brasileiros, a estratégia da equipe econômica de Maurício Macri de recorrer ao FMI está diretamente ligada ao “estrago” provocado pela gestão anterior. A “herança maldita”[3] dos Kirchner precisaria ser combatida a qualquer custo.

Embora a necessidade do pedido seja explicada pela política econômica dos EUA, pela alta do dólar, pela conjuntura internacional e pela política ‘gradualista” de Macri, como visto anteriormente, as justificativas apresentadas para o pedido de ajuda ao FMI são frequentemente relacionadas a erros do governo anterior – por esse motivo os nomes de Néstor e Cristina Kirchner são mencionados de forma negativa.

Os Kirchner são lembrados como mentores de políticas chamadas “populistas” (concessão de subsídios, congelamento de tarifas públicas e maquiagem de estatísticas oficiais) – que teriam provocado o desequilíbrio da economia argentina.

Mauricio Macri, por outro lado é apresentado de forma neutra ou ambivalente. Ainda que digam ser insuficientes as políticas de austeridade levadas a cabo por seu governo, o presidente ainda é considerado capaz de corrigir erros econômicos e obter investimentos estrangeiros e trazer a “Argentina de volta” para o mercado internacional. Além disso, é comum que os textos expressem confiança de que Macri será capaz de contornar a crise antes das eleições presidenciais de 2019.

A alta incidência de textos neutros em relação a Macri revela que a crise não é enquadrada como uma responsabilidade direta do presidente, embora sua política econômica tenha sofrido críticas, e sim resultado de condições macroeconômicas relacionadas ao contexto internacional e a características históricas da economia argentina.

Relação com o Brasil

Fonte: Manchetômetro, 2018.

O caso argentino foi uma oportunidade para os jornais realizarem comparações com a economia brasileira. As análises realizadas por Folha, Estadão e O Globo destacaram que a economia brasileira é mais sólida se comparada à da vizinha Argentina. Por isso a defesa de uma posição favorável em relação ao Brasil. Os argumentos mobilizados em todas as publicações analisadas sugerem aspectos positivos da condição brasileira, como a fraca dependência do dólar e as altas reservas internacionais.

Houve até um movimento tímido em defesa da Reforma da Previdência, como um alerta para que o Brasil não passe pelos mesmos problemas enfrentados pela Argentina. Em 13 de maio, o Globo publica uma entrevista com Rubens Ricupero que destaca: Assim como acontece no Brasil, o déficit do Orçamento argentino também tem como origem principal a Previdência”.

Conclusão

A presente análise da cobertura que os grandes jornais brasileiros dispensaram ao pedido de empréstimo de Macri junto ao FMI demonstram o sólido viés que esses meios de comunicação emprestam ao seu jornalismo quando o assunto é política macroeconômica. Todos apoiam abertamente, por meio de editoriais, políticas fiscalistas e, ao mesmo tempo, criticam governos que promovam aumentos dos gastos sociais, como é o caso dos governos dos Kirchner. Assim, a tendência dominante na cobertura do caso é atribuir as causas do fato a condições estruturais e aliviar a responsabilidade de Macri na condução da economia do país. Ao agirem dessa maneira revelam dois problemas centrais do jornalismo brasileiros: excesso de investimento ideológico na cobertura e consequente rejeição de pontos de vista alternativos na avaliação do fato; ambos os problemas bastante deletérios para o debate público em nosso país.

[1]  O Plano de Conversibilidade, cujo autor foi o Ministro de Economia Domingo Cavallo, criou uma nova moeda (o peso). O Plano fixava a taxa de câmbio na paridade de um peso para um dólar. O objetivo de Cavallo e do então presidente Carlos Menem era controlar a inflação, recuperar a credibilidade internacional e atrair investimentos externos. Durante os anos iniciais do Plano, a inflação argentina diminuiu, no entanto na metade dos anos 90 com a Crise do México em 1994 e o aumento dos índices de desemprego, a conversibilidade já não era capaz de controlar as oscilações da economia internacional, deixando a Argentina vulnerável a pressões externas.

[2]  O chamado corralito foi um confisco bancário implementado pelo presidente Fernando De La Rúa, em 01 de dezembro de 2001. A ação impediu que os argentinos retirassem dinheiro de suas contas e poupanças, freando a troca por dólares e transferência para o exterior.Tal estratégia culminou com a renúncia de De La Rúa em 2001, no ápice da principal crise política da Argentina.

[3] Edição O Globo, 09 de maio de 2018, P.14, “Governo argentino foi leniente com a inflação”