26/06/2018 -

Pouco mais de um ano após o escândalo da JBS, que expôs conversas escusas de Michel Temer com o empresário Joesley Batista, o Palácio do Planalto se defrontou com outra crise de grandes proporções: a maior greve dos caminhoneiros da história do país. Demandando a redução nos preços do óleo diesel e dos demais combustíveis — que subiram mais de 50% nos últimos 12 meses –, os caminhoneiros suspenderam as atividades por dez dias, entre 22 e 30 de maio, causando desabastecimentos em todo território nacional. Tal mobilização colocou sob foco a política de preços da Petrobras, praticada desde 2016 sob comando de Pedro Parente, que transfere para as bombas dos postos a flutuação do preço internacional do petróleo e derivados sem qualquer mediação estatal. Tal política chegou a gerar aumentos diários nos postos de combustíveis. A paralisação angariou amplo apoio popular e culminou com a demissão do presidente da Petrobras. Os grevistas conseguiram um acordo de congelamento de preços por 60 dias e redução de R$0,49 no preço do litro do diesel, entre outras medidas que na prática liquidam a política tão orgulhosamente defendida por Parente.

Neste artigo exploraremos as reações dos jornais Folha de São Paulo, O Globo e O Estado de São Paulo à saída de Pedro Parente da presidência da petroleira, tomando como base as capas e editoriais publicados antes e imediatamente após o fato, com o objetivo de identificar o posicionamento explícito da grande imprensa no que toca a política econômica do país.

Análise do contexto

Comecemos pelo tratamento dado a Pedro Parente e à política de preços da Petrobras durante os dias de paralisação dos caminhoneiros nos editoriais. Os gráficos a seguir foram produzidos a partir dos editoriais publicados nos três jornais no período de 22 de maio, início da greve, a 4 de junho, quando o último jornal reagiu à demissão do executivo. Ao analisarmos os gráficos a seguir é importante ter em mente que textos jornalísticos contrários e neutros são em geral bem mais frequentes que os favoráveis e ambivalentes, como mostram inúmeros trabalhos do Manchetômetro.

gráfico 1

Como o gráfico demonstra, o tema teve alta ativação, pois no período de 14 dias de nossa amostra tivemos de 5 a seis editorias dedicados a ele em cada um dos veículos. Também se pode notar o apoio unânime da mídia à política de indexação do preço dos combustíveis pelo seu preço internacional, marca da gestão Parente na Petrobras.

gráfico 2

De modo bastante coerente, e por meio de número quase idêntico de editoriais, os meios se declaram também unanimemente contrários à política de controle de preços, como aquela praticada no governo de Dilma Rousseff.

Durante o período em que presidiu a estatal, Parente não foi figura assídua nas páginas dos periódicos, mas ganhou maior notoriedade com a greve. Como podemos ver no gráfico abaixo, o executivo, quando foi citado nos editoriais, o foi de maneira favorável.  Não apenas a política de preços por ele implementada foi elogiada, mas até chegaram a lhe dirigir o epíteto de “valoroso colaborador”, comportamento incomum em meios veículos de comunicação.

gráfico 3

O Estadão destoou de seus pares na intensidade de apoio prestado ao executivo caído, como vemos acima. Em seguida, vejamos o comportamento dos periódicos tomando como base suas capas, elemento fundamental de comunicação.

Folha de São Paulo

Logo abaixo da manchete anunciando o pedido de demissão (2/6), o texto, que no princípio parece noticioso, ganha tons elogiosos à figura de Pedro Parente ao longo de seu desenvolvimento, a ponto declarar que ele é o homem que “recuperou a Petrobras após a Lava Jato e o governo Dilma”. A narrativa apresentada pelo jornal descreve um executivo comprometido com seus princípios que, segundo apurações da própria Folha, teria deixado o cargo após decisão do governo em promover uma “intervenção branca” nos preços dos combustíveis. A demissão de Parente divide a capa com outras questões de relevo para os desdobramentos do caso, como a decisão de instalar Ivan Monteiro na presidência da empresa. Há também na capa pequenas chamadas contrárias a Parente, que vão desde a comemoração de sua saída por parte dos petroleiros até uma relativização do “mito de gestor eficiente”, tema da coluna de Ranier Bragon.

Acompanhando as reações do mercado financeiro, como a queda de 15% no valor das ações da Petrobras na sexta-feira (1/6), o editorial da Folha relata “temores de retrocesso” perante a possibilidade de saída de Parente do comando da estatal. Embora negue fazer ode ao executivo e afirme sua passividade perante falhas e excessos, a Folha de São Paulo vincula possível saída de Parente à instabilidade e à vulnerabilidade da petroleira, já que ele teria empenhado um “esforço bem-sucedido para tirar a Petrobras do fosso”.

Não é preciso empenho interpretativo para identificar no texto a defesa da política de preços de repasse imediato da variação de preços ao consumidor final, contudo há ressalva de que as condições do mercado tornaram “por demais amarga a dose do remédio”.

Afastando-se do governo federal, o editorial acentua o “erro político” durante as negociações com os caminhoneiros e defende uma soluçãopara o problema que inclui: liberalizar o setor, pondo fim no monopólio da Petrobras que a transforma em alvo de interesses intervencionistas, e fortalecer a agência reguladora. O editor reconhece que essas não são medidas de curto prazo, portanto a tarefa do momento seria reduzir os temores, isto é, a capacidade do Estado de intervir nas diretrizes da empresa. Exemplo mais bem acabado da lógica “o que é bom para o mercado financeiro é bom para o Brasil” dificilmente pode ser encontrado.

O Globo

Estampando no título da manchete suas apreensões, O Globo garante: “Parente sai, e Temer promete manter política da Petrobrás”. Diferente da Folha, o jornal não reserva ao ex-presidente da estatal elogios diretos no texto que acompanha a manchete, mas anuncia que seu substituto, Ivan Monteiro, era “braço direito de Parente” e é figura bem vista pelo mercado financeiro.

Na edição de sábado, dia 2 de junho, os editoriais não trataram do assunto, que voltou à pauta na segunda-feira (4/6). Estruturado pela dicotomia entre o atraso e o moderno, entre uma gestão “temerária” e aquela que “recuperou as finanças”, o editorial do jornal O Globo é uma defesa veemente da mesma política de preços da Petrobras que acabou por defenestrar Parente. Em direção semelhante à do editorial da Folha, vincula à saída de Parente o temor do retorno das práticas que define como “modelo de falência” adotado pelos “governos de Lula e Dilma”. O texto ainda acusa a empresa de ter sido usada como “fonte bilionária de recursos para financiar o projeto de poder lulopetista – e mesmo, via propinas, melhorar o padrão de vidade alguns líderes, como está provado na Justiça”. O texto lamenta o fato de Parente ter sido demitido por aqueles que pensam a companhia como uma estatal que não precisa atender aos interesses de seus acionistas privados, e afirma que a empresa “chegou ao governo Temer virtualmente quebrada”. Na visão do jornal, “a administração de Pedro Parente foi essencial para a empresa recuperar as finanças, a capacidade de investimento, etc.”. O texto é finalizado reafirmando-se a preocupação de que a Petrobras não “volte a ser tratada de maneira populista” por aqueles que praticam o dirigismo e a demagogia.

Estado de São Paulo

Aparentando mais um protesto do que uma notícia, a manchete do dia seguinte à demissão de Parente no Estado de S. Paulo é “Por que Parente saiu”. Logo abaixo, em tamanho de subtítulo, o jornal fornece três explicações: as pressões contra a política de preços se intensificaram, ele foi atacado pelo presidente do Senado e membros do governo não o defenderam, e ele era contra o uso político de receitas ligadas ao pré-sal. A narrativa adotada no texto que segue é de um homem de princípios que se recusou a compactuar com a mudança de caminhos ditada pelo governo. Isso porque a política de preços da Petrobras sob gestão de Parente seria o avesso do “uso político”. A capa é povoada por pequenas chamadas para artigos e pequenas declarações que louvam o profissionalismo e a competência do demissionário. Adornando essa capa-obituário, no canto superior direito, uma foto pequena de Ivan Monteiro informa que ele é bem-visto pelo mercado.

O maniqueísmo do editorial de O Estado de São Paulo rivaliza o de seu par carioca. A demissão de Parente simbolizaria uma dupla perda: primeiro pela saída do “valoroso colaborador” e segundo pelo avanço das “forças que parasitam o Estado”. Protagonista do enredo, o executivo, de “retidão moral e capacidade profissional”, seria um dos sustentáculos de uma gestão racional dos recursos públicos que promoveu “notável recuperação da Petrobras… destroçada pelos governos lulopetistas”. Assim como os demais veículos, o Estado de São Paulo critica a ineficiência do Planalto em conter a greve e novamente apresenta a figura de Pedro Parente como aquele que “fez o que pôde para que o governo ganhasse tempo e negociasse um acordo”. Para finalizar o relato belicoso, o editor deslegitima a oposição, acusando-a de trabalhar incansavelmente pelo “subdesenvolvimento travestido de justiça social”.

Conclusão

Leitores assíduos do Manchetômetro sabem que a grande mídia brasileira tem grande apreço por medidas de recorte neoliberal, como a política de preços dos combustíveis adotada por Pedro Parente no comando da estatal do petróleo. Porém, mais interessante do que essa constatação é identificar a maneira como esse apoio é construído nos jornais. Como mostramos em texto anterior, a chegada de Michel Temer à presidência da República foi saudada pela grande mídia, que lhe concedeu por longo período tratamento benigno, quando não de entusiasmo, perante suas promessas de reformas de cunho marcadamente fiscalista. Contudo, após o vazamento de gravações telefônicas, de encontros secretos no Jaburu e de sua aprovação popular ter despencado para grandezas de um dígito, restou à grande mídia defender somente a política econômica levada a cabo pelo governo federal, descartando seu patrono. A greve dos caminhoneiros marca bem o atual momento do posicionamento da grande imprensa frente ao governo Temer. O Globo e Folha repudiaram a forma como o governo geriu a crise ao mesmo tempo em que defenderam fervorosamente a política de preços adotada por Parente na Petrobras. Mesmo o Estadão, que ficou isolado na defesa do atual governo, foi crítico a Temer nesse episódio por ter entregado os pontos àqueles que “trabalham incansavelmente em favor do subdesenvolvimento travestido de ‘justiça social’”.

Novamente vemos a grande imprensa brasileira afinada na defesa dos mesmos interesses e dos mesmos pontos de vista. Mais uma vez, a Folha de S. Paulo adota postura em tudo similar a seus pares no conteúdo, ao passo que a forma é menos virulenta. O Globo e Estadão, por seu turno, se esmeram para produzir o jornalismo mais bombasticamente militante, um verdadeiro jornalismo de guerrilha. O jornal da família Mesquita frequentemente vence o da família Marinho nesse quesito, mas não podemos esquecer o fato de o segundo ser parte do maior conglomerado de mídia do país, que leva jornalismo com essa qualidade para os lares de quase todos os brasileiros.