13/10/2018 -

 

O presente artigo é o primeiro de uma série que analisa, com base nos dados do Manchetômetro, o comportamento da imprensa grande brasileira nas eleições de 2018. Os textos serão divididos de acordo com os períodos temporais: pré-campanha, campanha do primeiro turno e campanha do segundo turno.

Às vezes as coisas acontecem todas de uma vez e é bem difícil estabelecer as correlações entre os fatores que as produzem. Pois é isso que parece estar acontecendo com a grande mídia brasileira. Acostumada por décadas a estar no centro do palco eleitoral — possuidora que era quase exclusiva do contato diário e direto com os cidadãos — ela agora vê sua relevância ameaçada por outros meios de comunicação. Foram essas mídias sociais, e a militância das igrejas evangélicas, que produziram os fenômenos eleitorais de Bolsonaro e tantos outros desconhecidos da grande imprensa que de repente, do dia para a noite, conquistaram vitórias eleitorais fabulosas.

Sem abusar do conceito tão precioso de Thomas Kuhn, do ponto de vista da comunicação política, estamos testemunhando a passagem de um paradigma no qual a comunicação com o eleitor se dava por meio dos partidos e da mídia tradicional para um paradigma no qual a mídia tradicional, sem estar totalmente fora da equação, vê-se sobrepujada pelas igrejas evangélicas e pelas mídias sociais. Os partidos também não foram totalmente aniquilados, vide as votações expressivas recebidas por PT, PSB, PP etc, mas perderam também muito de sua capacidade comunicativa.

Para a grande mídia, junto com essa mudança veio outra, a quebra do padrão de competição que tem caraterizado a Nova República por toda sua existência: PT contra PSDB. Dessa vez, o candidato tucano não conseguiu se mostrar competitivo, a despeito de toda o poder partidário que reuniu detrás de sua candidatura. O fracasso de Alckmin, o rei do Horário Eleitoral Gratuito é o exemplo mais potente da falência da capacidade comunicativa dos partidos, citada acima.

A grande mídia, eleição após eleição, apoiava o candidato do PSDB e tratava com viés bastante negativo o petista. Mostramos isso no Manchetômetro para as eleições de 1998, 2010 e 2014. A literatura acadêmica mostrou, por meio de várias abordagens, viés reiterado dessa natureza em todos os pleitos.

Vejamos agora como os candidatos principais foram tratados nesta eleição pela imprensa. Primeiro no período que vai do começo do ano ao final de julho, ou seja, antes do início do período oficial de campanha. Abaixo vão os gráficos das valências agregadas das matérias publicadas nas capas e páginas de opinião dos jornais Folha, Estado e O Globo, e de todas as matérias do Jornal Nacional.

Limitarei os gráficos a Lula, até então o candidato do PT, Alckmin (PSDB) e Bolsonaro (PSL). Abaixo vão os gráficos.

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Fonte: Manchetômetro

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Fonte: Manchetômetro

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Fonte: Manchetômetro

É bastante difícil comparar os três gráficos, pois Lula recebe uma cobertura muito mais intensa que os outros dois candidatos e muito mais negativa. Sua proporção de contrárias sobre neutras é em torno de 4,5 ao longo do período e cai para cerca de 2 nos meses de junho e julho. Lula recebe uma média de 194 textos por mês de janeiro a julho enquanto Alckimin recebe 50 e Bolsonaro 43.

Se pesquisarmos na página do Manchetômetro veremos que o tratamento recebido por Lula está dentro dos padrões dos últimos anos, na sua intensidade e negatividade. O dado do gráfico acima somente mostra que tal tratamento continuou seguindo o mesmo padrão praticamente até quando foi confirmada a sua candidatura pelo PT, quando a relação entre contrárias e neutras cai para 2.

A comparação dos dois outros candidatos revela detalhes interessantes. Primeiro, notamos que elas são similares em intensidade, como já dissemos, suas médias de textos por mês são similares. Também é similar o viés a eles dedicado. Calculamos o Índice de Viés (IV) subraindo o número de favoráveis do número de contrárias e dividindo o resultado pelo número de neutras. O IV médio de Bolsonaro no período é -1,12, enquanto o de Alckmin é -0,87. Só para termo termos de comparação, Haddad no mesmo período teve um IV de -1,4 e Lula de -3,1.

Alckmin não somente teve um IV similar ao de Bolsonaro, mas, como mostra seu gráfico, recebeu cobertura bastante negativa em abril, devido a denúncias de corrupção na sua administração no estado de São Paulo.

Bolsonaro foi alvo de uma cobertura marcadamente negativa. As séries históricas do Manchetômetro mostram que o tratamento benevolente se mostra geralmente com uma preponderância de neutras em relação a contrárias e alguma atividade de favoráveis. O candidato do PSL quase sempre teve a curva de contrárias acima da de neutras e, a partir de maior, há uma tendência de aumento da negatividade.

Em suma, no período pré-campanha a grande mídia mostrava tendências de repetir seu comportamento usual, pelo menos no que toca o viés negativo contra candidatos do PT. Por outro lado, não se mostrou tão entusiasmada com o candidato do PSDB a ponto de promove-lo de maneira substancialmente diferente daquela com a qual Bolsonaro foi tratado. Bolsonaro, por seu turno, recebeu cobertura claramente negativa, ainda que nada comparada à recebida pelos petistas.

Será que esse clima tentativo da cobertura midiática continuou ao longo da campanha para o primeiro turno das eleições? Isso veremos no próximo artigo dessa série do Manchetômetro nas Eleições 2018.