20/03/2019 -

Por Beatriz Bandeira de Mello e João Feres Jr.

No dia 19 de março os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, Jair Bolsonaro e Donald Trump, se reuniram em Washington para discutir a relação entre os dois países. A visita é a primeira em caráter bilateral realizada por Jair Bolsonaro e, segundo nota oficial publicada pelo Palácio do Planalto, “demonstra a prioridade que o governo brasileiro atribui à construção de uma sólida parceria com os EUA”[1]. A agenda de Bolsonaro contou com encontros entre empresários, jantar na Casa Branca, uma visita inesperada à CIA e uma declaração conjunta com seu par estadunidense.

Para além de questões comerciais, econômicas e ideológicas, o encontro entre os dois presidentes pode representar um novo marco diante da crise na Venezuela. Nas últimas semanas, a discussão sobre o tema ganhou novas nuances a partir de operações de ajuda humanitária, fechamento de fronteiras e conflitos entre o governo e a oposição venezuelanas. Neste contexto, rompimentos diplomáticos e sanções econômicas – postas em prática principalmente pelos Estados Unidos – colocam pressão sobre a Venezuela e incitam uma mudança forçada de governo e a deposição de Nicolás Maduro. Sabe-se que o cenário de crise política na Venezuela é associado a uma profunda instabilidade econômica ocasionada, principalmente, pela dependência do petróleo.

Cabe destacar que o aprofundamento da crise começou em 2013 quando a oposição na Venezuela liderada por Henrique Capriles decidiu não reconhecer o resultado das eleições presidenciais que deram vitória a Maduro. Apesar da relação entre as duas frentes políticas sempre ter sido conflituosa – vide a tentativa de golpe fracassada que Chávez sofreu em 2002 – nos dois anos seguintes, os confrontos se intensificaram, com manifestações convocadas contra e a favor do governo. Em 2015, a oposição venezuelana obteve maioria na Assembleia Nacional. Dois anos depois, Maduro convocou uma Assembleia Constituinte formada majoritariamente por governistas. Em 2018, em meio a boicotes da oposição, Maduro foi reeleito presidente da Venezuela e mais uma vez os opositores não reconheceram o resultado das eleições, pedindo a realização de uma nova consulta.

No Brasil, o debate em torno da Venezuela mobiliza opiniões diversas. Há quem aponte para a participação dos EUA na crise e duvide dos interesses do país em uma possível mudança de governo; há quem questione a atuação diplomática do Brasil e critique uma suposta falta de comprometimento com princípios constitucionais que regem sua atuação internacional como o respeito a soberania, a autodeterminação e a não-intervenção em assuntos externos; e há quem veja o alinhamento com os Estados Unidos como algo positivo aos interesses brasileiros.

A grande mídia brasileira, em particular, nunca mostrou simpatia pelo governo de Hugo Chávez, sendo também contrária ao governo de seu sucessor Nicolás Maduro. Para os jornais brasileiros, a relação entre Brasil e Venezuela, principalmente durante os governos petistas, foi “ideológica”, com um viés negativo. Hoje, este discurso, reforçado diariamente pela mídia brasileira, é repetido pelo então Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo e pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, que ao encontrar-se com o líder da oposição venezuelana disse que “o apoio dos dois ex-presidentes brasileiros ao chavismo contribuiu para a crise atual”[2] – fazendo referência a Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT).

A escalada das pressões sobre Nicolás Maduro, o acirramento dos conflitos na fronteira com o Brasil, o fluxo de migração de venezuelanos e, mais recentemente, o surgimento do “autoproclamado presidente” Juan Guaidó, representante da Assembleia Nacional na Venezuela são temas pautados pela grande mídia brasileira. Frente a esses novos acontecimentos, qual dimensão da crise é mais evidente na cobertura midiática? Como os jornais tratam da atuação brasileira no caso? E mais recentemente, como enquadram o líder da oposição Juan Guaidó e o presidente Nicolás Maduro?

Para responder a estas e outras questões analisamos a cobertura da crise na Venezuela nos três jornais da grande mídia brasileira — Folha de São Paulo, Estadão e O Globo –, entre os dias 21 de fevereiro e 3 de março de 2019. Durante o período foram coletadas manchetes, colunas, reportagens, artigos de opinião e editoriais que fizeram alguma menção a crise venezuelana. A metodologia utilizada foi a análise de enquadramentos.

Neste intervalo, um primeiro fato nos chama atenção: o número elevado de publicações. Foram mais de 100 publicações, distribuídas nos três jornais, com uma média de 14 por dia. O número revela o impacto da crise venezuelana sobre a cobertura da mídia no período. As menções à crise foram muito superiores quando comparadas com outros temas internacionais, como o encontro entre Donald Trump (EUA) e Kim Jong-un (Coreia do Norte) no Vietnã, o referendo que aprovou a nova Constituição em Cuba, ou mesmo as discussões envolvendo a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. O Gráfico 1 mostra a distribuição de publicações sobre a crise na Venezuela em cada um dos jornais ao longo dos dias analisados.

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Fonte: Manchetômetro (2019)

Os principais temas abordados nos textos sobre a Venezuela publicados pela grande mídia no período foram basicamente: (1) o fechamento da fronteira com o Brasil (2) a operação para entrega de ajuda humanitária ao país, considerada pelos jornais como “Dia D”; (3) a reunião do Grupo de Lima; (4) e a visita do líder da oposição Juan Guaidó ao Brasil com recepção do presidente Jair Bolsonaro.

O primeiro episódio, que envolve o fechamento da fronteira entre Brasil e Venezuela, foi apontado pela mídia como uma manobra de Nicolás Maduro para impedir a entrada de ajuda humanitária no país. A operação, programada para o dia 23 de fevereiro, contou com o suporte de Brasil, Colômbia e Estados Unidos e o apoio da oposição venezuelana. Entretanto, o foco da ação – mais do que o atendimento a população local – foi a suposta pressão sobre militares venezuelanos para abandonarem o governo Maduro. Segundo o editorial[3] publicado n’O Globo em 23 de fevereiro os comandantes das Forças Armadas Venezuelanas teriam o “dever de decidir se obedecem ou não à ordem presidencial de impedir a passagem do socorro internacional”. Houve grande expectativa da mídia em relação à operação, considerada pela oposição venezuelana como ápice das pressões contra Maduro e uma janela de oportunidade para a troca de governo.

A Folha de São Paulo destacou a pressão feita pelos Estados Unidos sobre o Brasil para o uso de força militar na operação[4]. Um fato pouco explorado pela mídia foi a ausência de organizações não-governamentais internacionais (ONGs), como a Cruz Vermelha e agências ligadas a ONU,  na operação para entrega de ajuda humanitária. O jornal O Globo conferiu a politização envolvendo opositores e governistas na Venezuela como causa da não participação das organizações. As declarações de Nicolás Maduro sobre o fechamento da fronteira, reiterando que a suposta entrega de ajuda seria um pretexto para uma intervenção militar no país, foram apresentadas de forma duvidosa e desacreditada pelos jornais brasileiros.

No dia programado para a ação em 23 de fevereiro, os jornais enfatizaram os conflitos entre opositores e governistas, a violência e a atuação das Forças Armadas Venezuelanas. Os episódios que culminaram com um caminhão queimado na fronteira entre Venezuela e Colômbia deram o tom da cobertura sobre a operação. Nos dias posteriores, o debate acerca de uma possível intervenção militar ganhou força nos meios brasileiros, que reproduziram discursos de Juan Guaidó e de representantes estadunidenses.

A intervenção na Venezuela foi rejeitada durante reunião do Grupo de Lima, que contou com participação do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, e Guaidó. Sobre o episódio em questão, a mídia reforçou a posição brasileira favorável ao diálogo e a resolução pacífica e “democrática” da crise venezuelana em contraste com o discurso dos Estados Unidos e da oposição venezuelana que insistiam em manter “todas as opções sobre a mesa”. Os jornais brasileiros também revelaram certa preocupação com uma possível participação brasileira no conflito devido a oposição de interesses entre China, Rússia e Estados Unidos.

Sobre a percepção acerca da participação brasileira na crise, dois fatos chamam a atenção ao longo do período analisado: o debate sobre o posicionamento de civis e militares e as críticas ao modo de condução da política externa pelo governo Bolsonaro. Durante o período analisado é evidente a diferença no tratamento oferecido ao chanceler Ernesto Araújo e ao vice-presidente Hamilton Mourão. O primeiro não obtém o protagonismo esperado, aparecendo como figura marginal nos episódios de crise. Já Mourão é tratado como porta-voz oficial do caso venezuelano, sendo considerado mais experiente e equilibrado por parte da grande imprensa. A participação de Mourão na reunião do Grupo de Lima foi veiculada de forma positiva. De acordo com coluna publicada por Eliane Cantanhêde no Estadão,[5] Mourão foi correto ao defender a não intervenção, sendo que a estratégia principal brasileira seria a “ação conjunta e a pressão financeira e econômica até asfixiar o regime” (de Nicolás Maduro).

A avaliação da mídia sobre a participação de Mourão nos episódios de crise venezuelana é majoritariamente favorável quando comparada a de Ernesto Araújo. Tal avaliação frequentemente se estende por toda cúpula militar do governo. A Folha de São Paulo,por exemplo, atribui aos militares a defesa da não intervenção na Venezuela, uma posição reforçada pelo Estado de São Paulo e O Globo.

Oficialmente os jornais são contrários à intervenção na Venezuela, preferindo a adoção de medidas “legais e democráticas” para o “restabelecimento da ordem no país”. Há uma defesa exaustiva de “eleições livres e iguais”. Todavia em poucos casos se observa o uso da expressão “soberania” ou “autodeterminação” para tratar do caso venezuelano. A realização de eleições, com participação de observatórios internacionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA) é fundamental, segundo os jornais, para uma “transição de governo”.

Quanto ao enquadramento de Juan Guaidó, podemos perceber um posicionamento razoavelmente favorável da mídia, principalmente nos artigos de opinião, editoriais e colunas. A repetição do reconhecimento conferido a Guaidó “por mais de 50 países, incluindo Brasil e Estados Unidos” evidencia uma suposta legitimidade frente ao governo Maduro, que é reforçada pelos jornais. Também foi possível identificar comentários sobre a personalidade de Guaidó, com destaque ao “sorriso e ao jeito de acenar que lembram o ex-presidente norte-americano Barack Obama”[6]; e ao estilo “social-democrata que admira aspectos do governo Chávez e lamenta descaminhos de Maduro”[7]. As declarações objetivam a construção de um perfil moderado e democrático em comparação ao autoritário Nicolás Maduro.

Entretanto, apesar do destaque conferido a Juan Guaidó por parte da mídia brasileira, não houve unanimidade quanto ao tratamento que lhe foi conferido. As classificações oscilaram entre “líder da oposição venezuelana”, “líder da Assembleia Nacional” ou mesmo “presidente interino”. Maduro, por outro lado, à exceção de reportagens publicadas pelo Estadão, foi sempre tratado como “ditador” ou “usurpador” pelos jornais O Globo e Folha de São Paulo.

Segundo os jornais, após uma tentativa frustrada de enviar ajuda humanitária que ocasionou conflitos, violência, deserções pouco significativas das Forças Armadas Venezuelanas e a queima de um caminhão na fronteira com a Colômbia[8], a capacidade de Guaidó para liderar uma mudança de governo no país passou a ser questionada – apesar de não esboçarem mudança significativa em relação ao papel exercido pelo opositor. O dito “fracasso” de Guaidó em relação a operação humanitária é visto pelo jornal O Globo[9], por exemplo, como “suficiente para enfraquecer sua projeção internacional”.

Neste contexto, a visita de Guaidó ao Brasil, como parte de uma série de encontros com chefes de Estado na América do Sul, não obteve tanto destaque da mídia. Ruídos sobre a recepção com prerrogativas de chefe de Estado dentro da cúpula militar do governo e as declarações polêmicas de Bolsonaro foram os objetos de maior atenção. No encontro, os jornais brasileiros reforçaram o discurso da não intervenção e a possibilidade de concessão de anistia oferecida por Juan Guaidó a Nicolás Maduro, caso ele coopere com uma “transição de governo”.

A repercussão do encontro entre Guaidó e Bolsonaro na mídia brasileira foi pouco expressiva. O fato pode indicar certa cautela com o tratamento oferecido à oposição venezuelana e aos desdobramentos da crise para a inserção internacional brasileira.

 

CONCLUSÕES

 Ficou evidente que a crise na Venezuela é tema de grande interesse da mídia brasileira. A possibilidade de uma intervenção militar no país vizinho, ventilada por representantes dos Estados Unidos e pela oposição venezuelana, colocou em debate a participação do Brasil no caso. A problemática envolvendo o apoio a uma ação militar e a manutenção da linha do diálogo e do pacifismo, aspectos tradicionais da política externa brasileira, expos tensões que o governo Bolsonaro vem enfrentando no cenário internacional ao longo dos três primeiros meses de governo.

A condução da política externa brasileira, disputada por civis e militares, foi alvo de críticas por parte dos jornais brasileiros. Um alinhamento automático aos Estados Unidos na resolução da crise venezuelana é visto pela imprensa como prejudicial à inserção internacional brasileira. Um dos argumentos utilizados é o histórico de intervenções dos Estados Unidos na América Latina, outro são os desdobramentos que tal alinhamento poderia causar nas relações com Rússia e China. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aponta para um “abuso de inconsistência na política externa”[10] que pode arranhar a imagem internacional do Brasil. Outra preocupação relativa a uma possível crise entre Brasil e Venezuela e considerada também como um freio aos ímpetos mais intervencionistas tem relação com o estado de Roraima que atualmente não faz parte do Sistema Interligado Nacional e depende da energia fornecida pela hidrelétrica de Guri, no norte da Venezuela.

Diferentemente de governos passados, onde o protagonismo das relações exteriores estava a cargo do Presidente da República ou mesmo do Ministro de Relações Exteriores e seus auxiliares, neste caso específico, foi o vice-presidente da República, General Hamilton Mourão, quem deu o tom da diplomacia brasileira. A participação de Mourão no Grupo de Lima, suas falas em relação ao posicionamento brasileiro de não-intervenção e a experiência como adido militar da embaixada brasileira na Venezuela foram usados pela mídia brasileira como prerrogativas de legitimidade para seus posicionamentos. De modo geral, os jornais assumiram uma posição neutra ou assumidamente favorável a Mourão que se estendeu a cúpula militar do governo Bolsonaro.

[1] Presidente vai aos EUA em busca de novas oportunidades entre os países. Disponível em <http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-o-planalto/noticias/2019/03/presidente-vai-aos-eua-para-a-construcao-de-novas-oportunidades-entre-os-paises>.

[2] “Guaidó define volta à Venezuela, apesar de ameaças”. Reportagem, Estadão, A12, 1/3/2019.

[3] “Hora decisiva para a cleptocracia da Venezuela”. Editorial, O Globo, p.2, 23/2/2019.

[4] “EUA pressionam Brasil a usar força militar em operação na Venezuela”. Folha de São Paulo, A12, 21/2/2019.

[5]“Maduro, larga o osso!”. Estado de São Paulo, p.A8, 26/2/2019.

[6] “Venezuelanos foram da resignação à expectativa de mudança com Guaidó”. Folha de São Paulo, p.A16, 23/2/2019.

[7] “Administrando o caos”. Folha de São Paulo, p.A8, 26/2/2019

[8] O episódio atribuído a membros do governo de Maduro e amplamente veiculado pela mídia brasileira já foi desmentido pelos meios de comunicação internacionais.

[9] “Maduro tem vitória relativa”, O Globo, p.26, 28/2/2019

[10] “A vez da Venezuela”. O Globo, p.11, 3/3/2019