14/06/2019 -

Por Juliana Gagliardi e João Feres Junior.

No último dia 9 de junho, a agência de notícia The Intercept Brasil deu início à publicação de uma série de reportagens investigativas baseadas na divulgação de conversas entre membros da força-tarefa da Operação Lava Jato no aplicativo de mensagens Telegram.

No dia 10 de junho, o Jornal Nacional cobriu o evento dedicando a ele 14m30s do seu tempo. Na chamada, os âncoras do telejornal diziam que a divulgação de mensagens atribuídas a Sergio Moro, a procuradores da Lava Jato e ao coordenador da operação, Deltan Dallagnol, havia provocado reações no meio jurídico e que essas manifestações se dividiam entre o conteúdo das supostas conversas e a forma ilegal pela qual teriam sido obtidas.

            A matéria principal foi centrada na divulgação das mensagens e concedeu amplo espaço a Dallagnol – reproduzindo diversos trechos do vídeo em que o procurador rebate a matéria e defende a operação –, a entidades jurídicas que defendem os procuradores envolvidos e, particularmente, a Moro – citando os pronunciamentos do presidente e o vice-presidente da República em sua defesa. E, embora com foco no que considera a interceptação “criminosa” de mensagens – e não na gravidade de seu conteúdo –, o telejornal também cita, por outro lado, críticas da OAB e do Conselho Nacional do Ministério Público ao conteúdo das conversas divulgadas e a possibilidade de desvio de conduta. Trechos da defesa de Lula também são mencionados, ocupando 35 segundos de tempo da matéria.

O telejornal trata o Intercept como um site, sem nenhuma contextualização, reproduz trechos das “supostas” conversas entre Moro e Dallagnol e aponta críticas feitas pela agência, repetindo com frequência que eram falas e conclusões “segundo o Intercept”.

            No dia 11 de junho, o telejornal dedicou 9 minutos e meio ao assunto. Desta vez, desde a chamada, o enfoque foi na suspeita da ocorrência de uma ação orquestrada na invasão de celulares de Moro e dos procuradores. A chamada também informa que o ministro comparecerá na próxima semana ao Senado para “falar” sobre a divulgação das mensagens atribuídas a ele. Na matéria principal, o jornal apresenta as opiniões de ministros do STF.  São reproduzidas falas de Gilmar Mendes dizendo que o fato de serem obtidas de maneira ilegal não necessariamente leve à anulação de provas, de Marco Aurélio Mello dizendo que todos são a favor do combate à corrupção, mas não “a ferro e fogo” e de Luís Barroso que, por sua vez, diz que é preciso ter cautela e esperar o fim da apuração, mas que ressaltou a importância da Operação Lava Jato e a “ação criminosa” na obtenção de provas. Mais uma vez o jornal abriu espaço para a defesa de Lula, transmitindo trecho da fala de seu advogado, Cristiano Zanin. Em seguida, a edição fala da agenda de Moro após a divulgação e mostra vozes do Ministério da Justiça e do General Villas-Bôas, rechaçando o uso de conversas “privadas” obtidas por “meio ilegal” e em defesa de Moro, respectivamente. Também menciona novamente a OAB e sua recomendação de que os envolvidos se afastassem dos cargos para que as investigações ocorressem sem suspeitas. A parte final da matéria abordou a suspeita da Polícia Federal de que a invasão tivesse sido uma ação orquestrada e deu voz à Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge que considera a ação um ataque grave.

No dia 12, altera-se a estratégia da cobertura nos 11 minutos e 33 segundos dedicados ao caso. Se até aqui baseava-se numa constelação de citações de terceiros e apontamentos, desta vez o próprio âncora caracteriza na chamada o vazamento das conversas como uma “ação criminosa”. Após informarem que a Câmara aprovou convite a Moro para explicar as conversas “atribuídas” a ele, o telejornal passa a focar no ataque hacker e no fato de que teria sido muito mais amplo do que se supunha. Após apresentar o procurador José Robalinho Cavalcanti, que teria conversado com o hacker pensando ser outro procurador, e Dodge, conclamando a unificação das investigações sobre os ataques a membros do MP, a repórter do telejornal diz: “Invadir, hackear celulares e ter acesso a dados privados é crime”.

Posteriormente, a reportagem reproduz pronunciamento da força-tarefa da Lava Jato que destaca a possibilidade de hackers fabricarem diálogos usando perfis de autoridades e diz não ser possível aferir se houve edições, alterações, e que diálogos inteiros podem ter sido forjados. A nota, divulgada pelo telejornal, diz ainda haver dúvidas “inafastáveis” quanto à autenticidade das conversas, e que “invariavelmente darão vazão à divulgação de fake news”. O jornal apresenta outras vozes que dizem que a invasão é grave e descrevem minuciosamente como pode, em hipótese, ter ocorrido o hackeamento, destacando, ao fim, que Moro e Dallagnol não veem irregularidades nas conversas, mas reafirmam que não podem reconhecer sua autenticidade.

Se no primeiro dia da cobertura houve espaço para apontar críticas ao conteúdo das conversas e outras vozes, como a defesa de Lula, do segundo para o terceiro dia deu lugar à narrativa de uma conspiração criminosa contra o Ministério Público e a Operação Lava Jato. Passou a ganhar espaço a desqualificação do material, seja pelo método de obtenção de seu conteúdo seja pela alegação de risco de inautenticidade. O jornal dá ampla voz aos membros da operação focando no acesso e divulgação das mensagens, enquanto se exime de explorar as questões éticas, legais e políticas relativas ao comportamento de Moro, dos procuradores da Lava Jato e de ministros do Supremo, citados nas conversas.