31/07/2019 -

Por Eduardo Barbabela, Juliana Gagliardi, Natasha Bachini e João Feres Jr.

dia50

No dia que a Vaza Jato completa 50 dias, as edições diárias dos jornais deram pouca importância ao escândalo, com apenas 15 textos. O principal assunto da cobertura da Vaza Jato foi a descoberta de cópias das mensagens hackeadas no exterior. A Folha de São Paulo revela também a opinião de Sérgio Moro sobre a delação de Antonio Palocci.

O GLOBO

glb

O Globo retomou uma cobertura tímida, com apenas dois textos. Em artigo sobre segurança digital, Fernando Gabeira defende que o objetivo do hacker era combater a Lava Jato. Em reportagem, o jornal noticia a possibilidade de existirem cópias de mensagens fora do país.

ESTADÃO

esp

O Estadão também reduziu sua cobertura, com apenas três textos que citam a Vaza Jato. Em reportagem o diário aponta as articulações tanto da base como da oposição para interrogar os hackers na CPI das fake news.

FOLHA

fsp

A Folha de São Paulo mantém-se na vanguarda da cobertura e traz dez textos sobre o caso. O diário divulga novas conversas que indicam que Moro considerava fraca a delação de Antonio Palocci, a mesma que o ex-juiz divulgou antes da eleição de 2018. Na coluna Painel, Daniela Lima divulga as movimentações no Congresso para derrubar a portaria editada por Moro que prevê deportação de estrangeiros considerados perigosos. Em artigo, Leandro Colon comenta diversas afirmações de Moro no Twitter que desmentem seu depoimento no Senado de que estaria distante das investigações da Polícia Federal.

JORNAL NACIONAL

A edição do Jornal Nacional de 27 de julho dedicou mais de 23 minutos de seu tempo total ao caso dos hackers presos. Foram nove matérias destinadas à temática. A primeira e mais longa (440s) teve como chamada a afirmação de um dos suspeitos detidos (DJ) de que o hacker (Walter Delgatti) teria, supostamente, a intenção de vender os dados ao PT. A matéria fala sobre as atividades financeiras dos suspeitos e o contato existente entre eles durante o hackeamento e, retoma a especulação sobre a intenção de venda dos dados. Ao fim, divulga trechos da nota do PT em resposta.

A segunda matéria (179s) começa com foco na ex-deputada Manuela D’Ávila (PCdoB), que teria feito a ponte entre o hacker, então anônimo, e o jornalista Greenwald. O telejornal também destaca que o hacker, e depoimento, ressaltou que não cobrou nada pelos diálogos e de que os contatos com o Intercept foram feitos de forma anônima. Em seguida, a matéria conta novamente o evento e os destaques do depoimento de Delgatti já narrados no dia anterior e termina retomando Manuela e seu pronunciamento público sobre o caso.

A terceira matéria (83s) fala do envolvimento do terceiro suspeito, Danilo Marques, informando algumas das afirmações feitas em seu depoimento à Polícia Federal; e a quarta (85s), sobre o depoimento de Suelen de Oliveira, esposa do DJ, justificando as origens da quantia em dinheiro que ele mantinha em casa.

A quinta matéria (67s) aborda a manifestação do presidente Jair Bolsonaro em apoio a Moro. O jornal reproduz trecho da fala do presidente, no qual afirma que o ministro não destruirá o material apreendido e ressalta que a invasão foi criminosa. Bolsonaro tenta ainda criminalizar a atuação do Intercept, afirmando também considerar crime que o site tenha publicado “informações mentirosas” e “depois, mesmo sabendo que foram mentirosas” não tenha se retratado. A sexta matéria (177s) aborda a reação das entidades de imprensa às declarações do presidente – não sobre as mensagens publicadas pelo Intercept, mas sobre outra fala em que Bolsonaro falou sobre deportação sumária de estrangeiros. Ao dizer que o caso de Glenn não se encaixa nessa portaria, o presidente afirmou que o jornalista seria “malandro” por ter se casado e adotado crianças brasileiras e assim não poder ser deportado. O jornal reproduz trecho da fala de Bolsonaro, reproduz trecho da resposta de Glenn e cita o posicionamento da ABI em defesa ao jornalista.

A sétima matéria (111s) fala sobre a nova portaria Ministério da Justiça, publicada no dia anterior (26/7) sobre a deportação sumária de estrangeiros suspeitos de envolvimento em crimes de terrorismo, tráfico de drogas, pessoas ou armas, pornografia ou exploração sexual infanto-juvenil. Esse evento motivou as declarações do presidente da matéria anterior. O jornal destaca os argumentos do ministro Sergio Moro, defendendo a portaria, e de parte da Defensoria Pública da União e da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia a criticando.

A oitava matéria (163s) informa mais uma vez que a Polícia federal decidiu prorrogar a prisão temporária dos quatro suspeitos do hackeamento para análise dos registros encontrados em computadores e celulares. A nona e última incursão (87s) é uma chamada para o Fantástico, que mostraria outras acusações contra Delgatti.

De modo geral, nota-se que o jornal tem dado amplo espaço à cobertura das prisões e depoimentos dos suspeitos em consonância com o enquadramento que escolheu dar aos eventos do vazamento desde o início, quando já destacava a publicização das mensagens pela chave quase exclusiva do crime de hackeamento. Continuamos observando a ausência de cobertura e problematização acerca do conteúdo das mensagens e da atuação do ex-juiz e da força-tarefa da operação Lava Jato, mesmo que o assunto tenha ocupado mais de 23 minutos do noticiário.

CONCLUSÃO

Sem novas informações das investigações da Polícia Federal, Estadão e O Globo novamente mostram pouco interesse pela Vaza Jato. A Folha de São Paulo, entretanto, traz nova informação sobre a atuação de Moro durante o período eleitoral. Ainda que tenha feito defesa do direito constitucional de jornalistas divulgarem informações, O Globo parece não estar interessado em explorar o escândalo em si.