20/11/2019 -

No dia 27 de outubro, a coalizão Frente de Todos liderada por Alberto Fernández e pela ex-presidente Cristina Kirchner venceu as eleições presidenciais em primeiro turno na Argentina. Com 48,10% dos votos a dupla Fernández-Kirchner superou a coalizão governista Juntos por el Cambio de Maurício Macri e Miguel Pichetto que obteve 40,37% dos votos. O resultado confirmou a vantagem obtida por Fernández nas prévias eleitorais (ou PASO) realizadas em agosto. Em recente análise do Manchetômetro mostramos que, após as prévias, a imprensa brasileira ficou apreensiva com um suposto retorno do “populismo” na Argentina representado por Cristina Kirchner. Apostando em uma (improvável) recuperação de Maurício Macri e reconhecendo o cenário de crise econômica, os meios já antecipavam suas críticas a um possível governo peronista.

Quando Maurício Macri, então opositor, venceu a disputa com Daniel Scioli no segundo turno das eleições presidenciais de 2015[1] os meios alardearam o “fim do kirchnerismo”. Com o objetivo de comparar o tratamento conferido pela imprensa brasileira à vitória de Maurício Macri, em 2015, e aquele dispensado à de Alberto Fernández, em 2019, analisamos as capas e as páginas de opinião (editoriais, artigos e colunas) dos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e O Globo na semana subsequente às eleições presidenciais argentinas.[2] Com isso, buscamos identificar diferenças e semelhanças no tratamento dos jornais nos dois episódios.

CAPAS E MANCHETES

Nas três capas do dia 23 de novembro de 2015 podemos ler “o fim do kirchnerismo”. Se é verdade que a vitória da oposição encerrou um ciclo de 12 anos de governos kirchneristas, a sentença é quase uma imposição. Somente O Globo usou uma adversativa, lembrando que o novo presidente ainda teria que enfrentar certa resistência da oposição. Em termos gerais, a vitória de Macri foi associada à renovação e marcada com termos como “um novo tempo”, “um dia histórico” ou “uma mudança de época”. Nos três casos analisados uma foto de Macri acompanha a manchete principal. Os registros fotográficos nas capas dos periódicos sintetizam um momento de festa e mostram um personagem feliz, seja sozinho ou acompanhado de sua família, como podemos ver abaixo.

Fonte: Acervos Digitais/ Manchetômetro (2019)

Apesar de otimistas, os meios revelaram certa preocupação com os “desafios” que o novo presidente teria que enfrentar tais como: a crise econômica, a minoria de oposição no Congresso e a alta inflação. Segundo a imprensa brasileira os problemas, sobretudo econômicos, eram um resultado da má gestão kirchnerista[3] Na ocasião, o candidato Daniel Scioli foi citado apenas como “candidato de Cristina”, “candidato do kirchnerismo” ou “candidato governista”. A impressão que temos, ao ler estas manchetes, é que a vitória de Macri “enterrava” de vez o peronismo.

As eleições de 2019, no entanto, marcam justamente o retorno do peronismo ao poder após quatro anos. E o posicionamento adotado pelos jornais brasileiros é diferente daquele observado em 2015. Ao olhar as capas, percebemos que não houve destaque para a vitória de Alberto Fernández. No dia 28 de outubro, a Folha de São Paulo estampou uma foto do presidente eleito da Argentina fazendo o gesto de “Lula Livre”. A imagem remete a uma saudação de Fernández ao ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em razão do seu aniversário celebrado no dia 27 de outubro. Pelo Twitter, Alberto parabenizou Lula, a quem chamou de “homem extraordinário” e alegou que sua prisão foi injusta. Com esta associação a Folha sugere que Fernández é uma figura política próxima do ex-presidente. Além disso, a imagem utilizada pelo jornal esvazia o conteúdo político do ato que questiona a legalidade da prisão de Lula.

O Estado de São Paulo, por sua vez, dedicou um espaço ínfimo ao resultado. Não houve sequer uma imagem representando a eleição. O jornal limitou-se a retratar o fato como “vitória da esquerda”. Já  O Globo utilizou o sobrenome Fernández (compartilhado por Alberto e Cristina Kirchner) e estampou uma foto onde Cristina aparece em primeiro plano, gerando uma interpretação ambígua sobre o real vencedor da disputa. Ao contrário do que se viu em 2015, o jornal não adota expressões como o “fim do macrismo” ou “Alberto Fernández vence Maurício Macri”. A linguagem empregada também é distinta: se em 2015 o kirchnerismo “foi derrotado”, em 2019 Macri simplesmente “reconhece a derrota”.

Fonte: Acervo Digital/Manchetômetro (2019)

Como podemos ver, a representação da comemoração da vitória de Fernández foi bem mais modesta, quando não ambígua, como na foto de O Globo comentada acima, que dá preponderância à figura de Cristina Kirchner. Este posicionamento reforça a narrativa da mídia brasileira que apresentou Daniel Scioli e Alberto Fernandez como apêndices de Cristina Kirchner. Tais interpretações poderiam ser exageradas se não encontrassem eco nas opiniões publicadas em editoriais, artigos e colunas dos mesmos jornais.

OPINIÃO: ARTIGOS, COLUNAS E EDITORIAIS

O primeiro dado que chama atenção é a diferença no número de textos. Enquanto as eleições de 2015 mobilizaram 13 publicações em quatro dias; em 2019, contabilizamos apenas 7 publicações no mesmo período. Este dado indica que houve uma redução na atenção dedicada ao tema.

Quanto ao conteúdo, podemos perceber uma diferença entre os termos e opiniões usados em cada ocasião. A vitória de Macri foi percebida pela imprensa como um “marco histórico”. Porém, o então candidato já havia perdido para Scioli nas prévias e sua vantagem foi de apenas 2% no segundo turno, situação que não acontecia na Argentina desde 2003[4]. Já no caso de Fernández, o resultado foi visto como surpreendente – mesmo com o êxito nas prévias, uma diferença de 7% para o segundo colocado e a vitória em primeiro turno. Os jornais deram ênfase a “diferença menor do que a esperada” e a capacidade de recuperação do atual mandatário desde as PASO insinuando que a vitória de Fernández foi “apertada”.Fonte: Manchetômetro (2019)

Se Macri foi apresentado como candidato de “centro-direita”, “liberal”, “conservador”, “reformista”, “republicano”, os Kirchner foram enquadrados como representantes de “extrema-esquerda”, “populistas”, “autoritários”, “irresponsáveis”, “bolivarianos”, “intervencionistas”, “corruptos”, “intimidadores” e “ideológicos”. Houve também uma associação temporal: enquanto o macrismo simbolizava o futuro (renovação/reconstrução), o kirchnerismo foi tratado pela imprensa brasileira como atrasado, isolado internacionalmente e preso ao passado. A análise de valências mostra que em 2015 Macri possuía um número ligeiramente maior de avaliações neutras/favoráveis, enquanto Cristina Kirchner tinha uma avaliação majoritariamente negativa.

Gráfico 1 – Valências Maurício Macri, Daniel Scioli* e Cristina Kirchner (2015)

Fonte: Manchetômetro (2019). A análise considera, de forma agrupada, os artigos de opinião, editoriais e colunas publicados nas edições digitais dos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e O Globo. *Dos 13 textos contabilizados Daniel Scioli é citado em apenas 8.

Já em 2019, as críticas ao governo Macri recaíram sobre aspectos econômicos. Para o Globo o presidente argentino não soube executar seu projeto de reformas liberais[5]. Para a Folha de São Paulo[6] Macri “entrega um país, em muitos aspectos, pior do que recebeu”. Mesmo assim, Cristina Kirchner é quem possui o maior número de valências contrárias. Alberto Fernández, por sua vez, é uma incógnita para a imprensa – por isso as ambivalências.

Gráfico 2 – Valências Maurício Macri, Alberto Fernández e Cristina Kirchner (2019)

Fonte: Manchetômetro (2019). A análise considera, de forma agrupada, os artigos de opinião, editoriais e colunas publicados nas edições digitais dos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e O Globo.

Se em 2015 a vitória de Macri foi instrumentalizada pela mídia como crítica ao governo de Dilma Rousseff, sobretudo na área econômica, em 2019 os jornais mostram certa preocupação com a relação Fernández-Bolsonaro dada a inegável diferença ideológica entre ambos. Os meios advogaram por relações pragmáticas tendo em vista a preservação dos vínculos comerciais e a importância  do mercado argentino para a economia brasileira. Nas relações exteriores, os jornais enxergam êxito do macrismo. A aproximação com Estados Unidos e Europa, a possibilidade de acordo entre Mercosul e União Europeia, o afastamento do “eixo bolivariano”, principalmente da Venezuela, e a afinidade com a Aliança do Pacífico figuravam como sinal de uma agenda “desideologizada”, diferente da brasileira.

Ao contrário da confiança mostrada no início da gestão macrista, os jornais veem com desconfiança e lançam dúvidas sobre o governo de Alberto Fernández, interpretando como negativa uma possível influência da ex-presidente Cristina Kirchner. Considerado um “peronista moderado”, Fernández é visto como uma figura marginal – sua participação em outros governos, como nos do radical Raúl Alfonsín e no do peronista neoliberal Carlos Menem são ignoradas, sendo o elemento de maior importância sua vinculação com o kirchnerismo. Os meios sugerem, enfim, que Cristina terá os meios para governar em seu lugar.

CONCLUSÕES

Analisando os dois momentos eleitorais na Argentina e o modo como os jornais brasileiros se posicionaram, podemos perceber que houve por parte da imprensa uma mobilização mais significativa em torno da vitória de Maurício Macri em 2015. Embora a vitória de Fernández tenha se dado de forma mais representativa, os jornais mantiveram sua atenção para a recuperação de Macri , que conseguiu reduzir a diferença de pontos percentuais desde as prévias. Se em 2015 a mídia se mostrou confiante com a vitória de Macri e com os efeitos que ela poderia gerar sobre a América Latina (fim do “bolivarianismo”, ascensão de governos de centro-direita), em 2019 a posição majoritária foi de dúvida e desconfiança sobre quem “de fato” governará a Argentina ou mesmo como ficarão as relações com o Brasil, hoje sob o governo Bolsonaro.

 

[1]A coalizão Frente para la Victoria de Daniel Scioli e Carlos Zanini obteve 37,08% dos votos no primeiro turno das eleições de 2015 contra 34,4% da chapa Cambiemos, de Maurício Macri e Gabriela Michetti. No segundo turno Macri alcançou 51,3% dos votos e Scioli 48,6%.

[2] Período de análise: 23 a 26 de novembro de 2015 e 28 a 31 de outubro de 2019.

[3] Uma narrativa que se tornou corriqueira ao longo do governo Macri, como analisamos em outras ocasiões. Ver: http://www.manchetometro.com.br/index.php/publicacoes/serie-m/2018/05/24/argentina-e-fmi-cobertura-da-grande-midia-brasileira/

[4] Em 2003, Néstor Kirchner disputaria o segundo turno com o ex-presidente Carlos Menem. No entanto, não houve necessidade de segundo turno dado que Menem se retirou da disputa.

[5] “Argentina e Mercosul são estratégicos”, O Globo, p.2, 29/10/2019.

[6] “Hora de Conversar”. Folha de São Paulo, p.2, 29/10/2019.